Gastronomia
Bar Coreto, em BH: vista, técnica e autoria no copo
Fui conhecer o Bar Coreto, no hotel Tribe, e encontrei coquetelaria autoral mineira que surpreende — no sabor e no preço.
Bilisco. Foto: Vitor Adalberto
Gastronomia
Fui conhecer o Bar Coreto, no hotel Tribe, e encontrei coquetelaria autoral mineira que surpreende — no sabor e no preço.
Bilisco. Foto: Vitor Adalberto
Vivemos em estado permanente de estímulo. Informação demais. Promessas demais. Por isso, quando algo realmente surpreende, merece atenção.
Uma das novidades da cena gastronômica de BH, Bar Coreto ocupa o décimo andar do hotel Tribe, nas proximidades da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. A vista é ampla. O pôr do sol ajuda a construir o clima. Poderia ser apenas mais um endereço que aposta na paisagem. Não é.
Integrante do Grupo Trintaeum, o Coreto trabalha exclusivamente com insumos mineiros. Cachaças selecionadas, gins produzidos no estado, licores autorais e infusões próprias estruturam a carta. Mesmo os clássicos passam por releitura. Há intenção nas criações da equipe do bartender Cássio Batista.
Sou uma pessoa difícil para beber. Cheia de restrições e preferências muito claras. Esse dado muda completamente a experiência quando o atendimento sabe escutar. Fui conduzida pelo garçom Marcelino, que, a partir das minhas limitações, sugeriu o primeiro drinque da noite: o Bilisco, um milk punch de maracujá com cachaça Sagrada Carvalho e Amburana e licor de laranja (R$ 75).
O milk punch passa por técnica de clarificação com leite e descansa por cerca de sete dias até atingir transparência e estabilidade. O resultado visual engana. Parece leve, quase etéreo. No paladar, surpreende. Você olha e projeta um sabor. Quando bebe, encontra outro. O maracujá não se impõe de forma óbvia. O licor de laranja amplia a percepção cítrica sem adoçar em excesso. Foi o gole que desmontou meu repertório naquela noite.
Na sequência, experimentei o Me Diga Porquê (R$ 115), que leva cachaça Guaraciaba Extra Premium, infusão de hidromel com urucum, licor de araticum Flor das Gerais e cordial de imbu. O hidromel infusionado traz um traço terroso. É um drinque menos imediato, que exige curiosidade.
Essa lógica reaparece no Corpse Reviver Nº 2 (R$ 115), que combina gin Lamas Balm, licor de laranja da casa, licor de pequi Cristal Brasil, Lágrima 6 anos e licor de absinto da casa. O pequi poderia dominar. Não domina. Surge como camada aromática. Já o Negroni (R$ 60) funciona como teste: o vermute de jabuticaba desloca o amargor tradicional para um campo mais frutado e brasileiro, sem perder equilíbrio.

Na cozinha, a carta assinada pela chef Ana Gabi Costa sustenta a mesma proposta autoral. O Fresco (R$ 115), burrata com cogumelo, morango e castanha de baru, trabalha contraste de texturas. A castanha entrega crocância. O cogumelo, caramelizado, surpreende ao ganhar textura quase crocante, quebrando a expectativa de maciez que normalmente acompanha a burrata. O resultado é delicado e estruturado.
O Frito (R$ 60), pastel de abóbora com maçã, castanha de pequi e gorgonzola, também desloca preconceitos. Tenho dificuldade com o aroma do pequi, mas aqui ele aparece integrado, sem invadir o prato.
A Galinha (R$ 80), meio da asa desossada com molho picante, amendoim e crocante de salsinha, é direta e bem executada. Mas o que realmente elevou a experiência foi o Angus: batata frita em formato triangular, petit tender e creme de shoyu artesanal. O ponto da carne estava exato. Suculenta, bem selada, sabor profundo. É o tipo de preparo que transforma um prato aparentemente simples em algo memorável.
É preciso falar também sobre valores. Os drinques partem de R$ 60 e podem chegar a R$ 115. Uma caipirinha com três limões custa R$ 50. Ou seja, não é um endereço para o cotidiano. Os preços acompanham técnica, insumos selecionados e uma proposta autoral consistente. Ainda assim, trata-se de uma experiência posicionada na faixa alta da cidade. Estive lá a convite, mas esse é um dado que precisa entrar na equação de quem decide ir.
Há uma alquimia no Coreto. Mas ela não se revela para quem busca apenas “beber um drinque”. É preciso ir com curiosidade. Disposição para deixar o paladar ser deslocado.
Em um tempo de excesso, surpreender virou raridade. No Coreto, alguns goles e pratos conseguem isso: reorganizam expectativas e ampliam repertórios. E isso, hoje, já é um mérito.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 26/02/26