Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Biografia desmonta clichês sobre a travesti Cintura Fina, personagem de Hilda Furacão

‘Enverga, mas não quebra’ é fruto de longa pesquisa do professor Luiz Morando.

Foi a partir da literatura de Roberto Drummond que muita gente conheceu Cintura Fina. Um público ainda maior tomou conhecimento da história da travesti que agitou a zona boêmia de Belo Horizonte nos anos 1950 pela televisão. O livro Hilda Furacão foi adaptado para a telinha em 1998. Matheus Nachtergaele a interpretou.

Mas, apesar do excelente trabalho dele, a imagem de Cintura Fina que vimos na ficção não parece ter muito a ver com a realidade. Para começo de conversa: ela era negra. Essa e outras diferenças aparecem bem contextualizadas na primeira biografia de Cintura Fina, escrita pelo pesquisador Luiz Morando.

Enverga, mas não quebra, é dividido em quatro partes. O fio condutor da narrativa são os 18 autos judiciais que o autor encontrou em Belo Horizonte e Uberaba, onde Cintura passou os últimos anos. A pesquisa também incluiu muitas reportagens e entrevistas. “Essa arquitetura oferece ao leitor elementos que ajudam a compor a imagem e a complexidade dessa travesti”, conta.

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Cintura Fina e Naná. Foto: Acervo pessoal

Cintura Fina nasceu em Fortaleza em 1933 e chegou a BH com 20 anos. Na capital mineira permaneceu até o começo dos anos 1980, quando se mudou para Uberaba (MG). Confira a seguir a entrevista com o autor.

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Capa do livro “Enverga, mas não quebra”. Crédito: O sexo da Palavra

O que você aprendeu com Cintura Fina?

Cintura Fina é uma referência de resistência para a população travesti da cidade. O título de meu livro foi escolhido propositalmente: quis marcar desde a capa uma característica fundamental de sua personalidade – não se deixar abater nem quebrar pelas dificuldades decorrentes de sua forma de ser e se comportar. Em algumas circunstâncias, ela até enverga, se dobra, mas não quebra, não se entrega. Certamente, isso a torna combativa por querer se fazer respeitar. Por outro lado, isso também a torna um alvo muito visado pela polícia e o discurso moral social.

Qual é o maior clichê sobre ela que o livro ajuda a esclarecer?

Acredito que alguns clichês são desmontados. O maior talvez seja sobre o uso da navalha, que não era feito de forma indiscriminada. Cintura Fina dominou uma técnica de jogar a navalha pela qual, amarrada em um elástico preso em sua cintura, a peça se abria no movimento de ida, feria seu oponente e voltava fechada na mão da travesti. Esse uso era feito sempre como forma de defesa. Não há relato comprovado de que ela tenha matado alguém a navalhadas. Mas, se fosse desrespeitada e atacada, a navalha rodava como forma de subjugar o oponente.

Além disso, ela praticamente abandonou o uso da navalha na virada dos anos 1960 para 1970, fazendo-o de forma muito pontual. É possível (não posso afirmar categoricamente) que ela tenha tomado essa decisão a pedido de sua mãe postiça, dona Maria da Conceição, que a acolheu provavelmente em 1963, oferecendo-lhe um lugar onde morar. Cintura estabeleceu uma relação afetiva duradoura com d. Naná, embora marcada por idas e vindas.

De que forma a sua trajetória acadêmica contribui para o resultado da pesquisa sobre Cintura Fina?

Toda minha formação foi feita na área de Letras, especificamente em Literatura Brasileira. Deriva daí uma maior atenção com a leitura, análise e interpretação mais refinada de textos, bem como um olhar e uma escuta mais apurados. Em paralelo à minha formação acadêmica, tive também a formação no ativismo social voltado ao enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS e à recuperação da memória do segmento LGBTQIA+ de Belo Horizonte. A dinâmica do ativismo também se constitui como uma escola com aprendizados diversos, estabelecendo um outro olhar, também refinado e apurado na maneira de perceber questões de cidadania e de humanização de setores sociais menos privilegiados.

