Literatura

“De quatro”, de Miranda July, investiga as obsessões de uma mulher de meia-idade

Best-seller do New York Times, romance finalista do Women's Prize ganha edição brasileira com tradução da poeta Bruna Beber

Miranda July (Créditos Elizabeth Weinberg)

Prestes a completar 46 anos, uma artista decide cruzar a estrada, saindo de Los Angeles rumo à Nova York, sozinha. Contudo, a solitária e aguardada viagem planejada dura apenas meia-hora. Numa parada em uma pequena cidade vizinha à Los Angeles. Ali, um encontro fortuito e o pequeno quarto de um hotel de beira de estrada reconfiguram a jornada da narradora. Se antes ela buscava uma aventura, cruzando diferentes localidades do país, agora a aventura se dá sobretudo internamente, tão ou mais instigante do que ela havia planejado.

“Harris mandou uma mensagem e eu respondi dizendo que Nova York não estava lá essas coisas, que eu sentia falta de dirigir, o que provavelmente não era o que uma motorista que cruzava o país diria, mas estava tentando ser honesta. Ele disse que estava um pouco aliviado por eu ter chegado em segurança e eu me perguntei se estava mesmo em segurança ou se deveria ter me acidentado no caminho. À medida que o sol se punha, minha suposição se confirmava, de que eu estava presa numa espécie de purgatório, nem aqui nem ali, muito menos em casa, mas sobretudo em lugar algum. A beleza do ambiente só tornava a fuga mais grave, pior.”

“De quatro”, da Miranda July, é um romance cru, honesto e, por vezes, até mesmo bruto. A escritora mergulha no âmago de uma protagonista complexa. Assim, reflete sobre questões como o amor, o sexo, os relacionamentos. Fala, também, sobre a saúde física e mental, hormônios, o mercado de trabalho e a parentalidade sob uma perspectiva singular: a chegada da meia-idade. Lançado pela Amarcord, selo da Editora Record, o livro tem tradução da poeta Bruna Beber.

Marcações de gênero

Num processo tanto doloroso quanto deliciosamente recompensador, a personagem redescobre a si mesma, na medida em que reconfigura seus próprios relacionamentos: com o marido, Harris, com sua criança, Sam, com as amigas e com um jovem dançarino. Num muito bem-vindo olhar atento ao próprio tempo em que é escrito, “De quatro” trabalha com o gênero neutro na construção Sam, discutindo pontos como a autonomia e a não-binariedade. “Não atribua gênero a minha criança”, ela destaca em um momento da narrativa.

Envelhecimento: um fim?

Miranda July trabalha com temas caros ao feminino com muita liberdade e franqueza, tocando em feridas tanto do corpo, quanto da mente. Ora doce, ora amargo, e quase sempre ácido, “De quatro” investiga as obsessões e as expectativas de uma mulher de meia-idade para descobrir que o envelhecimento não quer dizer um fim, mas um (re)começo.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 03/06/25

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“De quatro”, de Miranda July, investiga as obsessões de uma mulher de meia-idade

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Miranda July (Créditos Elizabeth Weinberg)