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Arte e religiosidade na música

Show "Sá Rainha", da cantora TITANE, no Teatro Bradesco. Foto: Bruno Figueiredo / Área de Serviço

Identidade estética de artistas mineiros se molda a partir do sagrado

Por Ronnaldo Marques I Participante do Projeto Culturadoria em rede

Arte e religiosidade sempre caminharam juntas. Tal relação ajudou a moldar a sociedade contemporânea, ao influenciar artistas, pensamentos, linguagens e expressões de seu tempo. 

De certa forma, ainda hoje, arte e religiosidade caminham juntas na cena artística contemporânea, de maneira a corroborar com uma estética singular.

A cantora Titane é uma artista que trabalha as manifestações religiosas com muita força. No início da década de 1980, quando desejou trazer a tambor do reinado a seu universo artístico, ela percebia que fazia algo sem parâmetro, e não tinha consciência de que aquilo sempre aconteceu.  

O processo era complexo, e ela tinha apenas o desejo. De lá para cá, a artista entendeu, em profundidade, que, por trás de vários momentos na história, a arte reencontrava suas raízes sagradas.  

“Acredito que, no fundo, é tudo uma coisa só, mas, em algum momento na história da sociedade, a arte se separa, e as manifestações artísticas começam a acontecer desvinculadas de suas matizes mais sagradas e complexas. Quando a arte é o ingrediente comercial, passa a preponderar sobre os outros. Aí, a coisa se descola, mesmo”, comenta Titane. 

Afinal, destaca, no início de tudo, era uma coisa só: “É só a gente ver o Reinado do Rosário. Ali, religião, arte e ciência são uma coisa só”, completa. 

A artista continua: “Desde que me encontrei na arte, encontrei a mim mesma. Então, houve uma coincidência, pois nunca pensei na arte fora de mim. Aliás, nunca planejei ser artista. Quando me vi, já estava convidada, pelo grupo de música Mambembe, a cantar”. 

Carreira solo

Quando o grupo se desmanchou, Titane iniciou a carreira solo, com repertório de música brasileira – sempre bastante percussiva: “Eu me sentia muito sozinha. Já no primeiro show solo, queria um tambor, mas ele não existia. Não havia músicos que o conheciam. Nasci com a musicalidade forjada em minha cidade. Eu dormia, toda noite, ao som do tambor. E me fardei, na festa, já adulta. Ou você olha fora de si, e deseja fazer a música do outro, ou olha para você, e a musicalidade aflora”.

Antes de gravar o primeiro álbum, Titane produziu o disco “Os negros do Rosário”,  gravado ao longo do reinado, na rua, nas casas de reis e rainhas, em terreiros. Não foi uma situação criada para gravação. “Eu não conhecia discos desse tipo, e achava que precisava ser feito”, explica.  

Em seu primeiro disco, “Enredo de Fé”, de 1985, a cantora chamou a guarda de Moçambique de Tião Ataíde para gravar em estúdio. “A experiência foi impressionante!”, sublinha. 

E ela estava certa: “Quando a gente se entrega à arte, somos visionários. A dimensão artística do ser humano conversa com princípios fundantes de nossa natureza. Por isso, ela é sagrada, e não se descola do sagrado, pois faz parte do grande mistério da vida. E o grande mistério é sagrado”.  

Em 1995, foi preciso que as guardas circulassem em outros espaços, como a arte, com toda sua energia resguardada.  “Ao palco do teatro Francisco Nunes, levamos duas guardas. Era algo novo para a cidade, que não circula por espaços do congado e dos reinados”. 

Daí em diante, Titane seguiu, nos palcos, com o projeto. A série de shows “Sá Rainhas”, que contava com a presença das guardas do reinado, evoluiu e chegou a ir para a França. 

Sagrado ofício

A arte e a religiosidade estão ali, junto do artista, de modo inseparável, pois permeiam todos os campos da vida. Para a cantora Maíra Baldaia, sempre foi natural sua proximidade com o candomblé, o congado e a marujada.

Trata-se, afinal, de uma filosofia de vida, por meio da qual a artista aprendeu a aquilombar e a coletivizar. Vêm daí muitas inspirações para composições da artista. Por isso é que ela chama seu trabalho de “afro pop mineiro”. 

“Nem tudo que está no sagrado se pode levar ao palco ou à cena. É preciso dizer que, para nós, do congo/angola, fazemos, apenas, uma releitura de sons e ritmos. Aprendi muito com [Maurício] Tizumba sobre o limiar entre o que posso ou não levar ao palco”, comenta a artista. 

Desde sempre, a cantora quis cantar, mas sua maior influência vem da literatura, com Conceição Evaristo, e, claro, outras mulheres, com as quais aprendeu ao longo da vida. 

Maíra Baldaia. Foto de Roxie.

Missão

Ao mesmo tempo em que Baldaia vê diferenças entre a arte e o sagrado, percebe suas muitas proximidades: “A arte toca em mim, me faz criar. É uma relação sagrada, uma missão espiritual de vida. Sei que está tudo conectado,  e, quando estou no palco, o momento é de cura, de deleite. Isso também é revolucionário, pois é o resgate do direito de prazer e amor”. 

A artista diz, portanto, que cantar é, sim, uma missão sagrada. “Ao mesmo tempo, é um trabalho. Como dizia João das Neves: ‘somos operários e trabalhadores’”, completa. 

Para Sérgio Pererê, sua estética se construiu e desconstruiu ao longo do tempo. “Tenho influência de coisas que vi e ouvi na infância. Os cantos de reza da minha mãe, ou de reza de igreja ou de umbanda, por exemplo. Por outro lado, meu pai era cantor, seresteiro. Então, cresci ouvindo seresta, canto de umbanda, de igreja católica”. 

Paralelamente a tais influências, Pererê escutou James Brown, Ray Charles, Milton Nascimento, Tonico e Tinoco: “Quando cheguei aos sete anos, me interessei pela música da capoeira, do berimbau, e pelos sons de raiz afrobrasileira, o jongo e o candombe. Passei a compor com violão e berimbau. Já lia muito sobre a África, e, mais precisamente, a África do Sul”. 

Sergio Pererê, em foto de Ronnaldo Marques

O músico gosta de diferenciar arte e religião, mas percebe a dimensão sagrada do cantar. “A arte é o suprassumo do sagrado, pois tem tudo de qualquer religião, mas sem o dogma e as cobranças. As religiões, em algum momento, te cobrarão algo. A arte é sagrada, sem necessidade de senha, dogma. Ela é livre. O sagrado da arte me sustenta”, destaca. 

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 28/08/23

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