Música

Truque: novo álbum de Clarice Falcão mergulha em universo de múltiplas dimensões, histórias e possibilidades

Clarice Falcão. Foto: Pedro Pinho.

Em entrevista, a cantora e multi-artista Clarice Falcão conta sobre a criação do disco “Truque”

Por Helena Tomaz | Assistente de conteúdo

“Truque”, novo disco da cantora, compositora, atriz, roteirista e diretora Clarice Falcão, é um mergulho nas muitas histórias que cabem dentro de uma só pessoa. No álbum, a artista revela, mais uma vez, a capacidade que tem de criar narrativas completas em forma de música. Essa habilidade, na verdade, Clarice demonstra desde o lançamento do seu primeiro disco, “Monomania”, há dez anos.

No novo álbum, que estará disponível a partir de hoje (10/08), o primeiro destaque recai justamente para a canção que dá início aos trabalhos: “Dimensão” introduz o cenário dos vários universos trabalhados ao longo de toda a obra. Outra que prontamente chama a atenção é “Ar da Graça”. Mais melancólica, a faixa esconde uma história inusitada por trás, que a cantora relatou nas mídias sociais. Há, ainda, a música “Truque”, que dá nome ao disco e traz uma tragicomédia um tanto quanto contemporânea – ou, em outras palavras, o famoso ghosting. Já a penúltima faixa do disco fala, inusitadamente, sobre negacionismo e fé. 

Em entrevista, Clarice Falcão fala sobre a criação do novo disco, além de experiências em outras áreas, como a série “Eleita”, escrita e protagonizada por ela, e lançada em 2022. Confira, a seguir: 

Seu trabalho tem muitas frentes: a música, a atuação, o roteiro. Existe uma convergência de ideias, de inspirações entre elas? Algo que começa na música e, de repente, você leva para a atuação, e vice e versa, por exemplo?

Acho que, em geral, uma coisa que sempre acontece é você aprender aqui uma coisa que vai usar lá. Amadurecer como atriz me ajuda como intérprete na hora do show, compor ajuda na hora de escrever um roteiro. Uma coisa sempre ajuda a outra. E volta e meia tem alguma coisa que inspira. No “Eleita” tinha uma cena que o Célio (Célio Porto, parceiro da atriz na empreitada) escreveu sobre o ‘after do fim do mundo’, que inspirou a música ‘After do Fim do Mundo’, que eu fiz. Mas a vida, em geral, inspira. Às vezes, você está tendo uma conversa com alguém e, daí, uma chavinha se vira.

E como você se divide, para equilibrar todas essas áreas de atuação?

Às vezes, é difícil. O problema é ter coisas muito grandes ao mesmo tempo. Por exemplo: eu estava fazendo o disco e a minha ideia era lançá-lo ano passado, mas, com “Eleita”, tive que pausar. Para fazer um seriado que eu co-criei, estava na sala de roteiro todos os dias. E como protagonizei, seria impossível também estar fazendo um disco. Eu comecei e dei essa pausa. Por outro lado, agora eu não estou fazendo nada como atriz, porque agora é disco, disco, disco, disco! E eu sou meio obsessiva, eu só penso nisso, não paro de trabalhar, vou dormir trabalhando. E quando você está trabalhando para si mesma, você é a sua chefe e a sua contratada, então, termina que trabalho o tempo todo! [Risos]. 

No ano passado você lançou a série “Eleita” e fez uma performance no teatro sobre a vida da estilista Vivienne Westwood. Teremos mais temporadas ou desdobramentos desses projetos? Ou você tem outros planos no audiovisual?

Cara, a parada da Vivienne nem foi uma peça, na verdade. Foi um evento super legal, da Cultura Inglesa, foi uma coisa mais didática. Era como uma entrevista meio fictícia com a Vivienne Westwood, mas não era uma coisa narrativa. Foram entrevistas com personalidades britânicas, para conhecer essas personalidades. Foi só uma vez, meio que improvisando na hora, mas foi muito legal, muito divertido! 

