Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Arte e ativismo: Cláudia Andujar e os Yanomamis

A importância da obra fotográfica de Cláudia Andujar na defesa do povo Yanomami e na retratação dos indígenas

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A importância da obra fotográfica de Cláudia Andujar na defesa do povo Yanomami e na retratação dos indígenas

Por Ohana Padilha | Culturadora

Em 1955, Cláudia se instalou no Brasil, percorreu o território do país e também outros lugares da América Latina com uma câmera nas mãos. Entre os anos de 1966 e 1971, trabalhou para a revista Realidade, a qual a conectou com a Amazônia e os Yanomamis. 

Claudia Andujar em Inhotim | Foto: Rossana Magri/Acervo Inhotim
Claudia Andujar em Inhotim | Foto: Rossana Magri/Acervo Inhotim

A fotógrafa de origem europeia faz parte da história da fotografia brasileira. Foi uma das responsáveis por introduzir as questões da iconografia dos povos indígenas na arte contemporânea. 

O contato com o povo Yanomami foi um divisor de águas na carreira, nos anos que se seguiram passou longas temporadas com os indígenas mergulhando na rotina do povo.

Além disso, foi responsável por inseri-los no contexto cultural, político e social brasileiro.

Com o olhar atento e com a vontade de conhecer o outro – como dito pela fotógrafa diversas vezes – registrava as atividades cotidianas, os rituais e os detalhes da mata, sempre experimentando ângulos e enquadramentos. 

Catrimani, Roraima, 1974. Foto © Claudia Andujar. Disponível no site do Instituto Moreira Salles
Catrimani, Roraima, 1974. Foto © Claudia Andujar. Disponível no site do Instituto Moreira Salles

Andujar preocupava-se em narrar a experiência de sua relação com os yanomamis e os símbolos da cultura indígena. Talvez, nesse momento, estaria criando sua própria linguagem de retratação do povo.

“Minha fotografia cresceu junto com esse interesse, envolvimento e afinidade que senti pelo índio. Nunca foi uma curiosidade como acho que as pessoas têm por lugares exóticos. Nunca foi isso. Desde o começo, para mim, foi uma relação de homem para homem”

Cláudia Andujar
A jovem Susi Korihana thëri em um igarapé, filme infravermelho. Catrimani, Roraima, 1972-1974. Foto © Claudia Andujar. Disponível no site do Instituto Moreira Salles
A jovem Susi Korihana thëri em um igarapé, filme infravermelho. Catrimani, Roraima, 1972-1974. Foto © Claudia Andujar. Disponível no site do Instituto Moreira Salles

Essência e existência

A obra, um acervo de milhares de imagens, traz à tona a existência e a essência de um povo. Apresenta, também, alegria e a dor humana, o acaso e o descaso.

Na estadia com os indígenas, Andujar também foi testemunha de um rastro de doenças. Retratou, ainda, violências e conflitos de terras gerados pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da região amazônica durante o governo militar. 

Dessa maneira, ver as injustiças e a violência com o povo levou a fotógrafa a batalhar para ajudar os indígenas em sua luta pela sobrevivência.

Sendo assim, além de fotógrafa, passou a ser uma ativista pelas causas indígenas, pelas causas humanas. Andujar sempre lutou pelas necessidades básicas e de direito de qualquer ser humano, como a saúde e a segurança.

Usando a arte e seus meios de expressão, lutou e conquistou – durante o governo do presidente Fernando Collor -, em 1992, a demarcação das terras indígenas Yanomami. Porém, a demarcação ainda é uma questão não resolvida até os dias atuais. 

Atuação

Em junho de 2021, Claudia Andujar completou 90 anos de idade. Ainda está em atividade, mas com um ritmo mais lento por conta de sua saúde.

A artista está sempre ressignificando e reconstruindo seu acervo de milhares de fotografias. Todas em consonância com os aspectos políticos e sociais de cada época do país. Acredita no poder das imagens para evocar a sensibilidade do público sobre temas fundamentais à sobrevivência dos povos nativos do Brasil.

