“Coração sem medo” conclui projeto literário de Itamar Vieira Junior
Novo livro do premiado escritor acompanha a busca desenfreada de uma mãe pelo filho desaparecido
Itamar Vieira Junior, autor de Coração sem medo (Foto Eduardo Anizelli)
Novo livro do premiado escritor acompanha a busca desenfreada de uma mãe pelo filho desaparecido
Itamar Vieira Junior, autor de Coração sem medo (Foto Eduardo Anizelli)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Em certo momento de “Coração sem medo”, a protagonista Rita Preta reflete sobre o banzo de outros tempos que a acompanha. Banzo é um termo de origem Bantu que descreve uma profunda tristeza, um estado de melancolia. Rita Preta, mãe solo de três filhos e operadora de caixa de um supermercado, vê sua vida virada do avesso com o desaparecimento de seu primogênito. É justamente nessa busca, em que poucas pistas parecem levar a lugar algum, que se manifesta o banzo da personagem. Mas não só. Nesse sentido, ela própria aponta, tal sentimento vem de outros tempos, vem de sua ancestralidade, “de perdas acumuladas por muitas vias e razões: ser desgarrado da terra, perder os parentes e a comunidade, ser privado de liberdade, ter o corpo explorado e aniquilado”. “Coração sem medo” é o livro que encerra a Trilogia da Terra, de Itamar Vieira Junior.
Cid não voltou para casa. Rita Preta parte, então, numa jornada desenfreada em busca de um filho perdido. O último encontro entre os dois foi marcado por uma discussão inflamada, de palavras rascantes e um arrependimento profundo. Dessa forma, o sentimento é de suspensão, a interrupção repentina do tempo presente. Assim, não parece haver futuro possível sem a presença do primogênito. Nessa imprecisão do futuro, o texto de Itamar faz longas digressões no tempo, em direção ao passado, às origens de Rita Preta e daqueles que a antecederam. Assim, reconstituir o passado como forma de dar solidez ao presente e à possibilidade de um porvir.
Neste novo romance, Itamar Vieira Junior transporta sua literatura – interessada na denúncia social e no racismo que estrutura historicamente a sociedade brasileira – para o ambiente urbano, para uma Salvador contemporânea – mas que poderia ser outra grande cidade brasileira, na medida em que tantas mazelas sociais se repetem e se espelham em diferentes espaços. Se estamos mais distantes do campo, isso não quer dizer que estejamos afastados de questões ligadas à terra, como a especulação imobiliária e a gentrificação.
“Ela pensa nos vagantes – e na vagante que ela própria é – em busca de terra e morada, privados do chão das ruas e das casas, do chão para pisar e viver, para trabalhar e colher, para repousar e morrer – para se tornar terra outra vez.”
A terra, em “Coração sem medo”, também ganha uma dimensão mais metafórica do que nos livros anteriores. Terra, substantivo feminino. Terra é mãe. A sensação de desterro de Rita, compartilhada historicamente por tantos e tantas, se dá, sobretudo, pela ausência do filho. Um filho que também é chão – um chão que perde a solidez, o equilíbrio.
Itamar Vieira Junior beira o documental em diferentes momentos, em vozes textuais que, no conjunto, testemunham um processo que segue em pleno funcionamento, de maneira ininterrupta, ao longo de nossa história: o genocídio da população negra. Nesse sentido, o desamparo, a violência policial, as marcas do colonialismo, as amarras sociais que prendem parte da população brasileira numa estratificação social sem vistas a um futuro possível são alguns dos temas observados com atenção e interesse genuíno pelo autor.
Se registra a brutalidade do cotidiano, o texto de Itamar Vieira Junior também encontra uma poesia possível. Assim, a imaginação, a fabulação como resistência, como possibilidade de acessar histórias silenciadas e interrompidas. Impedidas, durante um período longo demais, de serem documentadas enquanto literatura. “A terra é mãe, ela roga em seus pensamentos, e todo mundo merece ser cuidado como filho.”

Encontre “Coração sem medo” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 27/12/25