Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Arte indígena contemporânea: artistas exaltam ancestralidade e resistência

Identidade e reconhecimento pautam produções artísticas atuais dos povos originários, que reforçam suas lutas políticas e sociais

Tradição e ancestralidade são firmes na produção indígena. São expressões artísticas e culturais usadas como armas de resistência. Assim, a arte indígena também se entrelaça às pautas políticas, contra as tentativas de apagamento histórico e de direitos. 

“A arte, tal como a língua, as crenças e as narrativas míticas, são mecanismos ideológicos que reforçam a etnicidade e, em consequência, a resistência à dissolução da etnia”, aponta Daiane Marques, mestranda em História da Arte pela Unifesp, no artigo “As artes indígenas brasileiras e a antropologia da arte”.

A ideia ocidental de arte

A surpresa do elemento ‘indígena’ no conceito da arte contemporânea vem de uma falta de reconhecimento por parte do sistema de arte ocidental. “Há mesmo que se explicar o porquê de chamarmos arte indígena contemporânea e não ao contrário. Na história da literatura especializada sobre arte contemporânea produzida no Brasil, não temos autores artistas indígenas. Nesse sentido, o componente novo surpreende por seu protagonismo histórico”, escreve Jaider Esbell, artista e escritor indígena.

Filhas da terra e as suas resistências invisíveis semeando a terra III - Arte inédita para o projeto IMS CONVIDA. Ilustração: Yacunã Tuxá

“A arte indígena contemporânea seria então o que se consegue conceber na junção de valores sobre o mesmo tema arte e sobre a mesma ideia de tempo, o contemporâneo, tendo o indígena artista como peça central. Um componente trans-tempo histórico e trans-geográfico é requerido”, diz Esbell.

Os momentos que marcam a arte indígena se conectam as mudanças sociais, políticas e a luta pelos direitos constitucionais, elementos presentes nas produções. Assim, as produções contemporâneas são marcadas por outros três momentos anteriores: tentativa de extermínio físico das populações indígenas; a integração dos povos indígenas e a tentativa de apagamento das culturas e identidades originárias; e o maior agenciamento de desejos e existência a partir da Constituição de 1988. É o que mostra Naine Terena, ativista, educadora, artista e pesquisadora indígena para a Revista Zum

“É nesse cenário que este quarto momento abraça as tecnologias de comunicação e da informação, expandindo a produção artística e a sua utilização e tornando-os fortes aliados na busca de uma autorrepresentação”, reforça Terena.

O que há de contemporâneo na arte indígena?

Enquanto vista por alguns como primitivo, a arte indígena contemporânea reforça a dimensão coletiva, sobre uma arte e atividade compartilhada, partilhada. As produções são ligadas à vida em comunidade e às necessidades diárias, alicerçadas nas tradições. Da mesma maneira, trazem ruptura, reflexão e se manifestam como intervenção cultural.

“Alguns de seus aspectos, como o movimento de ruptura dos sistemas de hábitos que a arte conceitual e a arte da performance instauraram, as tentativas de reflexão sobre questões sociais que as artes contemporâneas realizam e as funções que assumiram nas definições de identidade, transculturalmente e interculturalmente. Vemos nos dias de hoje, artistas fazendo incursões no meio social seja mapeando sua realidade, seja produzindo a partir de sua relação com ela”, escreve Regina Polo Müller, mestre em antropologia social, em seu artigo “As artes indígenas e a arte contemporânea”.

Pluralidade

Além disso, as produções indígenas encaram a pluralidade ao compreenderem os diferentes conjuntos de significados de cada tribo. Como característica, a arte indígena contemporânea tem seu caráter integrado nos diversos domínios da vida social e sua natureza múltipla, ativa, participante e coletiva. 

A participação também se torna um elemento do processo artístico na expressão indígena. Assim, as produções não servem apenas para contemplação, mas ganham valor de intervenção cultural. Por isso, conheça cinco artistas contemporâneos indígenas que trabalham a resistência e ancestralidade: 

Yacunã Tuxá

Ativista e artista visual oriunda do povo indígena Tuxá de Rodelas, interior baiano. É graduada em Letras na UFBA e reside na capital baiana. A arte se tornou sua principal ferramenta de luta contra o racismo e em defesa dos povos indígenas, com obras potencialmente influenciadas pela espiritualidade, memória e sabedoria das anciãs de seu povo. Ainda permitem um novo olhar sobre os indígenas contemporâneos que transitam entre os aldeamentos e grandes cidades construindo novas estratégias de resistência.

Daiara Tukano

Daiara Hori, nome tradicional Duhigô, é do povo indígena Tukano Yé’pá Mahsã, clã Eremiri Hãusiro Parameri. É artista, ativista, educadora e comunicadora, mestre em direitos humanos pela UnB e pesquisadora de direitos humanos. Em seus artesanatos, celebra os grafismos tradicionais e, em suas aquarelas, desenhos e pinturas, a espiritualidade. Foi indicada ao Prêmio PIPA 2021.

Jaider Esbell

Jaider Esbell é artista, escritor e produtor cultural indígena da etnia Makuxi. Nasceu em Normandia, estado de Roraima, e viveu, até aos 18 anos, onde hoje é a Terra Indígena Raposa – Serra do Sol. Colabora com obras e testemunhos de vivências coletivas com a arte indígena contemporânea realizadas em Roraima, fruto de articulação entre artistas, artesãos, lideranças, comunidades e a sociedade em geral em torno do tema.

Seu ateliê, Galeria de Arte Indígena Contemporânea, possui uma abertura para a coletividade e a prestação de serviços culturais, sem ser empresa ou ONG, incluindo no portfólio formação de alunos, oferecendo estágio a estudantes de artes visuais da UFRR. Em 2016, recebeu indicação ao Prêmio PIPA.

Edgar Kanaykõ Xakriabá

Edgar Kanaykõ Xakriabá é indígena do povo Xakriabá. Mestre em antropologia, é fotógrafo e registra costumes, personagens e eventos da aldeia. Entende a imagem como ferramenta de luta e preservação da sua cultura. É o responsável pela exposição virtual Siwettet: resistência, em que exibe os povos indígenas nos dias de hoje.

Ibã huni Kuin

Ibã huni Kuin (Isaías Sales) é um txana, mestre dos cantos na tradição do povo huni kuin. Ao tornar-se professor na década de 80, aliou os saberes de seu pai Tuin Huni Kuin aos conhecimentos ocidentais, passando a pesquisar na escrita a sua tradição junto com seus alunos. Criou o Projeto Espírito da floresta visando, com seu filho Bane, pesquisar processos tradutórios multimídia para esses cantos compondo o coletivo MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin. Foi indicado ao Prêmio PIPA 2016. Tira dos versos e cerimônias ayahuasqueiras a inspiração para suas telas.

Por Karen Ramos | Culturadora

Karen Ramos é jornalista, estagiária da Rádio Metropolitana FM, colaboradora do Culturadoria e da Contralto. Aficionada por literatura e dramas coreanos.

Foto de Edgar Kanayko. Foto: Edgar Kanayko/Reprodução Instagram

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