Diante disso, pude fazer convergir uma experiência de pesquisa, de trabalho com arquivos e informação, adquirida no espaço acadêmico, para desenvolver o projeto que se tornou central para mim: recuperar a memória do segmento LGBTQIA+ da capital mineira no período entre 1946 e 1989, colocando em destaque as formas de sociabilidade de gays, lésbicas, travestis e pessoas transgêneras. Cintura Fina emergiu desse contexto, se sustentando sobre três tipos de documentos: reportagens da imprensa, autos judiciais e relatos orais de pessoas que tiveram contato direto ou indireto com ela.

De que forma você organizou a narrativa sobre ela no livro? Imagino que tenha sido uma vasta pesquisa…

Cintura nasceu em Fortaleza (CE), em 1933, e chegou a Belo Horizonte em 1953. Meu foco se detém então sobre o período em que ela viveu em Belo Horizonte. Ou seja, até o começo dos anos 1980, estendendo-me brevemente por Uberaba, onde ela faleceu em 1995.

Optei por dividir o livro em quatro partes, cada uma correspondente a uma década, tendo como fio condutor os 18 autos judiciais que localizei na capital mineira e em Uberaba. Ao mesmo tempo, as ocorrências relatadas nos autos são alinhavadas com as reportagens e entrevistas levantadas na imprensa. Ao final de cada parte, acrescento relatos orais de pessoas que tiveram contato com Cintura Fina.

Essa arquitetura oferece ao leitor elementos que ajudam a compor a imagem e a complexidade dessa travesti: alguém que desde criança já era apontado nas ruas de Fortaleza como o ‘Zé Mariquinha’; que precisou se virar a partir de 14 anos de idade; se impôs ao seu tempo ao performar uma feminilidade; precisou sobreviver da prostituição e também da costura, faxina e pequenos delitos; manejava a navalha habilmente como forma de defesa; que teve conflitos pessoais com o valor simbólico que sua imagem representava (chegando, em vários momentos, a treinar uma retórica de ‘regeneração social’) ao mesmo tempo em que sentia prazer com a fama alcançada pela forma como era respeitada e temida pela população.

Cintura Fina sempre é retratada como uma pessoa à frente do tempo dela. Acredita que o comportamento dela naquela época ainda seria visto com preconceito hoje em dia?

Acredito que sim. Talvez não na mesma intensidade com que foi naquela época. Contudo, o discurso moral conservador ainda é forte em nossa cultura; o padrão cis-heteronormativo insiste em pautar pela sua régua a conduta de pessoas dissidentes de sexo e gênero. A moral sociossexual conservadora tem voltado a crescer e não suporta a diferença de comportamento.

Gostaria de saber um pouco mais sobre a relação de Cintura Fina com Uberaba… Ela tem família lá?

A mãe biológica de Cintura Fina morreu no momento de seu parto. Cintura foi criada por três tias, com as quais rompeu o laço familiar quando saiu de casa aos 14 anos, após um episódio de envolvimento afetivo-sexual com dois primos no seminário onde estudava.

Em Belo Horizonte, ela foi acolhida por dona Maria da Conceição, a dona Naná, que praticava uma forma sincrética de espiritismo e umbandismo no Centro Espírita Santa Bárbara Virgem.

A trajetória de Cintura Fina tem lacunas a serem preenchidas. O motivo que a levou a se fixar em Uberaba, sobretudo a partir do início da década de 1980 (até sua morte em 1995), é uma dessas lacunas. Talvez levada por sua prática religiosa, Maria da Conceição tinha o hábito de ir a Uberaba, cidade que se tornara uma espécie de epicentro da religião espírita em função da presença de Chico Xavier. É possível que Cintura tenha sido estimulada por dona Naná a acompanhá-la. Mas não encontrei nada que me permitisse comprovar isso.

É certo que Cintura se fixou nessa cidade e continuou levando sua vida como em Belo Horizonte. Mas sua vitalidade e potência já não eram as mesmas. Em Uberaba ela se envolveu em ocorrências policiais, cumpriu duas penas. Por outro lado, entre 1989 e 1992 trabalhou como gari, contratada pela prefeitura local. Nos quatro últimos anos de sua vida, com a saúde já debilitada, ela foi acolhida pelo Lar Espírita Pedro e Paulo.

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