No ano passado, análises de um estudo produzido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), classificou os Yanomami como “o povo mais vulnerável à pandemia de toda a Amazônia brasileira”. 

Com a última eleição presidencial, a questão da demarcação das terras indígenas está ameaçada, as invasões ilegais de garimpo mais abusivas e o desmatamento só aumenta na região amazônica. 

Recentemente, a Hutukara Associação Yanomami denunciou a morte de duas crianças na comunidade Makuxi Yano, região do Parima, Terra Indígena Yanomami. De acordo com relatos, dois meninos, de 5 e 7 anos, se afogaram no rio local por conta do garimpo ilegal.

Dessa forma, pelos recentes conflitos aqui citados e tantos outros mostrados pelas mídias diariamente, o conhecimento sobre os povos que sofrem com uma maior vulnerabilidade é essencial para que haja a defesa e a garantia de vida.  

Portanto, conhecer Cláudia Andujar, a sua obra e seus desdobramentos é manter a cultura indígena viva. É compreender a história do nosso país e reconhecer o espaço por direito de um povo que já foi bastante massacrado. 

Confira mais 5 motivos para conhecer a fotógrafa:

Deu luz ao povo marginalizado

Quando pensamos em Cláudia Andujar, logo já a associamos ao indígenas Yanomamis, mas vale ressaltar que a fotógrafa também possui outros trabalhos de grande relevância na retratação de outras minorias. 

O seu acervo também conta com narrativas sobre a migração dos nordestinos, as relações homossexuais, as diferentes crenças religiosas e os povos indígenas. 

Galeria Claudia Andujar em Inhotim

Em novembro de 2015, o Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais – inaugurou sua 19ª galeria permanente, dedicada ao trabalho da fotógrafa Cláudia Andujar. 

O pavilhão é o segundo maior do Instituto e exibe mais de 400 fotografias realizadas pela artista entre 1970 e 2010 na Amazônia brasileira e com o povo indígena Yanomami. 

A exposição contempla diversos textos, imagens, áudios e publicações sobre o trabalho da fotógrafa. Quem vai à galeria consegue vivenciar de maneira vívida os detalhes, as singelezas e riquezas da cultura indígena.  

Documentário Inhotim

Da galeria para as telinhas, é possível conferir os detalhes de curadoria, diálogos da fotógrafa e do curador, a montagem da exposição e outras curiosidades a respeito da Galeria Cláudia Andujar no documentário Inhotim, disponível na Netflix. 

O quarto episódio do documentário, intitulado como ‘Cláudia Andujar’, é uma boa pedida para quem quer se aprofundar na obra da fotógrafa e também para quem deseja ter um primeiro contato com a cultura Yanomami. 

Artista reconhecida no Brasil e no mundo

Além da sua própria galeria em Inhotim, suas fotografias também estão expostas em importantes museus e galerias nacionais e internacionais como o Museu de Arte Moderna da Nova Iorque (Moma), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), dentre outros. 

Em 2019, o Instituto Moreira Salles realizou uma exposição da obra de Claudia Andujar intitulada como ”A luta Yanomami”. A mostra também seguiu para a Suíça, Itália e Espanha.

Para além dos museus e galerias, suas fotos já foram publicadas em ilustres revistas como a New York Times, Life, Claudia e Realidade.

Retratação dos Yanomamis como uma extensão de si

Como afirmado pela própria fotógrafa, a retratação dos Yanomamis conecta-se com o seu próprio passado marcado pelas perdas e traumas advindas da Segunda Guerra Mundial que mudou para sempre o seu destino e o da sua família. 

Quando criança, Andujar perdeu seu pai e parte da sua família paterna nos campos de concentração nazistas. E fugiu com sua mãe para os Estados Unidos para sobreviver e resistir aos conflitos da guerra.

Dessa forma, a partir da sua história, compreendeu os desafios e dificuldades que o povo Yanomami vem sofrendo com os abusos, violências e descaso ao longo dos tempos.

“Fotografar é processo de descobrir o outro e, através do outro, si mesmo”  

Cláudia Andujar

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