Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Matrix, Friends, Sex and The City: o conteúdo de conforto virou moda na pandemia?

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“Conteúdo de conforto” se tornou refúgio de cinéfilos nostálgicos e série maníacos durante o isolamento

Por Karen Viana | Culturadora

Em 22 de setembro de 1994, o público conhecia Rachel Green (Jennifer Aniston), Monica Geller (Courtener Fox), Phoebe Buffay (Lisa Kudrow), Joey Tribbiani (Matt LeBlanc), Chandler Bing (Matthew Perry) e Ross Geller (David Schwimmer) pela primeira vez. Seis amigos norte-americanos vivendo no bairro de Greenwich Village, na ilha de Manhattan, na cidade de Nova York. Até 6 de maio de 2004, com um total de 236 episódios e dez temporadas, Friends permitiu acompanhar seis personagens falando de relacionamentos, amizade e amadurecimento.

Isso para que, quase 20 anos depois, devorássemos os episódios enquanto passávamos dias de isolamento durante uma pandemia global. Ou seja, entre novas ondas, variantes e doses da vacina, uma coisa continua sempre a mesma: o conforto de nossas séries, filmes e novelas favoritas, finalizadas muitas vezes há anos.

Conteúdo de conforto

Em um momento de instabilidades e incertezas, tudo o que queremos abraçar são os velhos tempos. Segundo a Consumoteca, o chamado Confort content, ou conteúdo de conforto, traz segurança. A pesquisa da empresa paulistana mostra que 76% dos entrevistados passaram a assistir reprises e conteúdos, que já haviam assistido antes.

Em 2020, o especial Friends: The Reunion foi visto por cerca de 29% dos lares assinantes de plataformas de streaming HBO Max nos EUA. Detalhe: isso no primeiro dia de lançamento, de acordo com dados da TVision. O número quase bateu a audiência de ‘Mulher-Maravilha 1984’. O filme da DC Comics que estreou no Natal do mesmo ano e que alcançou 32% dos assinantes.

Reboot de Gossip Girl, na HBO Max. Foto: HBO Max.

Os números, no entanto, foram superados. O episódio de estreia de Gossip Girl, reboot da série original de 2007, superou o lançamento de Friends: The Reunion. De acordo com o streamer, o episódio de estreia de ‘Gossip Girl’ ganhou uma nota C + média dos leitores da TVLine. Atraiu recorde de audiência durante seus primeiros quatro dias de disponibilidade.  

Não apenas o cinema e o audiovisual, mas a música também recebeu a onda nostálgica do conteúdo de conforto. Em 2020, o Spotify identificou, na primeira semana de abril, um aumento nos plays em músicas produzidas entre 1950 e 2000. O número de usuários que criaram playlists nostálgicas cresceu 54%, segundo dados da plataforma. Falando de onda nostálgica, também não é possível esquecer do retorno do ABBA, anunciando o primeiro álbum de estúdio após 40 anos. 

Escapismo nostálgico e a indústria cultural

Engolidos pelos dias isolados na pandemia, vivemos imersos na busca por experiências de fuga para tempos mais simples. Na década de 1940, Adorno e Horkheimer elaboravam reflexões sobre a Indústria Cultural. Numa realidade de capitalismo tardio e consolidação da segunda revolução industrial, as produções culturais se convertiam em alienação, numa tentativa de não meditar sobre si mesmo e os arredores.

Em 2022, o discurso ganha uma nova camada. Fomos consumidos por uma infodemia e tivemos — para quem teve o privilégio do home office — a rotina reduzida à reclusão durante a pandemia de covid-19. Desta vez, recorremos ao escapismo da realidade enquanto torcíamos pelo “novo normal” que nunca chegava. Assim, passamos a olhar para um passado positivo e possível para reestabelecer a nossa relação com o presente desafiador.

A palavra ‘nostalgia’ surgiu o século XVII para descrever um estado melancólico de saudades irreal e idealizado, mas ganhou uma mudança a narrativa histórico-social o século XXI. A nova visão afetou a moda, a música, o cinema e todas as áreas da arte.

Remédio para solidão

“A volta ao passado está alicerçada na diluição das grandes narrativas que estruturavam as nossas vidas, que nos davam segurança em relação a um futuro relativamente previsível”, explica Clotilde Perez, especialista em semiótica e professora de comunicação da USP e da PUC-SP, para reportagem do UOL TAB.