Clarice Falcão posa para a foto, tirada próxima ao rosto dela,. A cantora usa óculos espelhado azul e camisa azul claro. O fundo é branco.
Clarice Falcão. Foto: Pedro Pinho.
Você fez uma série de vídeos nas redes sociais contando sobre o processo de criação de algumas das suas músicas. Acredito que chame atenção como a sua criatividade vem de coisas, de certa forma, inusitadas, como a música “Marta”, que surgiu de ligações de telemarketing incessantes. Como é o seu processo criativo? O que te inspira?

Eu gosto muito de fazer uma coisa diferente e que misture algo que, a princípio, não combinaria. Por exemplo: eu falei que, para mim, “Marta” é uma música de amor. Fazer uma música de amor sobre telemarketing é uma coisa que me fascina, porque é uma mistura estranha. E acho que isso traz camadas, sabe?

Já são milhares de anos das pessoas fazendo arte, então, toda vez que eu vou fazer uma música, ainda mais sendo sobre amor, eu sempre penso: “De que adianta para o mundo que eu faça essa música? Por que essa música tem que vir ao mundo? Já tem outra igual? Alguém já fez essa música?” E eu tento focar muito nisso, fazer uma música que eu, pelo menos, não tenha ouvido nada igual. Obviamente, às vezes a gente consegue e às vezes não. E eu gosto muito de quando eu ouço uma canção ou assisto a um filme sobre os quais penso que nunca tinha ouvido/visto nada assim.  

Seu primeiro álbum foi o “Monomania”, lançado lá em 2013. Dez anos depois, você já está indo para o seu quarto álbum. O que mudou na sua música e no seu processo criativo de lá para cá? Como foram os processos dessas mudanças?

Eu acho que eu aprendi muito, várias coisas. Na época do “Monomania”, talvez eu usasse o humor como uma forma de proteção. É uma coisa que faz parte de como eu me comunico, então, sempre vai existir. Até o “Tem Conserto”, que é o disco mais denso que eu tenho, ainda tem muita coisa de senso de humor, ali no meio. Mas, hoje em dia, eu sinto que eu sou a dona do meu humor, sabe? Eu sinto que eu estou mais no controle. Não só no humor, mas no geral.

No primeiro disco, parece que eu estava compondo desde que nasci. Tem um monte de coisas que você vai vivendo e, na primeira vez que sai, sai tudo aquilo, vomitado. E depois, é quase como se você esvaziasse a cabeça e pudesse começar do zero. Isso dá um controle sobre a obra. Hoje em dia, eu volto naquilo, mexo nas palavras, falo: “acho que essa música tem que ser engraçada até aqui, mas, depois, tem que emocionar”. Acho que eu estou mais consciente das coisas. 

Clipe de “Chorar na Boate”.
Legal você falar isso de que, o primeiro disco você estava preparando desde que nasceu, porque é nele que tem “Capitão Gancho”, música que fala sobre isso, né?

Exatamente. Eu sinto que, na verdade, tem muito do “Monomania” em tudo, sabe? Você me perguntou o que mudou, mas, por outro lado, eu acho que o “Monomania” me influencia muito até hoje. Foi a primeira vez que eu vi o meu pensamento em formato de música, de arte, e isso é muito marcante para qualquer pessoa. O primeiro trabalho é tipo: “Caramba! Essa sou eu!” E assim fui me construindo. 

Dez anos depois, aqui estamos, no lançamento de “Truque”. No Instagram, no dia do lançamento de “Ar da sua graça”, você escreveu que nunca teve tanto orgulho de nada. Você pode falar mais sobre isso? O que te deixa mais orgulhosa no álbum “Truque”?

Isso é muito verdade. Eu sinto que eu nunca fiz nada tão completo. Eu sinto que, durante esses dez anos, desde o “Monomania”, mostrei muitos lados meus. Passei por muitos momentos diferentes – e eu acho que sempre fui muito aberta. Eu sinto que os discos dizem muito do momento que estou passando. Eu passei pelo meu primeiro amor, pela minha primeira decepção amorosa, pela minha primeira separação, me entendendo como uma mulher independente. 

Aí fiz o “Problema Meu”, que é um disco muito sobre independência, sobre rancor, também. Quando eu fiz o “Tem Conserto”, estava em um momento de olhar para dentro. Já não era mais uma questão de amar ou não amar, sobre a outra pessoa. Era: “Quem sou eu? Porque eu sou assim? O que me faz dessa forma?”.

