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Bloco Zé Bastião renova tradição carnavalesca de Ouro Preto

Registro do Bloco Zé Bastião. Foto: Patrick de Araújo

Formado por um trio de crianças, bloco homenageia cultura e personagens locais

Por Patrick de Araújo I Participante do Projeto Culturadoria em Rede

Em meados do mês de maio deste ano, ao final da tarde de um sábado, certa movimentação atípica ocorria na Praça Tiradentes, principal cartão-postal da cidade de Ouro Preto, a 90 km de Belo Horizonte, na região central de Minas Gerais. 

Quem passava por ali avistava bonecos gigantes, crianças e adolescentes com instrumentos musicais, além de adultos apressados, na tentativa de organizar o grupo. Naquela tarde, o bloco Zé Bastião se preparava para entrar na Praça e seguir o primeiro desfile do segundo encontro de Zé Pereiras. 

Casarões, igrejas, museus e Inconfidência Mineira são termos associados a Ouro Preto. A herança arquitetônica do Brasil colonial atrai também visitantes de todos os cantos do país e do globo. O que não aparece, com frequência, nos livros de história e nos sites de turismo, são as manifestações culturais da cidade. 

Ligação com o carnaval

A comunidade ouro-pretana, porém, tem forte ligação com o carnaval de rua, e se prepara, todos os anos, para o desfile dos blocos caricatos. Fica na cidade a casa do bloco Zé Pereira Club dos Lacaios, agremiação carnavalesca mais antiga do Brasil, com 156 anos de história. 

As vestimentas, a batucada simples, contagiante, e os catitões, bonecos de quase três metros de altura, que representam personagens importantes da história cultural de Ouro Preto, inspiraram três crianças, moradoras do bairro Morro São Sebastião, na serra da cidade – e distante do centro histórico –, a criar o próprio bloco, em homenagem ao Zé Pereira.

Em 2015, Pedro Augusto, o Pedrinho, e seus amigos Kaíque e Cauã participavam da versão mirim do Bloco Zé Pereira dos Lacaios. Inspirados pela agremiação centenária, decidiram criar o próprio grupo de carnaval, no bairro onde moravam, uma vez que, na comunidade, não havia nenhum. 

O nome do novo bloco vem da junção de Zé, em homenagem ao Club Zé Pereira, e Bastião, em referência ao Morro. Com o grupo batizado, o trio de crianças saiu pelos bairros em busca de latas, os primeiros instrumentos do Zé Bastião. 

Em seguida, outras duas crianças se juntaram ao trio, e eles fizeram um boneco com isopor e papelão. O pequeno bloco saiu pelas ruas do bairro durante o carnaval de 2015. Aos poucos, cresceu e atraiu novos participantes. 

Familiares e moradores do bairro também se juntaram na empreitada. Uma dessas pessoas é Nida Costa, proprietária do Bar da Nida, uma das lideranças da comunidade que, desde o início, acompanha os meninos. Foi ela quem fez a ponte entre Gegê Mendes, músico percussionista da cidade, e os meninos, que passaram a compor músicas próprias para os desfiles. 

Cadência em pausa

Entre 2017 e fins de 2019, o bloco deixou de desenvolver atividades. Nas palavras do Pedrinho: “O Zé Bastião ficou adormecido”. Foi quando o presidente da associação de moradores do Morro São Sebastião convidou os meninos a retornar com o grupo. 

Além do convite, eles receberam, da República Necrotério, uma das moradias estudantis mais antigas de Ouro Preto, os primeiros instrumentos (reais) de percussão do bloco. 

Sem as latas e com instrumentos novos, os meninos voltaram, com força total. Para construir os catitões, usavam o material de que dispunham: papelão, plástico e bambu. E, por meio de rifa, conseguiram recursos para outras melhorias.

No carnaval de 2020, foram feitos, ainda, chapéus de palha e camisas, para construção da identidade visual do bloco. Naquele ano, os meninos desfilaram pelas ruas do bairro e em escolas da cidade, mas, assim como no resto do mundo, a pandemia de covid-19 paralisou todas as atividades presenciais. 

Em 2022, a expectativa era alta na cidade, devido à possibilidade de retorno do Carnaval. No entanto, com a pandemia ainda avançando, a prefeitura de Ouro Preto decidiu cancelar o evento. 

Catitão

Em encontro com Nida Costa, porém, os meninos do Bloco Zé Bastião receberam de presente, da Associação Galpão Cultural Sinhá Olímpia – grupo de artistas da cidade – o próprio Catitão, um boneco gigante. O personagem tornou-se a cara do bloco e ganhou roupa de chita, para representar o artesanato e a cultura do bairro. 

Segundo Pedrinho, o boneco foi um marco na vida de todos, pois, a partir dele, o bloco ganhou visibilidade. Aos poucos, o grupo passou a ser convidado a tocar em eventos, na sede e nos distritos de Ouro Preto, assim como em outras cidades. 

O trabalho foi tão reconhecido que, em maio de 2023, o bloco foi homenageado na Câmara de Vereadores de Ouro Preto, com a Comenda Zé Rosa, destinada a grupos que engrandecem a cena carnavalesca do município. 

Ao longo dos anos, a brincadeira de Carnaval dos meninos do Morro São Sebastião transformou-se em renovação da própria festa ouro-pretana. O bloco Zé Bastião já conquistou as próprias composições e recebeu recursos da Lei Aldir Blanc.

O grupo conseguiu, ainda, uma oficina para compor os próprios bonecos. E houve desfile no CineOp, na Mostra de Cinema de Ouro Preto e – sonho maior do grupo – na Praça Tiradentes. 

O bloco Zé Bastião, enfim, garantiu seu lugar no Carnaval e nas ladeiras ouro-pretanas, sem perder o vínculo com a comunidade do Morro São Sebastião, que sempre incentivou o trabalho dos meninos. 

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 11/08/23

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Registro do Bloco Zé Bastião. Foto: Patrick de Araújo