Literatura

Como enfrentar o ódio: As faces do ódio em novo livro do influenciador Felipe Neto

Felipe Neto. Foto: Chico Cerchiaro

“Como enfrentar o ódio” é olhar para a trajetória pessoal e profissional de Felipe Neto, além de um mergulho no Brasil da última década

Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Felipe Neto dá início ao seu “Como enfrentar o ódio” relembrando uma tarde de março de 2021. Um carro de polícia estacionou na porta de sua casa. Ao atender a policial civil, Felipe recebe uma intimação. Duas sérias acusações constavam naquela folha de papel: crimes contra a segurança nacional e associação criminosa. Não foi a primeira – e nem seria a última, muito pelo contrário – acusação sofrida pelo influenciador, tanto pelo governo de Jair Messias Bolsonaro, quanto por seus apoiadores. “Pela primeira vez na vida, enquanto olhava para aquele papel, completamente atônito e esquecendo de respirar, pensei: ‘Vou ser preso’.”

Não faz sentido

No final dos anos 2000, a internet brasileira viu a chegada de um youtuber que gravava vídeos de sucesso para falar, sobretudo, daquilo que o incomodava. Bandas juvenis e seus fãs, “Crepúsculo” e seus fãs e… os governos petistas de Lula e Dilma. O discurso inflamado transformou Felipe Neto em um dos maiores nomes da internet brasileira, numa curva ascendente de visualizações, seguidores e influência dentro do ambiente digital. O youtuber se tornaria um formador de opinião com alcance, sobretudo, dentro de um público bem especial: os jovens.

“Cresci alimentando o mais profundo ódio por tudo que se relacionasse à ‘esquerda’.”

O apoio aos movimentos de 2013 – que se viram metamorfoseados em palanque para uma direita que encontrou ali uma oportunidade de fortalecimento e ascensão – e, consequentemente, ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016 não resultaram em acusações de crime contra a segurança nacional – ou coisa parecida – a Felipe Neto.

“Naquele dia, gravei uma sequência de vídeos para minhas redes sociais comemorando aos gritos a justiça sendo feita. De novo, não recebi nenhuma intimação, nenhuma postagem, nenhuma ameaça, nenhum processo. Anos depois, isso seria determinante para o meu despertar.”

Mudança de perspectiva

A mudança de chave na visão do influenciador se dá no recrudescimento do discurso à direita no cenário político brasileiro, aliado ao processo de prisão de Lula, durante as investigações da Lava Jato. Os muitos conflitos de interesse entre a prisão de Lula, certo juíz e certo candidato à presidência – que, futuramente, foi eleito ao cargo máximo da política brasileira, enquanto o juíz se tornou ministro deste mesmo presidente  – desmoronaram, pouco a pouco, os tijolos, até então, sólidos de suas convicções. Todo mundo sabe o quanto convicções podem ser difíceis de serem abandonadas, não é mesmo?

“A mudança foi acontecendo gradativamente. É muito difícil dinamitar as colunas que sustentam tudo aquilo em que acreditamos, isso requer tempo, estudo e vontade.”

Acerto de contas

“Como enfrentar o ódio” é uma espécie de acerto de contas. Não com os governos petistas ou com os apoiadores bolsonaristas que incessantemente buscam caminhos de ataque contra a figura e a honra do influenciador. O acerto de contas aqui é consigo. O ódio é uma emoção complexa, permeada por tantas outras emoções, num verdadeiro caldeirão que pode, sem a devida atenção, entornar. O ódio pode ser uma emoção catalisadora de muita coisa. Na trajetória de Felipe Neto, ela foi um dos propulsores de seu sucesso meteórico.

As faces do ódio 

É interessante observar como Felipe Neto enxerga o ódio aqui sob dois pontos de vista principais. Um deles, o escritor já aponta lá naquele início do livro. O ódio inflamado que é, desde o posicionamento contra a candidatura e o governo de Jair Bolsonaro, entre 2018 e 2022, direcionado à sua figura. Felipe Neto é, provavelmente, uma das maiores vítimas de fake news da internet brasileira, a partir de montagens em vídeo e imagens manipuladas, disseminadas por um verdadeiro exército – tanto de pessoas quanto de robôs – que o autor examina de maneira bem detalhada no livro.

A outra face do ódio aqui está na própria construção de carreira de Neto. Ao longo de “Como enfrentar o ódio”, Felipe não se exime de analisar as consequências de seu antigo posicionamento político tanto para a construção de sua própria imagem, quanto no poder de influência que o autor desenvolveu ao longo de mais de duas décadas de trabalho. Vítima e algoz, o autor analisa com dedicação estes dois papéis.

Se foca, inevitavelmente, na sua trajetória pessoal e profissional, Felipe Neto acaba construindo aqui um retrato do próprio Brasil na última década, um período em que os discursos de ódio contra minorias encontraram luz dentro do debate público a partir da ascensão de políticos que descobriram nesses mesmos discursos a possibilidade de construção de um eleitorado violentamente dedicado e fiel.

Redes sociais e algoritmos

“Como enfrentar o ódio” é, ainda, um olhar preciso para o ambiente digital, para as redes sociais e seus algoritmos e todos os interesses políticos e econômicos que os perpassam.

“A menos que a gente realmente foque nos algoritmos e entenda que a economia da atenção é um dos fatores mais problemáticos que já tivemos na nossa sociedade, nós não conseguiremos enfrentar o problema. As empresas precisam sentar com especialistas e entender como podemos focar na economia da atenção com o objetivo de impedir que os algoritmos façam lavagem cerebral nas pessoas e as radicalizem, apenas porque precisam que elas permaneçam mais tempo online”.

A manipulação dos usuários e da própria realidade é uma questão incontornável. A internet ultrapassou o papel de fórum de debate público, para um verdadeiro campo de batalha, onde o assassinato de reputações segue em pleno vapor. Uma regulamentação do ambiente digital é urgente, como forma de salvaguardar tanto a nossa própria liberdade, quanto a democracia. Duas palavras que necessitam coexistir: liberdade e democracia.

Encontre “Como enfrentar o ódio” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 04/10/24

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Felipe Neto. Foto: Chico Cerchiaro
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