E acho que, em “Truque”, finalmente estou conseguindo equilibrar todos esses momentos pelos quais passei, todas essas Clarices – que ainda existem – de forma que convivam em harmonia. Eu sinto que esse disco é denso, tem profundidade, mas também é bem-humorado. Ele é sobre amor, mas já tem uma consciência maior. “Monomania” – e acho que a graça dele é essa – é totalmente ingênuo. É como você fica quando está apaixonado pela primeira vez. Eu acho que o “Truque” já tem uma consciência maior, do tipo “eu amo e vou me entregar, mesmo sabendo que vai dar errado.” “Truque” também tem uma mistura da sonoridade. Eu e o Lucas (Lucas de Paiva), a gente só queria fazer um disco bonito, gostoso de ouvir, em vez de um disco mais para eletrônica, ou como o “Problema Meu”, em que eu queria que cada música tivesse uma viagem diferente. Nesse, não. A gente queria fazer um disco [gesticula, enfatizando] legal! 

É o disco que eu mais escutei, para saber se eu curtia ouvir. Eu não sou de ouvir meus próprios trabalhos, mas esse eu escutei cada detalhezinho. Fui “chata”, pela primeira vez. 

Clarice Falcão posa para a foto. Ela é branca, tem cabelos castanhos escuros e franja. Usa rabo de cavalo e blusa rosa-choque estilo anos 80.
Clarice Falcão. Foto: Pedro Pinho
Então você diria que, dessa vez, se envolveu ainda mais, com outras partes?

É, eu acho que, talvez, a maior resposta para aquela sua pergunta sobre o que mudou seja que, com a maturidade, eu sinto que eu sei o que eu quero e eu tenho coragem. Antes eu pensava: “não gostei disso, mas estou com vergonha de magoar a pessoa que tocou”. Sempre fui muito assim, mas, agora, eu estava tão empolgada, que – nunca sendo grossa, obviamente, porque eu nem tenho isso instalado – eu dizia que não, voltava. Sem vergonha de voltar a segunda ou a terceira vez. Eu estava pagando, então tinha que ficar do jeito que eu queria, eu estava gastando todo o meu dinheiro fazendo esse negócio, tinha que ficar do jeito que eu queria [risos]!

As fotos desse álbum me chamaram muita atenção. Achei muito diferentes da estética dos seus álbuns anteriores e muito bonita, também. Como foi a criação da estética de “Truque”?

Quem conceituou foi o Pedro Pinho, que tirou as fotos. E o designer foi o Felipe Araújo. Eu sinto que é a identidade visual que eu mais curto, também, porque o disco tem um conceito muito “fechadinho” e isso ajuda. Quanto mais o disco passa uma mensagem clara, melhor é para um artista incrível, como o Pedro, que fez a capa do “Tem Conserto”, também, trabalhar. 

Eu tinha todo o meu conceito do truque: de se apaixonar, se iludir. Sonoramente, também [havia um conceito]: instrumentos que parecem ser de verdade mas não são, para criar essa ilusão. Também nos vídeos, em que a gente queria que cada um tivesse um truque, de alguma forma. Você chegar, apresentar o conceito do disco e ver qual é a visão dele do conceito é muito mágico. Então, ele disse que pensou em uma coisa meio foragida, meio disfarce. Tipo aqueles filmes em que a pessoa entra no banheiro e muda a peruca. Truqueira, mesmo, tipo Marta Golpista! [Aqui, Clarice faz referência a um meme, popular no twitter, a respeito de uma mulher de Uberlândia acusada de aplicar diversos golpes em cidadãos da cidade.]

Eu sinto que, por o disco ter um conceito “amarradinho”, o Pedro pôde usar a genialidade dele de uma maneira incrível! E aí tem essa coisa, de serem vários disfarces, várias Clarices – que combina, também, com o fato de eu sentir que existem várias Clarices. Ele também chegou com a ideia maravilhosa de reproduzir a capa do “Monomania”, então tem eu, de aplique, com o terninho do “Monomania”, que havia guardado até hoje. E tem essa coisa da colagem, como se fosse um arquivo de polícia, procurando alguém que tenha um pedaço de jornal, um pedaço de não sei o quê. E o Felipe usou um scanner [para fazer]: são colagens mesmo. Ficou muito legal, eles arrasaram demais! 

