Literatura

“Despaixão”, de Paula Lopes Ferreira, investiga violência doméstica

Estreia da autora é um lançamento da editora Seja Breve

Despaixão (Seja Breve)

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Despaixão” começa com uma frase rasgante: “Morri na noite de Natal”. Já amanhecia quando a narradora voltava para casa. Ao abrir a porta, dá de cara com si mesma. Ela se vê morta, encostada na parede e coberta de enfeites de Natal. “Fiquei parada olhando, me aproximei, tomei-me em meus braços, desenraizada da casa, me carreguei com tento e, quando de fato aceitei que não voltaria, deitei-me no chão, como para me apaziguar dessa ausência abandônica”. Essa morte alegórica é o desfecho de uma violência contínua e desmesurada, mas também a abertura marcante do romance de estreia de Paula Lopes Ferreira. “Despaixão” é um lançamento da nova editora Seja Breve.

As faces da violência doméstica

A violência doméstica e suas incontáveis manifestações é investigada por Paula Lopes Ferreira neste breve e marcante livro, num relato cru, escrito à flor da pele. Nesse sentido, entre o choque e o medo, a negação e a dor, a submissão e a resistência, uma mulher mergulha no próprio trauma, uma experiência íntima, para falar de uma trama comum à tantas outras mulheres. Assim, a trama aqui é mais do que apenas o desenvolvimento de uma história: trama como algo que prende, que impossibilita o movimento, que impede uma saída.  

Como um corpo fraturado pela violência, “Despaixão” é escrito a partir de uma série de fragmentos que formam um todo. Dessa forma, numa narrativa lacunar, Paula Ferreira Lopes alterna registros e estruturas textuais, para narrar um cotidiano rasgado pela brutalidade. “Fragmento. Pedaço de algo que foi partido mas carrega o todo. Mesmo fração, ele é toda dor. Dor brava que não finda; lanha e reverbera”.

O desamor de um casamento marcado pela violência física e simbólica, por um discurso que tolhe a auto-estima e a singularidade. Além disso, os gritos, as ofensas, as marcas no corpo e na mente se acumulam. Em seguida, vem o pedido de desculpas, o (suposto) arrependimento. Dessa forma, estabelece-se um ciclo que se repete, nessa e em outras ordens, ininterruptamente. “Não vou fazer mais. Me perdoa. Por favor me dê uma chance. Desculpa”.

Texto como libertação

Num dos momentos altos e mais libertadores do texto, um corpo é atropelado continuamente. No volante, uma mulher com as marcas dos hematomas escondidas pela manga comprida da camisa. O carro vai e volta sobre o corpo do marido. A cada volta, o carro chacoalha menos. Já o prazer da mulher se intensifica. A literatura, assim, como revanche. 

Em uma escrita vertiginosa e febril, que recusa a linearidade, Paula Lopes Ferreira caminha entre a lucidez e o delírio, entre a vigília e o pesadelo. “Minha condição é histórica?”, a narradora pergunta em certo momento. A resposta está nas estatísticas. Em suma, “Despaixão” analisa a violência doméstica como uma face da sociedade tradicional, do patriarcado, de uma sociedade onde o clichê sobre “não meter a colher” segue sendo a regra. Mas o texto de Paula não é colher, é faca. Dilacerante.

Encontre “Despaixão” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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Publicado por tgpgabriel

Publicado em 19/09/25

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“Despaixão”, de Paula Lopes Ferreira, investiga violência doméstica

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