Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco filmes para entender o Cinema da Retomada

O cinema brasileiro ganhou novo fôlego a partir de 1992 com políticas públicas que favoreceram a produção cinematográfica no país
Dia do Cinema Brasileiro
Cena do filme Central do Brasil. Crédito: Europa Filmes

O descaso com o cinema brasileiro nos preocupa. Bastante! Não sabemos o que será da nossa vibrante produção com tanta perseguição política ao setor e dificuldade de produção. Em meio a esse clima, decidimos recuperar alguns conteúdos especiais e algumas obras importantes da produção nacional. Hoje é dia de falar sobre o “Cinema da Retomada”

Em 1992, o cinema brasileiro também estava desmantelado. Foi então que veio o Cinema da Retomada, que durou até 2003, quando o ministro da cultura Antonio Houaiss cria a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual no governo Itamar Franco. A iniciativa passou a liberar recursos para a produção audiovisual por meio do Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro e desenvolveu a Lei do Audiovisual, que entrou em vigor no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Contexto histórico

Vários fatores levaram o cinema brasileiro ao sucateamento. Quando o Cinema Novo (1960-1970) se aproximava do fim, uma outra geração de cineastas criou o Údigrudi (1968–1970). Também conhecido como Cinema Marginal, o movimento foi a versão brasileira do “Underground” americano dos anos 1960 e ia contra as fórmulas cinematográficas tradicionais. Corrompia também a estética e a narrativa predominante. Os filmes que mais se destacaram no período foram O bandido da Luz Vermelha, Rogério Sganzerla, e Matou a família e foi ao cinema, de Júlio Bressane. Vale lembrar que tudo isso ocorreu no meio da ditadura militar.

Em seguida, em 1969, foi criada a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), empresa vinculada ao Ministério da Educação e Cultura que fez o Estado passar a financiar a produção cinematográfica brasileira. Até então, o mercado de filmes estadunidense era predominante. 

Já na década de 1970, o gênero da vez foi o Pornochanchada. O erotismo e a comédia andavam juntos inspirados nas produções italianas e era muito requisitados nas salas de exibição pela popularidade, já que a lei previa um mínimo de filmes brasileiros sendo exibidos. Unindo isso às produções da Embrafilme e sucesso dos filmes dos Trapalhões, o cinema brasileiro conquistou o mercado. Nesse meio tempo, Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto, foi a produção que mais teve público na história da sétima arte brasileira até a estreia de Tropa de Elite 2 (2002, José Padilha). 

O declínio

A crise econômica e a dívida externa cresceram e afetaram diretamente o setor cultural. Os investimentos no setor audiovisual caíram drasticamente e a Embrafilme passou a ser vista com maus olhos por ter sido criada no período da ditadura. Fernando Collor assumiu a presidência em 1990 e a situação econômica piorou mais ainda. Embrafilme, Fundação do Cinema Brasileiro, Concine, Ministério da Cultura, regulamentação do mercado do cinema e leis de incentivo foram extintos.

Após o impeachment de Collor, veio a Retomada! As manobras da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual foram cruciais para o reaquecimento do mercado e a projeção do cinema brasileiro para o cenário mundial.  Os filmes que vieram a partir de então passaram a ter maior pluralidade de temas e narrativas. 

Pensando nisso, separamos cinco filmes marcantes do cinema da Retomada para você entender o período. Confira!

Carlota Joaquina, a princesa do Brazil, de Carla Camurati (1995)

É considerado o primeiro grande filme do Cinema da Retomada e levou mais de um milhão de pessoas às salas de exibição. O longa faz uma sátira à família real portuguesa e reconstrói a história da chegada da coroa ao Brasil. O sucesso também se deve ao elenco composto por grandes nomes da TV na época: Marieta Severo, Marcos Nanini, Ludmila Dayer e Ney Latorraca, por exemplo.

O que é isso, companheiro, de Bruno Barreto (1997)

A produção é baseada no livro de mesmo nome de Fernando Gabeira, uma adaptação de uma história real do sequestro de Alan Arkin, embaixador americano. O filme se destacou por retratar a ditadura no Brasil e foi distribuído internacionalmente pela Miramax Films. A projeção fez com que fosse indicado ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira em 1997, mas perdeu para Character, de Mike van Diem.

Central do Brasil, de Walter Salles (1998)

O filme ajudou a projetar mais ainda o cinema brasileiro para fora do país, o que fez aumentar o investimento e o número de produções no cinema nacional. O longa mostra a história de Dora (Fernanda Montenegro), que escreve cartas para pessoas analfabetas na Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Também foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Fernanda Montenegro ao de Melhor Atriz na mesma premiação.

Bicho de sete cabeças, de Laís Bodanzky (2001)

Relata a história de Neto (Rodrigo Santoro), que é internado em um hospital psiquiátrico quando a família descobre um cigarro de maconha em suas coisas. Foi o primeiro longa de sucesso no Cinema da Retomada com temática urbana, problemas familiares e da juventude. O filme foi ganhador do Festival de Locarno e só se destacou a partir daí, já que teve estreia tímida no setor comercial. Vale destacar que a partir dos anos 2000 os filmes brasileiros passaram a fazer carreira, em grande parte, em festivais.

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002)

Mostra o crescimento do crime organizado na favela carioca Cidade de Deus e o envolvimento de jovens com o crime. O filme recebeu críticas pela abordagem, mas é considerado o melhor longa da retomada do cinema brasileiro. Foi indicado ao Oscar de Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem. Além disso, foi recordista de público, mais de três milhões de espectadores.

Cena do filme Cidade de Deus. Crédito Imagem Filmes Cinema da Retomada
Cena do filme Cidade de Deus. Crédito Imagem Filmes

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