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A intensidade e a fragilidade das relações humanas em “Cleópatra e Frankenstein”, de Coco Mellors

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Primeiro romance da escritora, “Cleópatra e Frankenstein” é uma excelente pedida para os fãs de Sally Rooney e interessados nas questões da geração millennial

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Às 22h30 do último dia de um ano, Cleo e Frank se conhecem, na saída de uma festa de Réveillon. Cleo, uma jovem britânica de 24 anos com o visto prestes a expirar. Frank, um cidadão novaiorquino duas décadas mais velho. Ela, uma estudante de artes plásticas, tentando equilibrar as ambições artísticas e os poucos recursos. Ele, um bem sucedido e premiado publicitário. Se são muitos os contrastes entre os dois personagens, são justamente estes que parecem atraí-los, num interesse mútuo e crescente nesse primeiro encontro. Outras muitas aproximações também se escondem dentro dos históricos pessoais de cada um, coisa que descobriremos – quase junto com os próprios personagens – num mergulho intenso e vertiginoso dentro desta relação. “Cleópatra e Frankenstein” é o romance de estreia de Coco Mellors, lançado pela Astral Editora com tradução de Dinaura Julles.

Foto digital de Coco Mellors. Ela é branca, magra, tem o cabelo e as sobrancelhas extremamente claros. Usa roupa em tom de bege, apoia o queixo na mão e sorri levemente.
Coco Mellors, autora de "Cleópatra e Frankenstein". Foto: Ryan Pfluger.

Uma relação intensa e repentina

Seis meses separam o primeiro e o segundo capítulo do livro. Se, no início, há um primeiro encontro, no segundo, um corte brusco nos transporta diretamente para o casamento dos personagens. Uma decisão impulsiva. Numa festa nada convencional – aliás, a normalidade é um ideal do qual eles procuram se afastar a cada decisão, tanto em nível pessoal, quanto dentro dessa relação ainda em processo de amadurecimento – um grupo diverso de amigos os circundam, um recorte dentro de uma jovem elite de Nova York, celebrando junto com o casal essa união meteórica.

Parece um casamento perfeito. Um daqueles casos onde cada um parece aflorar o que há de melhor no outro. Mas estamos diante de dois personagens profundamente machucados, onde as suturas que protegem suas respectivas feridas são frágeis. O histórico familiar, na relação com os pais desde a infância – ou na ausência desta – é uma marca que fundamenta os dois adultos que tanto Cleo quanto Frank se tornaram no futuro. Resultando, entre muitas outras questões, numa depressão latente de um lado e no uso excessivo do álcool de outro. “Quando a parte mais sombria de você encontra a parte mais sombria de mim, ela cria luz”

Capa do livro. Ela é bege,  o título está escrito em azul e rosa. Na parte superior, há uma pintura de um rosto de uma mulher branca, maquiada, deitada em um travesseiro.
Capa de Cleópatra e Frankenstein. Editora Harper’s Bazaar.

Olhares múltiplos

Coco Mellors parece trabalhar com uma lupa, aplicando-a, ao longo dos capítulos do romance, em personagens específicos. Se, num contato inicial com o livro, ele pareça lidar apenas com sua dupla de protagonistas, diferentes personagens ganham foco, nos levando para suas próprias trajetórias pessoais – ainda que quase sempre em relação direta com Cleo e Frank. Acessamos o casal por meio dos olhares – por vezes de afeto, de mágoa, de desejo, de ciúmes – desse grupo amigos, familiares ou colegas de trabalho mais próximos. Esse é um dos pontos que se destacam na construção de Coco Mellors, na medida em que, no enfoque nesses personagens, temas como o gênero, a sexualidade, o colorismo, o racismo e o abuso de drogas afloram na escrita da autora.

“Cleópatra e Frankenstein” é um romance tanto sobre a intensidade quanto sobre a fragilidade das relações humanas, mergulhando também em questões como a saúde mental, o trauma, o suicídio e as delicadas heranças que carregamos e seguem influenciando nossos comportamentos, decisões, anseios e medos. Fortemente baseado nos diálogos – uma de suas maiores forças – Coco Mellors explora as muitas expectativas que nos constituem. Tanto aquelas que projetamos naqueles com quem nos relacionamos, quanto – e sobretudo – aquelas que internalizamos.

Encontre “Cleópatra e Frankenstein” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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