Portanto, a nostalgia se torna uma arma para neutralizar o vazio. “É um recurso psicológico que pode ser aproveitado para aumentar a felicidade e ajudar a combater a solidão”, destacam os autores no artigo publicado no periódico Social Psychological and Personality Science.

Positividade

Assistir a uma série de 1990 é apreciar uma pintura mais bonita e positivista de uma realidade. A globalização vinha como uma promessa de felicidade, enquanto hoje vivemos o seu avesso. “E a década de 1990 foi a década mais feliz do século. O muro de Berlim caiu em 1989, tudo ia bem, a tecnologia digital já existia, mas sem os perigos, os excessos, angústias e inseguranças de hoje. Tínhamos o projeto Genoma começando, uma ideia de um mundo multicultural, a gente acreditou nisso”, completou Perez para reportagem do UOL TAB. Em contrapartida ao período de felicidade dos anos 1990, vivemos o pessimismo que arrematou o mundo após o atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova York.

O licenciamento de séries como Friends e filmes como Harry Potter, que já terminaram há anos, segue em alta com todo o conteúdo de conforto, apelo nostálgico, saudosismo e curiosidade dos mais jovens. Além disso, a covid-19 continuou mostrando seus efeitos no entretenimento. 

Harry Potter: De Volta a Hogwarts, disponível na HBO Max. Foto: Warner Bros.

Retorno

A reunião de Daniel Radcliffe (Harry Potter), Rupert Grint (Rony Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger) após 20 anos do lançamento do primeiro filme da franquia Harry Potter conquistou todos os fãs. Harry Potter: De Volta a Hogwarts, se tornou a maior estreia da HBO Max em toda a América Latina e a produção mais assistida da plataforma no Brasil após seu lançamento em 1º de janeiro.

And Just Like That…, disponível na HBO Max. Foto: HBO Max.

Mais ousados do que reencontros, Sex and The City e Matrix apostaram em continuidades de seus universos, comemoradas por uns e decepcionantes para outros. Ainda assim, na primeira semana de estreia, a comédia And Just Like That… foi líder de audiência na plataforma da Warner, primeiro lugar no top 10. Mesmo decepcionando na bilheteria de abertura, com apenas US$ 69,8 milhões, Matrix Resurrections foi visto por mais de 703 mil brasileiros nos primeiros dias de exibição e atingiu a marca de 32,6% entre os dez principais links de cópias falsificadas na semana de estreia.

Tendência pré-pandêmica?

Com a tecnologia ajudando na midiatização do passado e o encorajamento da publicidade, o fenômeno da nostalgia se expande. “Os profissionais de criação na publicidade ajudam a construir esse espírito do tempo, não são todos os países que têm essa capacidade”, diz Perez.

Segundo as previsões da plataforma de marketing digital Falcon.io, uma das tendências para 2022 é a ‘revolução retro’. “A pandemia de covid-19 — uma época de imensa agitação global — nos fez desejar tempos onde palavras como ‘máscaras’ e ‘vacinas’ não eram parte da nossa rotina. Esse anseio coletivo por anos que já passaram está fazendo do marketing de nostalgia  parte do manual de todo profissional de marketing”, diz.

Saudade nos trends

Ainda segundo o relatório, de acordo com a Brandwatch, o volume de menções das palavras ‘nostalgia’ e ‘nostálgico’ está muito maior agora comparado com o período pré-pandêmico. Apesar disso, a ‘nostalgia’ tem ganhado uma alta nos últimos anos. “Do ponto de vista da cultura, já há alguns anos se desenha um horizonte no qual muitas das produções que fazem sucesso são voltadas ao passado, como é o caso das séries ‘Stranger Things‘ e ‘Dark’“, conta o psicanalista Pedro Ambra, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e doutor em Psicologia Social pela USP, em reportagem do UOL TAB.

Já há alguns anos, a Disney vem investindo em remakes e live actions de clássicos, além de novos parques temáticos, como Star Wars e Ratatouille. Além do catálogo rico em nostalgia da HBO Max, Disney+ e Netflix também fizeram apostas na geração Z com as novas versões de High School Musical e Rebelde — lançado durante a pandemia —, febres dos anos 2000.

No Brasil, o advento do Canal Viva, com novelas antigas, ganhou força. Recentemente, assinantes têm notado a inserção de novelas que já apareceram nas telinhas enchendo o catálogo da Netflix. O que surpreende é que não são apenas produções anteriores aos anos 2000, mas novelas como Carinha de Anjo e Carrossel estão sendo reapresentadas para a próxima geração, a geração alfa.

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