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Conheça Dona Jacira, mãe de Emicida, que lançará livro em BH

Bate-papo com a escritora será dia 8 de março no Francisco Nunes. "Café" narra cura pela escrita e ancestralidade

Por Thiago Fonseca *

04/03/2020 às 16:45 | *Colaborador

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Foto: Demétrios dos Santos Ferreira / Divulgação

Se você faz parte dos milhares de seguidores do rapper Emicida, precisa conhecer urgentemente quem é Jacira Roque de Oliveira. Ou, simplesmente, Dona Jacira, como é carinhosamente chamada. Se ele chegou ao posto de um dos artistas mais interessantes no Brasil de hoje, a responsabilidade é dela. A mulher criada na periferia de São Paulo, que foi para o convento aos 5 anos, casou-se aos 13, vivenciou o assassinato da sogra pelo sogro, separou-se aos 19 anos com quatro filhos e hoje convive com uma insuficiência renal crônica aos 55 anos, sempre teve certeza sobre a força da cultura.

“Sofri para apoiar meus filhos na arte. Queria acreditar nos sonhos deles, mas tinha medo”, conta. Talvez por isso tenha demorado mais para acreditar no próprio sonho: o de ser escritora. Dona Jacira chega a Belo Horizonte neste domingo, dia 8, – Dia Internacional da Mulher – para lançar o primeiro livro, às 17h, no Teatro Francisco Nunes. Escolheu um nome simples – mas que diz muito – para a autobiografia lançada pela Editora LiteraRUA: Café.

“Falo da região em que vivo, de conflitos femininos, da expansão de São Paulo e da vida”, conta. Sendo assim, Café transforma em palavras o brilho da poesia que brota do riso e do olhar reflexivo de Dona Jacira, mãe do também rapper Evandro Fióti. O lançamento do livro faz parte das atividades do Circuito Municipal de Cultura. “Gosto muito de conversar. Lá as pessoas poderão conhecer mais da minha história, do livro e receber afeto”, diz.

História de vida

Nascida no dia de natal, de 1964, Jacira cresceu no Jardim Ataliba Leonel, na Zona Norte de São Paulo, vive hoje no Jardim Ataliba Leonel. Aos 55 anos, aposentada e com a vida cheia de projetos, lembra da infância. “Sou filha de uma mulher que ficou viúva muito cedo. Meu pai morreu quando faltava três meses para nascer. Minha mãe foi tirada de onde morava. Meus irmãos foram para casa de menores. Aos cinco, fui enviada para um convento. Sofri muito, fiquei internada e por lá não fiquei nem um ano. Fui saber que tinha irmãos aos 12 anos, quando já estava fora da escola e pedindo esmola na rua”, relembra.

Jacira teve contato com a escrita e com a literatura na escola. Foi expulsa aos 10 anos após fazer uma composição onde dizia que queria ser professora e vingar. Era coagida na escola e ensinada que mulher na periferia tinha que trabalhar como doméstica.

Luta

“Não queria isso para minha vida. Queria pintar, escrever e estudar. Tinha o sonho de ser escritora. Mas acabou que tive que fazer faxina. Tentei suicídio. Aos 11 consegui emprego de arrematadora (de roupas) e fui assediada. Fui pedir esmola na rua. Gostava mesmo era de ler. Lia a bíblia e alguns gibis”, recorda com ar de reflexão. Aos 13 anos se casou. Conheceu o primeiro marido Miguel em uma situação inusitada. Foi no meio de uma briga com o ex-namorado dela. Eles resolveram ficar juntos e Jacira foi morar com sogro.

“Sai da casa da minha mãe para não apanhar mais. Mas lá era um ambiente muito violento e não tinha comida. Minha sogra foi morta agredida pelo marido. Tive quatro filhos, Katia, Katiane, Evandro (Fióti) e Leandro (Emicida). Me separei aos 19 anos. Ele era bom, mas virou alcoólatra. Queria ser DJ, mas não deu certo e se frustrou. Dois anos depois morreu, no dia do aniversário, após se envolver em uma briga”, conta

Após Café, Dona Jacira se prepara para lançar o livro Ritos Diários – Foto: Demétrios dos Santos Ferreira / Divulgação

A educação transforma

Jacira, então, foi morar nos fundos da casa da mãe. Teve que voltar a fazer faxina e trabalhava em uma barraca de feira, que era da família. Levava os filhos, pois não queria que fossem para a creche. Quando iam completando 5 ou 6 anos, eram encaminhados para a escola. Emicida, por exemplo, ganhou um prêmio por ter desenvolvido uma revista em quadrinhos.

Mesmo com todas as dificuldades, Jacira não desistiu de si. Aos vinte e poucos anos, voltou para escola e militou no movimento de ocupações. Em seguida, cursou técnico em enfermagem. Conseguiu emprego em um hospital, aos 30 anos. Mas a carreira durou pouco: precisou se aposentar aos 35 ao ser diagnosticada com insuficiência renal crônica. Hoje depende de hemodiálise para viver.

“No decorrer me casei com Eduardo, com quem vivi 20 anos. Acabou que Leandro (Emicida) seguiu na arte, conheceu o rap durante o estudo de desenho. Eu não gostava das músicas. Mas um dia fui ver ele cantar em um caminhão, conheci os amigos dele e vi que eram minhas lutas”. Assim Emicida e o irmão, Fióti, seguiram a vida e ganharam o mundo com seu trabalho.

O livro

“Quando era menina, na sala da casa da minha mãe, ouvi uma voz dizendo que eu ia ser escritora. Não acreditava. Fui parar até no psiquiatra”, conta. Café surgiu, então, de um desejo antigo e de inquietações. O nome veio de uma inspiração do fruto que é citado no livro Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez.

Sendo assim, Café, o primeiro livro da artista, é uma biografia narrada em primeira pessoa. Um livro que narra a própria cura pela escrita e ancestralidade. Hoje, Jacira vive cercada de frutas, verduras legumes – que planta no quintal de casa – e de amigos. “A minha casa virou esse núcleo de informação dentro da periferia. Depois que perdi meu marido Eduardo achei que iria morrer e arrumei uma forma de decorar a vida. Enchi minha casa de plantas, faço tecelagem e recebo os amigos”. Dona Jacira agora se prepara para revisão de um novo livro com histórias de família, Ritos Diários, que será lançado em maio.

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