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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Coluna Almasculina #13: Quem é o novo pai?

Paulo Azevedo, do podcast Almasculina, traz dicas de livros, filmes, série e podcast para reinventar o “ser pai”.

Especial para o Culturadoria | Por Por Paulo Azevedo, do podcast @almasculina

07/08/2020 às 15:05

Publicidade - Portal UAI
fotos @vitorvieirafotografia

Falar sobre pai é ir no osso. Escavar fundo nas raízes. Deparar com nossa ancestralidade. Portanto, é uma tarefa árdua, exige coragem. No entanto, é necessário adentrar nesse terreno silencioso do masculino, de poucas palavras, para compreender o que queremos levar adiante desse modo de ser no mundo. É curioso como a origem grega pater pode nos levar a caminhos tão paradoxais: genitor, paternidade, paternagem, patriarcado… Logo, pode-se associar à mão masculina uma sensação de ameaça, amparo, ausência ou mesmo de afeto. Ou seja, cada pai provoca uma experiência quase instintiva em suas crias, uma sensação.

Portanto, quando criança, não temos consciência para depurar as memórias. Posteriormente, tornam-se marcas que perpetuam um “modo de ser” de geração em geração. Por outro lado, abre-se a possibilidade de reinvenção, de contraponto. Reconhecer o passado, sem culpas, e seguir por outra via. Afinal, ninguém nasce pronto para a profissão mais difícil e não-remunerada do mundo. Como foi na minha família. Numa conversa, meu pai me contou como foi criado. Na Fazenda Brasileira, no interior do Piauí, junto aos 10 irmãos, nada de abraços, colo ou “Te amo, filho” do meu avô. Isso era destinado somente à mãe.

É nítido perceber como o Seu Zé aprendeu conosco, seus três filhos, a ser um pai mais presente e afetuoso. No início, ainda prevalecia um modelo na qual cabia ao pai a última palavra e a cabeceira da mesa. Um lugar de autoridade e domínio sobre toda a família. No entanto, essa é uma posição pesada demais para sustentar. Insuportável para todos, eu diria. Ainda que sofra preconceitos, hoje é inegável reconhecer os inúmeros modelos familiares existentes. Por isso, os papéis foram reconfigurados. Sendo assim, os rígidos limites do que compõe um núcleo doméstico são reinventados. Desse modo, quem é o novo pai?

 

fotos @vitorvieirafotografia

O arcaico ainda presente

Imagine essa cena: uma grande família, composta por um pai, uma mãe e muitos filhos.  Somente a ele cabe o poder e o comando. Moral, religião e posse da terra se misturam nesse cenário opressor, em especial, para as mulheres. Dessa forma, a transgressão é o que resta aos seus membros. Essa é a gênese de um dos filmes brasileiros mais brilhantes e premiados dos últimos 20 anos, “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho.

Adaptado do memorável romance homônimo de Raduan Nassar, o longa é um retrato fiel do restrito modelo patriarcal. Tão arcaico quanto presente, esse sistema social provoca a saída de casa do filho André (Selton Mello). Anos depois, cedendo aos apelos da mãe (Juliana Carneiro da Cunha), retorna ao lar. No entanto, irá quebrar os alicerces da família ao se apaixonar pela própria irmã Ana (Simone Spoladore). Ainda me lembro da primeira vez que assisti esse filme. Tudo é tão impecável quanto intenso: da direção, as atuações à fotografia e trilha sonora.

Tudo foi pensado para transpor a enormidade desse clássico para as telas. Uma experiência que dilata as pupilas ao expandir nossa consciência para intolerâncias que já não cabem mais. Paradoxalmente, está em um dos sermões do pai (Raul Cortez) um sábio remédio: “O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é, contudo, nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo (…) Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”. Quanto ainda precisamos aprender a lidar com esse mistério em nossas casas, não?

Trailer do filme “Lavoura Arcaica” (2001) / créditos: Video Filmes, LFC Produções e Raquel Couto Produções/divulgação.

