Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

BH (também) é a capital dos videoclipes

Profissionais responsáveis pela produção de videoclipes em Belo Horizonte apresentam cenários, experiências e nuances de mercado do setor
Djonga - Foto: Daniel Assis / Divulgação
Djonga - Foto: Daniel Assis / Divulgação

Por Aldine Mara | Participante do 1º Laboratório Culturadoria de Jornalismo e Crítica Cultural videoclipes

Se Belo Horizonte tivesse uma ficha técnica, a produção de videoclipes estaria nos créditos. Conhecida por sua potência musical, a capital mineira também ganha destaque quando o assunto é transformar música em imagens. Este é o tema da série de reportagens especiais publicadas pelo Culturadoria a partir desta semana. Também abordaremos a independência desse mercado assim como os valiosos profissionais que ajudam a construir a cena.

Por isso, para quem trabalha nos bastidores de clipes, o conceito de “atrás das câmeras” pode não corresponder à realidade. Profissionais de diversas áreas artísticas ocupam cada vez mais tal front, ao lado de cantoras e cantores, ao assinar, juntos, o sucesso de produções visuais.

Se, no cinema, essa curiosidade pela equipe da sétima arte é mais comum, na criação audiovisual para música, acaba por passar despercebida. Quem produziu o clipe de seu single preferido? Roteiro, figurino? Ou a coreografia que virou sucesso no TikTok? Aliás, seria o TikTok uma possível nova era da música?

Sutil Criatividade Mineira

Não é de hoje que BH surpreende na produção de videoclipes. Em 2009, por exemplo, o diretor audiovisual, publicitário e artista plástico belo-horizontino Conrado Almada desafiou a gravidade e pôs os meninos do “Skank” pendurados, por cerca de três horas, numa parede na vertical, enquanto uma dança supersincronizada acontecia bem abaixo dos músicos. Tudo em plano sequência. A ideia deu à banda mineira o prêmio de videoclipe do ano, no MTV Video Music Brasil, com “Sutilmente”.

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Clipe de Sutilmente, do Skank

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Jota Quest, Pato Fu, Marina Machado, Tianastácia, Erasmo Carlos, Capital Inicial, Sandy e Paula Fernandes são alguns dos artistas que também têm Conrado nos créditos da direção audiovisual. Mas foi na cena independente, há 20 anos, que ele falou seu primeiro “ação”, no clipe “Inside My Mind (Again)”, da banda Vellocet.

Nova geração nos videoclipes

Para a música, o audiovisual continua a escrever seu roteiro e a trazer reconhecimento para BH. A mineira Belle de Melo, que assina a direção de videoclipes como “Reza Forte” (Baiana System), “Hoje eu quero me perder” (Lagum), “Ombrim” e “Brilho de Leão” (Rosa Neon), “Oceana” (Melim e OutroEu) e “X” (Ana Gabriela), faz parte dessa lista.

Belle recebeu menção honrosa na categoria “revelação em direção de videoclipe nacional”, com “Domingo e presença”, da ex-dupla Hot e Oreia, pelo m-v-f- awards 2020. E, na edição 2019, prêmio de “Melhor Videoclipe Nacional”, pela direção de “Eu vou” (Hot e Oreia com participação de Djonga).

Por falar em Djonga, o artista lançou, só em 2021, nove vídeos musicais: oito para divulgação do álbum “Nú” e um para o novo single Ea$y Money”. O diretor de fotografia, Tulio Cipó, além de parceiro, é quem assina grande parte desses trabalhos: “Nós”, “Hoje Não”, “Ea$y Money” e “Procuro Alguém”, feito em 2019. Túlio também dirigiu artistas como Iza Sabino, Daparte, Lagum, Kadu dos Anjos, Marcelo Tofani e Marina Sena.

Diversidade de estilos

O produtor executivo e artístico Orlando Junior, a diretora de arte e cenógrafa Camila Buzelin e a figurinista Camila Duarte são nomes presentes nos créditos dos videoclipes em BH. O trio está na ficha técnica, por exemplo, de “Não se ofenda”, do grupo Fenda.

