Literatura

Fabiane Guimaraes olha para a gestação e a maternidade em “Como se fosse um monstro”

Fabiane Guimarães. Foto Alexia Fidalgo

Em “Como se fosse um monstro”, escritora traz uma perspectiva surpreendente e visceral para a experiência de muitas mulheres brasileiras

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Damiana abre a porta de casa para a jornalista Gabriela. De sorriso tímido, ela anda encolhida e devagarinho, por uma sala repleta de enfeites de vidro e porcelana, vasos de cerâmica e tapetes de crochê. “Era preciso desviar com cuidado para não esbarrar em nenhuma memória”. Gabriela estava ali justamente pelas memórias que aquela mulher, dona de um rosto que não entrega nem a metade dos seus mistérios, carregava dentro de si. Damiana deu à luz a muitas crianças, mas nunca foi mãe. “Como se fosse um monstro” é o novo romance de Fabiane Guimarães, lançado pela Alfaguara.

Trabalho doméstico

Corta para a década de 1980. Uma jovem Damiana recebe uma proposta de emprego na capital federal. Com a morte do pai, aquela era uma chance de ouro para ajudar na manutenção das contas da casa, composta, agora, por ela, suas irmãs e sua mãe. Como tantas mulheres negras e periféricas na história brasileira, Damiana se muda para Brasília para trabalhar na casa de uma família. Um casal sem filhos. E era pressuposto que ela morasse na casa, tendo um dos dias da semana de folga. 

Uma proposta inesperada 

Após um breve período naquele lar, o casal se mostrava agradável – ainda que comportamentos estranhos, por vezes, surgissem. A estranheza ganha novos graus quando uma série de jovens passam a frequentar o lugar, para entrevistas de portas fechadas. Até que um dia, ela própria recebe o chamado para uma conversa particular. O motivo? O convite para ser barriga de aluguel dos patrões. O pagamento permitiria uma revolução na vida familiar, logo, a recusa beirava o impossível. “Ela não sabia, não tinha como saber, que naquele momento era alçada à condição de pessoa, e por isso virava uma das candidatas”.

Essa será a primeira, mas não a única gestação da mulher. Ao longo de sua história, Damiana dará a luz a inúmeras crianças, para casais desesperados por um filho. Quanto mais escuta as memórias daquela mulher, mais Gabriela se envolve com o que é narrado, sentimento que é compartilhado por nós, leitores, no contato com o texto. Numa prosa fluida, composta em capítulos curtos, “Como se fosse um monstro” é um livro de leitura ágil, apesar do peso dos temas que carrega: maternidade, aborto, a autonomia do corpo feminino, racismo, estupro e tráfico de crianças.

A capa do livro Como se fosse um monstro. Editora Alfaguara

Gestar e maternar

Curioso que, de início, talvez pareça que a temática central da obra seja a maternidade. Mas, ao longo dos capítulos, o romance revela lidar, na verdade, com o ato de gestar, numa importante divisão entre estes dois verbos: gestar e maternar. O longo processo de gerar uma nova vida, os sentimentos e os traumas que inundam um corpo que desenvolve outro dentro de si, numa abordagem crua e, por vezes, visceral.

Por fim, se o texto é sucinto, a autora constrói Damiana em toda a sua complexidade, repleta de camadas, como uma boneca matrioska pouco a pouco revelada pela jovem que a entrevista – ela própria um mulher que lida com seus fantasmas pessoais, que afloram na medida em que se envolve cada vez mais com aquilo que escuta. São muitas as cicatrizes que marcam a protagonista de Fabiane Guimarães, a maioria não na carne, mas na dureza da memória, que não permite o esquecimento.

Encontre “Como se fosse um monstro” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 27/04/23

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<strong>Fabiane Guimaraes olha para a gestação e a maternidade em “Como se fosse um monstro”</strong>

Fabiane Guimarães. Foto Alexia Fidalgo