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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

As impressões sobre ‘Macunaíma: uma rapsódia musical’

O espetáculo com o grupo Barca dos Corações Partidos tem direção de Bia Lessa e foi visto em junho de 2019 no CCBB-BH

Por Carol Braga

05/07/2019 às 17:47

Publicidade - Portal UAI

Me perguntaram pelo Instagram o que eu achei da peça Macunaíma: uma rapsódia musical, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. Embora pareça simples, é uma questão complexa de sintetizar. Mesmo assim, tentei ser direta: “Ei! Achei a peça bem difícil! Tem uma ostentação cênica que acabou me afastando da narrativa. Óbvio que tudo muito bem executado, mas não chegou…”. Terminei assim mesmo, com reticências.

Escrever sobre o trabalho de um artista, sobretudo de teatro, é algo muito delicado. Por isso, antes de tentar dar uma continuidade para aqueles três pontos, gostaria de ressaltar que a visão do crítico é sempre um ponto de vista. Nunca uma verdade. São diversos fatores que condicionam o fato de um espetáculo “chegar” ou não. Por chegar, entenda sair tocada, emocionada, por aí vai.

O dilema crítico

Em 1978, quando o crítico Sábato Magaldi escreveu sobre a montagem de Macunaíma, dirigida por Antunes Filho, também falou sobre isso. “Se o Grupo de Arte Pau Brasil preparou Macunaíma em cerca de um ano, com dez horas de ensaios, não é uma crítica jornalística o instrumento adequado para analisar a complexidade dos problemas envolvidos e proceder a uma avaliação final”. Totalmente de acordo.

É por isso que esse lugar de expressar uma opinião sobre a peça nem sempre me deixa em uma posição confortável. Principalmente quando não atravessa de imediato. Mas se perguntam, vamos lá. O primeiro questionamento que me faço é: que tipo de sensação ver Macunaíma em 2019 poderia realmente despertar?

O Grupo

A Barca dos Corações Partidos é, hoje, um dos grupos mais vigorosos no ecossistema das artes cênicas nacional. Uma companhia que se formou a partir de testes para uma montagem comercial. No caso, Gonzagão, a Lenda, que encontrou uma verdade ali e seguiu em busca de desafios. Fez o teatro se aproximar da poesia – de duas maneiras distintas em musicais, como Auê (a trilha sonora fica permanentemente no som do meu carro) e Suassuna, o auto do reino do sol. Embora diferentes, ambas as montagens sublinhavam a vontade daqueles atores/músicos de buscar sempre o novo.

Mesmo com uma estrada de prêmios, a notícia de que a Barca faria Macunaíma com direção de Bia LessaBia Lessa dirigirá Macunaíma com Cia Barca dos Corações Partidos soou como um duplo twist carpado. Primeiro porque a obra de Mário de Andrade, superimportante na história da cultura brasileira, é, por natureza, complexa. Depois porque o teatro com assinatura de Bia Lessa, até então, parecia não conversar diretamente com a linguagem escolhida pela companhia. O resultado disso? Expectativa. E aí é aquela coisa meme, “crie porcos, mas não crie expectativas”.

 

 

A peça

São 180 minutos de peça. O elenco da Barca – Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Renato Luciano e Ricca Barros – ganha o reforço Ângelo Flávio Zuhalê, Hugo Germano, Lana Rhodes, Lívia Feltre, Pedro Aune, Sofia Teixeira e Zahy Guajajara. Fazer teatro hoje, em 2019, com 14 atores é um ato de resistência.

No programa, a diretora Bia Lessa dedica a montagem ao mestre Antunes Filho, o diretor da peça criticada por Sábato Magaldi em 1978. Assim como ela diz, há um diálogo claro entre as duas versões. Porém, Bia dá continuidade à própria pesquisa. Quem viu, por exemplo, PI: Panorâmica Insana deve se lembrar que o espetáculo terminava todo coberto de lona de plástico preto. Na sessão em BH um atento espectador fez uma analogia da lona com a lama, que se transformou em um símbolo de catástrofe.

O corpo do ator

Pois todo o primeiro ato de Macunaíma apoia a performance neste elemento cênico. A lona é floresta, a lona é casa, a lona é corpo. É o único aparato cenográfico que a diretora oferece ao corpo dos atores. Nesse sentido, é emocionante o respeito à teatralidade. Assim como Antunes, Bia confiou totalmente “no poder pleno do ator para que se instaurasse o fenômeno artístico”, como escreveu Magaldi.

A encenadora, aliás, já havia feito isso na recente adaptação de Grande Sertão: Veredas. Se encontramos elementos comuns nas criações recentes da diretora, percebe-se a coerência da construção de algo autoral. No entanto, a impressão que eu tive é que, por mais rebuscada que seja, a prosa de Guimarães Rosa me pareceu mais “fácil” de se acompanhar no teatro. Mário de Andrade, por sua vez, escolheu questões mais complexas e, como a diretora aponta no programa, criou uma literatura cheia de labirintos, sem saídas simples. A peça respeita isso.

A performance

Talvez por esta razão, a performance chamou mais a minha atenção do que a narrativa. É o que eu nomeei de “ostentação cênica”. É curioso como a encenação trabalha, nos poucos elementos que compõe a cena, o contraste entre o preto e o branco com detalhes em vermelho. Deve haver uma razão para a escolha dessas cores mas não consegui alcançar isso.

Há uma coreografia executada por um elenco homogêneo que impressiona pela absoluta entrega de seus corpos. Fiquei imaginando o que cada ator teve que trabalhar internamente ao longo dos sete meses de preparação para lidar com o próprio corpo e o respectivo desapego. Doação total.

Assim como Antunes, Bia fez do ator o único denominador comum em um universo em que “homens, figuras mitológicas, animais, aves, árvores, estátuas e estrelas se entrelaçam”. A música (são 70 canções originais em 10 idiomas diferentes) é o que dá liga a todas essas transformações.

Mesmo com a trilha onipresente, que costuma ser um condutor importante à emoção, a encenação “se mostra sempre a serviço de uma indiscutível racionalidade”, como Sábato apontou sobre Antunes Filho. Ou seja, dentro do previsto é mesmo um “diálogo entre uma aluna e um mestre”. Porém, esse aspecto – que tenho consciência também fazer parte do livro adaptado – talvez tenha sido o fator do meu distanciamento.

Dessa maneira, retomo uma pergunta que me fiz neste texto. Que tipo de sensação ver Macunaíma em 2019 poderia realmente despertar? No meu caso, ativou uma racionalidade mais relacionada à forma do que ao conteúdo. Saí do teatro com a certeza de ter vivenciado um espetáculo de excelência técnica. Não foi mais do que isso.

[O QUE] Espetáculo ‘Macunaíma – uma rapsódia musical’ [QUANDO] 28 de junho a 14 de julho, às 20h [ONDE] Centro Cultural Banco do Brasil [QUANTO] R$ 30 a R$ 15 [COMPRE AQUI]

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