Nesses vídeos (muito legais, por sinal) você conta o processo de criação de várias das suas músicas. Então, para finalizar, queria propor que você contasse um pouco sobre a criação de alguma música ainda não lançada de “Truque”!

Deixa eu pensar uma que pode ser mais interessante para falar… O “Truque” começa com uma música chamada “Dimensão”. Ele é [um álbum] narrativo, o ideal é ouvir na ordem, como se a primeira música abrisse a história e seguisse essa narrativa de alguém que ilude, se desilude, nessa reflexão: vale à pena se apaixonar? Por um lado é muito gostoso e etc e etc. 

“Dimensão” é uma coisa que eu fiz há muito tempo. Eu acredito muito nessa coisa do inconsciente coletivo, porque isso acontece muitas vezes comigo, de eu pensar alguma coisa e, do nada, eu vejo isso em outro lugar, ou escuto de outra forma. E eu acho que a coisa do multiverso foi algo em que eu senti muito isso: eu tinha, há muitos anos, essa frase anotada no meu celular, que era: “existe uma dimensão para nós dois”. [A música] é basicamente falando sobre como [o relacionamento] não deu certo nessa dimensão, mas digamos que existam milhões de dimensões: com certeza, em alguma, a gente deu certo. É meio triste, mas é meio esperançoso, de que, em alguma dimensão, a gente possa estar junto.

Eu acho que esse era um bom jeito de começar o disco, porque cria essa ideia de que, às vezes, a gente pode até estar seguindo uma dimensão só, sabe? Foi uma música que eu gostei muito de fazer, que eu fiz em um dia [só], com o Lucas [de Paiva, produtor musical do álbum]. 

E eu acho que ela inspira o álbum visual, em que cada clipe tem uma Clarice, uma peruca e um truque diferente, mas é como se ele fosse fechado em um universo. Eles não são narrativos, mas eles têm uma estética. Parece um sonho, uma ilusão. E, de certa forma, a gente brincou com universos doidos. E o Lucas Cunha, que dirigiu os vídeos, arrasou muito. A equipe foi incrível. [Esse é] um outro motivo pelo qual eu acho que é o melhor álbum até agora: eu me juntei com muita gente muito legal, todo mundo arrasou! O Lucas de Paiva arrasou muito na produção, a gente produziu junto, o Lucas Cunha, na direção dos vídeos e Pedro Pinho na capa e o Felipe Araújo.

Legal você falar isso, acho que esse assunto de multiverso está muito em alta!

Eu acho maravilhoso falar sobre isso! Eu sempre gostei de coisas que são um pouquinho surrealistas, que são além do naturalismo, do real. Nesse disco, eu quis muito trabalhar com o exagero, com a maluquice, com universos que você inventa dentro da sua cabeça. Às vezes não é literal, não existem muitas dimensões, mas [sobre] os universos, as possibilidades que você cria: você vê uma pessoa e já inventa toda uma história com ela. [É sobre] essas realidades que a gente inventa. 

Team algo que gostaria de acrescentar sobre o lançamento, sobre a criação do álbum? 

Eu queria muito que as pessoas vissem os vídeos, porque foi muito difícil e caro [risos]! E queria muito que as pessoas ouvissem na ordem, vai ser uma experiência [mais completa]. Tem, inclusive, um interlúdio que liga uma música à outra, a música final conversa com a primeira, é como se a história fosse um pouco cíclica. Apesar de que isso vai um pouco na contramão, hoje em dia tem muita playlist – e, por favor, me coloquem em playlists também! – mas eu acho que, se a pessoa tiver um tempinho para ouvir tudo na ordem, eu acho que vale!

Clipe de “Ar da Sua Graça”.
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Publicado por Helena Tomaz

Publicado em 10/08/23

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Clarice Falcão posa para a foto. Ela é branca, tem cabelos castanhos escuros levemente ondulados e usa franja. Ela veste uma camisa amarela com blazer cinza por cima. O fundo é branco.
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Clarice Falcão. Foto: Pedro Pinho.