Como o C.A.S.A., o Centro de Arte Suspensa e Armatrux, une Arte, Comunicação e Território
A gestora Paula Manata reflete sobre o desenvolvimento territorial do Vale do Sol, a seriedade das leis de incentivo à cultura e anuncia a nova programação do centro artístico, calcada na educação plural, na economia criativa e no engajamento comunitário.
A arte é, antes de tudo, um motor capaz de reconfigurar a geografia e a economia de um território. Há mais de duas décadas, a compra de um terreno em Nova Lima (MG) foi o primeiro passo para a criação do C.A.S.A. (Centro de Arte Suspensa e Armatrux), fundado oficialmente em 2009 a partir da união de duas companhias de destaque na cena mineira: a Companhia Suspensa e o Grupo de Teatro Armatrux,
O que começou como um desejo de dar sede aos grupos e criar salas de ensaio, transformou-se no coração pulsante do Vale do Sol. Agora, o espaço inaugura uma nova fase. Viabilizado por um patrocínio de dois anos da CAIXA e do Governo do Brasil, o projeto “C.A.S.A. – Arte, Comunicação e Comunidade” propõe uma imersão profunda na democratização cultural e na inclusão social
A Arte como Desenvolvimento Territorial
A chegada de um polo cultural a uma região afastada dos eixos tradicionais da capital mineira alterou a realidade local. A atriz, diretora, fundadora do Grupo Armatrux e gestora do C.A.S.A., Paula Manata, relembra que o bairro carecia de infraestrutura básica. As parcerias com a Associação de Moradores, poder público e instituições parceiras da região ajudaram a pavimentar — literalmente — o caminho.
“O bairro cresceu. E isso é muito importante porque você está falando também de uma prefeitura que veio, olhou para o território e fez coisas básicas que a gente não tinha, como rua”, relata a gestora, lembrando dos tempos de lama e enxurradas. Hoje, o Vale do Sol é um bairro urbanizado, valorizado e com espaços de convivência que impulsionam a economia criativa, movimentando até mesmo os restaurantes locais e outros estabelecimentos em dias de evento.
Teatro na Maturidade Foto Bernardo Guerra
Letramento Digital, Formação e “Educação Curativa”
O novo ciclo do C.A.S.A. não se resume a exibições teatrais. O patrocínio da CAIXA garantirá a continuidade e expansão de quatro eixos de formação fundamentais: o Circo Escola (com foco em inclusão social e pedagogia curativa do movimento), o Teatro para Maturidade (voltado ao público 60+), as oficinas de Produção Cultural e o Laboratório em Rede.
O Laboratório de Comunicação ganha destaque por focar no letramento digital e na emancipação juvenil. O projeto atua como um espaço de experimentação em mídias, capacitando jovens do bairro para atuar de forma crítica na internet. Mais do que ensinar a fazer postagens, o foco é o pensamento crítico e a inserção no mercado de trabalho — hoje, os jovens formados pelo projeto já prestam serviços de comunicação para entidades parceiras.
Para Paula Manata, o trabalho educacional do C.A.S.A. tem um propósito maior, inspirado na pedagogia antroposófica: “A gente tá aqui para criar espaços de cuidado e transformação”. A educação, em suas palavras, significa aprender a viver melhor e a conviver com as diferenças, entendendo as necessidades da comunidade.
O Rigor das Leis de Incentivo à Cultura
Manter as portas abertas e os projetos gratuitos exige enfrentar a dura realidade da gestão cultural no Brasil. Questionada sobre o papel do fomento e os ataques que o setor sofre por desinformação, Manata é categórica ao defender a seriedade do processo.
Ela desmistifica o senso comum que ataca mecanismos como a Lei Rouanet, detalhando a alta carga burocrática e a rigorosa prestação de contas exigida pelo Governo. “Se as pessoas soubessem o tão difícil que é você pensar num projeto, você elaborar um projeto […] você ser aprovado, aí depois toda a parte administrativa que é seríssimo, que dá muito trabalho”, desabafa. A gestora elogia a evolução da plataforma do Ministério da Cultura, classificando-a como um “mecanismo muito rigoroso na fiscalização”.
Mordida Exploratoria Foto Jefferson Ahzul
Lançamento: Rita Von Hunty e Grupo Armatrux
Para celebrar essa nova etapa, o C.A.S.A. preparou um fim de semana de programação intensa e 100% gratuita. Na sexta-feira, 19 de junho, às 17h, o espaço recebe a crítica cultural e drag queen Rita Von Hunty para a aula magna “Cultura e produção dos sujeitos”.
Mediada por Dolly Piercing (pioneira da cena drag de BH), a palestra discutirá o reencantamento do trabalho vivo, baseada na sociologia e na teoria crítica. Paula destaca a importância de trazer figuras como Rita para furar bolhas e dialogar com profundidade, mantendo a diversidade como pilar da curadoria.
Nos dias seguintes, 20 e 21 de junho (sábado e domingo), também às 17h, é a vez dos anfitriões do Grupo Armatrux subirem ao palco com “Mordida Exploratória”. Com direção de Amora Tito, a 24ª montagem do grupo utiliza três sacolas plásticas à deriva no oceano como uma potente metáfora política e ambiental, refletindo sobre corpos, bens naturais e o vazio deixado pela exploração humana.
A arte, quando aliada à educação e fincada em um território, tem o poder não só de formar plateias, mas de produzir cidadãos. O C.A.S.A. continua a provar que a cultura é o alicerce mais sólido que um bairro pode ter.
Serviço:
O quê: Lançamento do projeto C.A.S.A – Arte, Comunicação e Comunidade.
Onde: C.A.S.A (Himalaia, 69 – Vale do Sol, Nova Lima / MG).
Como o C.A.S.A., o Centro de Arte Suspensa e Armatrux, une Arte, Comunicação e Território
A gestora Paula Manata reflete sobre o desenvolvimento territorial do Vale do Sol, a seriedade das leis de incentivo à cultura e anuncia a nova programação do centro artístico, calcada na educação plural, na economia criativa e no engajamento comunitário.