Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Revisitando: Bom Crioulo, de Adolfo Caminha.

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Muito criticado na época do lançamento pela temática polêmica, Bom Crioulo também não passaria despercebido nos dias de hoje.

Por Gustavo Moreno | Culturador

Nos últimos anos, revisitar obras antigas e adaptá-las para o contexto atual tornou-se um artifício muito utilizado na criação. Conforme a sociedade avança intelectualmente, é interessante observar como essas obras passam pelo novo olhar do público. 

Algumas envelhecem bem com o tempo. Este é, por exemplo, o caso de o “Conto da Aia”, de Margaret Atwood, livro que foi ignorado em 1985, mas que está mais atual do que nunca. Já a coleção de Monteiro Lobato não envelheceu bem. Atualmente é criticada pelo racismo velado impregnado nas páginas.

Pensando nisso, resolvi revisitar a obra “Bom Crioulo”, publicada em 1895 pelo escritor Adolfo Caminha, para conferir se o tempo provocou mudanças na recepção. Este livro, o primeiro romance brasileiro com protagonista negro e homossexual, foi bastante criticado pela sociedade conservadora da época por abordar temáticas polêmicas e consideradas tabus.

A História

O protagonista da trama, Amaro, é um ex-escravo foragido das senzalas que se alistou na Marinha do Rio de Janeiro. Descrito como forte e valente, ganhou o apelido de “Bom Crioulo” pelos companheiros de tripulação por ser um negro “dócil” e muito competente. Apesar de ter alguns problemas com bebida, Amaro é benquisto pelos oficiais e comandante da corveta (navio de guerra) em que trabalha.

A coisa muda de figura com a chegada de um grumete chamado Aleixo. Com apenas dezesseis anos de idade, Aleixo é a completa antítese de Amaro. Enquanto o segundo é um negro valente de aproximadamente trinta anos, forte e apto para trabalhos braçais, Aleixo é descrito como um frágil marinheirinho alvo de olhos azuis, bastante sensível, embora muito inteligente.

É por causa do grumete que, logo na primeira cena do livro, Amaro é visto sendo castigado pelo comandante junto a dois outros marinheiros. Para defender a honra de Aleixo, nosso protagonista havia espancado um de seus companheiros de navio.

Apresentações

Essa cena inicial é exímia em apresentar os personagens ao leitor. Ela não só demonstra a força de Amaro, que recebeu cento e cinquenta chibatadas sem reclamar de dor, como também mostra sua dedicação ao grumete. Além disso, ela traça um paralelo entre a vida na marinha e a do homem escravizado, levando-nos a perguntar se o ex-escravo estava realmente livre.

A trama segue, ora na corveta, ora em terra firme, desenvolvendo a relação entre os dois homens. É em terra que somos apresentados à terceira personagem principal, Dona Carolina, uma ex-prostituta portuguesa que agora é dona de uma pensão carioca. Amaro e Dona Carolina se conhecem desde antes, quando o marinheiro salvou a vida da portuguesa em um assalto. Em gratidão, a mulher lhes cede um quarto em sua pensão, se tornando, assim, a maior amiga e confidente da dupla.

A história acompanha a vida dos três e o estreitamento de suas relações, dúvidas e amores, até que desembocam em seu trágico fim. Não existem spoilers para um livro publicado 127 anos atrás, mas tentarei ao máximo me conter para não estragar a experiência.

Narrador

Por ser um romance clássico naturalista, a escrita do livro é realizada de maneira linear e objetiva. Traça a história de maneira factual e mais realista possível. É também comum, nesse tipo de romance, que os comportamentos dos personagens sejam moldados pelas condições de sua vivência e do ambiente ao seu redor. Assim, lemos na íntegra os pensamentos dos personagens, bem como a descrição de seus vícios, “perversões sexuais”, intenções, degenerações mentais e aspectos violentos. Sem qualquer tipo de filtro.

No entanto, por ser todo escrito do ponto de vista de um narrador observador onisciente, nós também conseguimos sentir um posicionamento claro do narrador. Aqui, por narrador, não quero dizer necessariamente a figura de Adolfo Caminha, mas, sim, do olhar de alguém de fora da trama. 