“Neste caso, a gente teve o grande desafio de trabalhar com cinco personalidades distintas. Por mais que a Fenda tenha identidade como grupo, são cinco personagens, ali, diferentes. Cada uma tem identidade própria, e quer transmitir mensagens específicas. Ter esse cuidado foi muito interessante”, comenta Orlando, que também integra a equipe dos clipes “Esse close eu dei” (Rico Dalasam), “Astronauta” (Dolores 602), “Vem ki vem” (Paige e Kadu dos Anjos) e “Girlgang” (Fenda).

Se o trabalho do produtor passa pelo cuidado de traduzir a identidade do artista, a direção de arte é um ponto importante nessa engrenagem. “Hoje, a gente abre o Instagram, e a imagem chega primeiro, e tem que traduzir o som, para que a pessoa olhe e fale assim: nossa, quero ouvir o som que tem essa imagem”, explica Buzelin. À frente do projeto Cenografia Sensível, ela assina a direção de arte de “Guarda-roupa” (Baka), “Quem é você” (Coletivo Imune), “Picolé” (Rosa Neon) e “Ninguém me ensinou” (Lagum), do premiado “Eu vou” (Hot e Oreia – Djonga), dentre outros.

Conjunto da obra

Figurino e maquiagem estão longe de meros detalhes. “Todos os elementos da narrativa audiovisual se completam. A cor fala muito no clipe, a direção de arte fala, o figurino fala. Tudo isso colabora para construir uma imagem, a mensagem que está sendo transmitida, ali, por meio daquela música, do videoclipe. Então, todos esses elementos têm que estar alinhados”, pontua Camila Duarte. A figurinista está na ficha técnica de “Procuro alguém” (Djonga), “TBT” (Caminantes e Celso Haddad), “A gente se completa” (Pipa) e “Lado bom” (Malta220 e Mc Júlia), além da série “Hit Parade”.

Muito antes do Tik Tok, vídeos com coreografias já faziam sucesso. Se engana, porém, quem pensa que basta fazer bons passos de dança e pôr tudo no clipe. A coreógrafa Gabriela Chiaretti sabe bem disso. Responsável pelas coreografias de “Consigo” (Di Souza), “Berço do Ar” (Paulo Santos) e “Fama” (Rosa Neon), a professora conta como a coisa acontece. “Muito mais do que fazer passos de dança, ou ensiná-los, há a preparação corporal, que faz muita diferença. Como se posicionar? O que ele quer passar?”

Todas as funções

Nem sempre a ficha técnica é tão extensa assim. O produtor Ulisses Passos, além de produtor da cantora Adriana Araújo, é um dos responsáveis pelos dois clipes da sambista. “Meu Refrão”, lançado no início do ano, foi o primeiro videoclipe da compositora. Já “Becos e Vielas” está previsto para ir ao ar em julho.

Além da produção, Ulisses fez os roteiros, participou da edição e captação de imagens e da operação de drone. “Querendo ou não, a pandemia fez com que muitos artistas ligassem uma luz para produzir material de vídeo. A grande maioria dos pequenos artistas não tem material para se vender, nem portfólio. Quando vi a Adriana, eu disse: ‘Você não tem nada para mostrar às pessoas. Vamos produzir algo’”, sinaliza Passos.

Natalie Matos, Gabriela Matos e Denise dos Santos estão à frente da Renca Produções. As três mulheres, pretas, vindas da periferia de BH, somam uma vontade em comum: democratizar o acesso à produção audiovisual dentro, atrás e à frente das câmeras. Missão concluída com sucesso. A tríade é responsável pelo videoclipe “Raiz”, de Elisa de Sena, além de materiais audiovisuais para música, como a produção do making of do clipe “GirlGang” (Fenda).

“A primeira coisa que fizemos foi pensar de que modo um pouquinho da gente e um pouquinho da Elisa poderiam estar ali, juntos. Antes mesmo de procurar esses atravessamentos, a gente encontrava, pois estava ali. As vivências da Elisa também eram próximas às nossas. Fotografias antigas da família dela eram fotografias que pareciam ser da nossa”, conta Denise, ao comentar a construção do vídeo, que também contou com fotos analógicas em 35mm, feitas especialmente para o trabalho.


Aldine Mara é jornalista formada pela UFJF. Já atuou em assessorias de comunicação, produção de eventos, audiovisual e fotografia. Hoje, está a frente da Sorriso CRIA, produtora de conteúdo digital. Participou do 1º Laboratório Culturadoria de Jornalismo e Crítica Cultural.

rap
Grupo Fenda Foto: Lu Ranieri / Divulgação

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