Ultrapassando pressupostos

Esse potente antídoto para toda dor, o tempo, pode revelar outro: a compaixão. É comum ouvir que um filho só compreende a paternidade ao se tornar pai. Não precisei me tornar um para ultrapassar os pressupostos dessa relação. Então, fui além da comunicação monossilábica com o meu pai e encontrei algo maior. O tempo, paciente, tem nos proporcionado uma relação mais feliz do que retrata o conto de Guimarães Rosa, “A Terceira Margem do Rio”, no livro “Primeiras Histórias”. Nele, um homem se isola da família e da sociedade, preferindo a completa solidão do rio. “Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, e meio a meio, sempre entro da canoa, para ela não saltar, nunca mais. (…) Eu permaneci com as bagagens da vida”, como narra o filho. 

No entanto, a paternagem abre espaços para a vulnerabilidade e a proximidade na criação dos filhos. Ao romper os mitos desse papel, os pais passam a suprir as necessidades físicas e emocionais dos filhos, como os cuidados com alimentação, higiene, saúde, amparo e afeto. Desse modo, a série da Netflix, Being Dad (Ser Pai), traz um amplo espectro dessas novas possibilidades. Acompanhamos emocionados os desafios cotidianos de nove progenitores dos EUA com estruturas familiares, histórias e empregos diferentes. Entre eles, o pai homossexual adotivo lidando com os preconceitos da sociedade; o roqueiro dividido entre as turnês e o acompanhar o desenvolvimento das crianças; e o dono de casa na busca de reeducar a alimentação para saúde de todos. Em comum, o reflexo esperançoso na qual a partilha de funções e inseguranças se sobrepõem a opressão e ao autoritarismo secular. Maratonar essa série é um presente transformador!

Pôster da série “Being Dad” (2017) / créditos: Netflix/divulgação.

Para reinventar a humanidade

Provavelmente, se você cresceu nos anos 80 e 90 vai se lembrar de filmes como “Três Solteirões e um Bebê”, “Olha Quem Está Falando”, “Uma Babá Quase Perfeita” e “Mr. Holland – Adorável Professor”. Aliás, recentemente, revi esse último. E valeu muito a pena. O longa acompanha 30 anos na vida de um músico (Richard Dreyfuss) que decide começar a lecionar, para ter mais dinheiro para se dedicar a compôr uma sinfonia. Em meio às complicadas tentativas de despertar interesse em seus alunos pela música, torna-se pai. Mais tarde, descobre que seu filho é surdo. Por isso, a frustração do pai com o sonho de uma carreira dá espaço à uma grande transformação, a partir da relação com o filho.

O que histórias como essa e “O Meu Pai Tinha Razão”, “2 Filhos de Francisco”, “Assunto de Família” ou a clássica animação “Procurando Nemo” trazem em comum? Todas abordam as múltiplas possibilidades de lidar com a paternidade. Além disso, repensar as perspectivas das masculinidades e suas contradições. Desse modo, provocar reflexões sobre os efeitos de determinados padrões ancorados em tabus ou falsas verdades, como o da superioridade do homem na sociedade. De onde veio isso? De que modo isso ainda se sustenta nos lugares privados e públicos? Diante disso, ter um olhar crítico e amplo sobre determinadas narrativas é apenas um dos muitos aprendizados que tenho neste primeiro ano do almasculina. Por isso, me sinto muito mais filho do que pai dessa cria que tanto me educa.

Cena do filme “Mr. Holland – Adorável Professor” (1995) / créditos: Buena Vista Pictures/divulgação.

Um questionamento constante

É uma busca da arte refletir seu tempo. Certamente, as telas refletem a evolução das relações. Prova disso, é acompanhar ao longo do tempo a visão sobre o vínculo entre pais e filhos nas telas. Dois exemplos, são a comédia “Uma Família de Dois” (2017), de Hugo Gélin, com o carismático e talentoso Omar Sy; e o sensível “Capitão Fantástico” (2016), ), de Matt Ross, protagonizado pelo versátil Viggo Mortensen.