É por isso que o livro, cheio de tabus, está repleto de descrições que não tentam acalentar ou amenizar as situações, mas, sim, julgá-las. O narrador é alguém conservador que, no trabalho de relatar as cenas, não deixa de imprimir a sua percepção subentendida. A primeira cena de sexo entre Amaro e Aleixo, por exemplo, termina com a frase “E consumou-se o delito contra a natureza”, deixando perceptível a reprovação do narrador sobre o ato.

Há outros momentos como esse no livro, em diferentes intensidades. Alguns mais simples de lidar, como o ato de masturbação de um dos marinheiros ser descrito como “o mais vergonhoso dos atentados contra si próprio”, que apenas reflete o pensamento puritano da época. Existem outros, no entanto, que são mais problemáticos no ponto de vista da sociedade atual. É o que falarei a seguir.

Como “Bom Crioulo” se daria atualmente

Desde 1895, quando o livro foi lançado, muita coisa mudou no pensamento coletivo da sociedade. O tabu que permeava assuntos como a homossexualidade e o racismo foi há muito quebrado. Hoje nós já somos capazes de estudar mais a fundo tais tópicos. Apesar de ainda existirem aqueles com pensamentos que destoam, temas como esses não só já são amplamente discutidos, como também recebem uma grande adesão do público.

Adolfo Caminha pode até ter sido um abolicionista republicano, que, por muito tempo, foi duramente criticado por ser muito revolucionário em suas temáticas literárias. Se publicado nos dias de hoje, “Bom Crioulo” também receberia críticas avassaladoras mas, desta vez, seria por ser muito conservador e retrógrado.

Caminha, ou o narrador, faz muitas associações que são consideradas errôneas no contexto atual. Como disse antes, o autor é naturalista nato e tenta explicar as condições dos personagens pela sua vivência. Ele acaba errando um pouco a mão com o protagonista, uma vez que atribui características selvagens e violentas ao personagem, de maneira inerente à sua existência, associando a característica bestial à raça negra de Amaro. Ele também erra ao dar traços e características femininas à Aleixo, como quem diz que é necessário tal para justificar o ato homossexual. 

Amor

Nem mesmo o triângulo amoroso, narrativa utilizada em muitas tramas na contemporaneidade, seria algo a ser aproveitado. A verdade é que há uma ausência clara de amor na história, uma vez que tanto Amaro quanto Dona Carolina não apenas desejam Aleixo, mas o veem quase como sua propriedade. Em alusão ao julgamento bíblico de Salomão, neste caso, ambos aceitariam de bom grado a sua porção do grumete ao invés de cedê-lo ao outro.  

Um ponto curioso sobre o livro é que, embora a homossexualidade seja tratada como este grande tabu, nada se menciona sobre a estranha natureza, que beira à pedofilia, de ambas as relações de Aleixo. Do grumete para o ex-escravo, a diferença de idade é de pelo menos 14 anos; já com Dona Carolina, esse número aumenta para 22. Há, sim, no livro, algumas menções e críticas à prática da “pederastia”, mas todas surgem com o viés de rechaçar a característica homossexual da ação, não à diferença de idades.

Peça de época

Assim sendo, percebo que “Bom Crioulo” não é uma obra que deveria ser lida ou repensada nos moldes da sociedade atual. Apesar de ser um clássico e grande representante da literatura brasileira, ele não é necessariamente atemporal, mas, sim, demonstra estar preso em um momento bastante específico da nossa civilização.

Por esse motivo, o melhor talvez seja continuar a analisá-lo como uma peça de época que registra a história do país, e entender que os pensamentos descritos ali não mais configuram o usual, embora reflitam uma verdade momentânea. É, também, sobre entender que os desconfortos causados por certas descrições e palavras utilizadas são, na realidade, uma coisa boa, pois mostram como nosso pensamento enquanto sociedade evoluiu ao longo dos anos. 

E talvez esse seja o nosso maior conforto para o futuro.

"Bom Crioulo" Capa da edição Todavia (2019)
“Bom Crioulo” Capa da edição Todavia (2019)

Por Gustavo Moreno | Culturador

Jornalista e amante da arte em suas variadas formas. Gosta de dar pitaco em tudo, mesmo quando não tem gabarito intelectual para tal.

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