Mortensen cria seus seis filhos nas florestas do Noroeste do Pacífico, isolados da sociedade. Porém, quando é forçado a levar sua família para o mundo convencional, entra em confronto com o sogro que deseja uma vida “normal” para os netos. Diante disso, se questiona se seus métodos são os melhores para sua família. Imagino ser esse um questionamento constante para qualquer pai que busque o melhor para seus filhos.

A abertura de espaços para a descoberta da paternagem também é sentida fora das telas. Por exemplo, iniciativas que vão de cursos para homens em “gestação” ou podcasts com informações ainda pouco divulgadas entre os homens. Frequentemente, recebo mensagens de mulheres no perfil do almasculina me pedindo dicas de conteúdo para auxiliar seus parceiros na educação dos rebentos. Aqui vão duas preciosas: o projeto Homem Paterno, criado pelo naturólogo Tiago Koch, desde que se tornou pai da Iara. A partir disso, ele propõe uma imersão no universo da paternidade integral com foco nos períodos de gestação, parto e puerpério.

Cena do filme “Capitão Fantástico” (2017) /créditos: Universal Pictures Brasil/divulgação.

Que PAÍs é este?

A outra é o canal Paizinho Vírgula, com um vasto manual para não deixar nenhum pai de primeira (ou enésima!) viagem na mão. É o caso do podcast Afro Pai, criado por Leandro Ferreira, voltado para paternidade negra. Lá estão as experiências, angústias e medos de quem enfrenta o cotidiano racista no país que mata um jovem negro a cada 23 minutos. É esse mesmo Brasil que não dá motivo para um número muito grande de crianças e adolescentes comemorarem no Domingo. De acordo dados do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Esse absurdo coloca em xeque o mito do “pai provedor”.

Além disso, provoca o debate sobre a paternidade responsável. Ou seja, um princípio jurídico, previsto no artigo 229 da Constituição Federal. Ele extrapola o âmbito privado na medida em que a irresponsabilidade paterna, somada às questões econômicas, gera milhares de crianças de rua e na rua. Por meio dessa prática, teríamos muitos benefícios. Vale ressaltar que a parentalidade está mais ligada a uma função do que propriamente a uma relação biológica.

fotos @vitorvieirafotografia

Pais em gestação

Ainda que a passos lentos, são muitos os dados que apontam a paternidade para sua essência, desbiologizada e vista como função. Dessa forma, percebemos que um núcleo familiar é uma estrutura na qual cada membro ocupa um lugar, desempenha uma função, sem estarem necessariamente ligados biologicamente. Conheço essa realidade de perto na minha família. Existem casos de mulheres divorciadas que criaram seus filhos praticamente sozinhas. Ou ainda mulheres lésbicas que tiveram filhos com suas parceiras. E posso dizer que, o cuidado com sua prole superou muitos exemplos da considerada tradicional família.

Ainda me espanto com polêmicas em prol da moralidade e dos valores da família. Não deveria ser mais incômodo lidar com a desigualdade de um país que lota as ruas de crianças do que com a propaganda de uma marca tendo como protagonista um pai transexual? Como cantava Cássia Eller na letra de Nando Reis: “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”.

Certamente, passou da hora de nos repararmos com mais empatia e sensibilidade. Mirarmos firmes nos olhos daqueles que nos suportam e torcem por nossa felicidade na curta trajetória neste chão. Darmos mais lugares aos princípios de um novo pai em gestação, mais leve e afetivo na lida de suas responsabilidades. Aquele que está na cozinha, na reunião dos filhos na escola, ajudando na lição de casa ou na torcida durante um jogo. Enfim, onde ele quiser. Sem apego ao assento da cabeceira da mesa e moldes arcaicos de como ser. Independente de sexo, gênero ou vínculos biológicos. Um novo pai.

PS:

Hoje é pra você, meu Zé, meu carinho, meu amor e todo respeito pela sua trajetória de aprendizados e conquistas. Que ainda tenhamos muitos bons anos pela frente para compartilharmos essa louca experiência que é viver!

Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial) é ator e comunicador, idealizador do podcast almasculina.

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