Literatura
“Apanhadora de pássaros” é meditação afiada sobre as relações e o mercado da arte
Gayl Jones. Foto: Janet Worne - Lexington Herald-Leader
Literatura
Gayl Jones. Foto: Janet Worne - Lexington Herald-Leader
Finalista do National Book Awards, “Apanhadora de pássaros”, da norte-americana Gayl Jones levou 36 anos para ser lançado em seu país natal
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Duas mulheres negras e artistas vivem juntas, ao lado do marido de uma delas, em um auto-exílio na ilha de Ibiza. Amanda Wordlaw é uma escritora de livros de viagens, após uma bem sucedida carreira dentro da literatura erótica. Catherine Shuger é uma artista plástica que enfrenta uma série de demônios internos, enquanto tenta desenvolver seus projetos. Parte desses demônios a direcionam numa relação violenta ao lado do marido, Ernest, um escritor de divulgação científica. Um intrincado jogo entre essas três peças é posto no tabuleiro de “Apanhadora de pássaros”, o primeiro romance da norte-americana Gayl Jones publicado no Brasil. Com tradução de Nina Rizzi, o livro é um lançamento da editora Instante.
Catherine tenta incessantemente matar o próprio marido. Esse é o primeiro ponto que salta aos olhos logo nas primeiras páginas do romance. “Qualquer um que estivesse nesta varanda, envolvido pelo cheiro de laranja e eucalipto, banhado pela luz do sol, juraria que aqui é um paraíso. Mas, para falar a verdade, o lugar é repleto de perigos”. Ernest sofre, ao longo do casamento, uma série de tentativas infrutíferas de assassinato, o que leva a esposa à temporadas em diferentes clínicas psiquiátricas. Ainda assim, o parceiro não a abandona. Um enredado jogo, entre a violência e o afeto, marca esta relação.
No meio dos dois, há Amanda, que, repetidamente tenta evitar que o crime, enfim, aconteça. Gayl Jones desenvolve aqui uma relação intrincada entre o trio. Amanda se vê cada vez mais envolvida nesse relacionamento tóxico, que parece sempre à beira do precipício, enquanto busca entender quais as estruturas que os mantém juntos. Enquanto a tríade segue unida em suas fragilidades, Catherine trabalha numa peça de arte em contínuo processo de criação. Essa curiosa escultura leva o nome do romance que temos em mãos, “Apanhadora de pássaros”. “Feita de pedaços de madeira, alumínio e objetos encontrados, obra que ela continua desmontando e reorganizando, na qual vem trabalhando, intermitentemente, há anos. (…) Acho que ela gosta de destruir e recriar. Acho que ela adoraria ficar nisso para sempre”.

“Apanhadora de pássaros” é um quebra-cabeça complexo e exigente. Majoritariamente narrado por Amanda, o livro altera o ponto de vista em seus momentos finais, na medida em que se torna mais abstrato e menos narrativo. Uma meditação sobre a arte – sobretudo o espaço da mulher negra dentro desse espaço e desse mercado -, a loucura, os relacionamentos, as próprias escolhas e a liberdade, num texto elegante e, por vezes, brutal. Gayl Jones é uma mestra na construção de diálogos que, por vezes, são afiados ao ponto de nos cortar. “Estou pensando nas escritoras que conheço que vivem com homens que acham que o trabalho delas é uma merda, ou algo próximo a uma merda. Posso listar umas cinco. Mas não posso listar nenhum, nenhum, dos escritores homens que conheço que vivem com mulheres que acham que o trabalho deles é menos do que fantástico”.
Este mais recente romance de Gayl Jones publicado nos Estados Unidos tem uma história interessante. O livro foi originalmente publicado em alemão em 1986. 36 anos separam o lançamento na Alemanha e a primeira publicação na língua original da autora, o inglês, em 2022. Com essa tardia publicação, o livro foi finalista do National Book Awards. Mais um feito surpreendente. Para o júri, “‘Apanhadora de pássaros’ é uma defesa feroz do direito da mulher de fazer arte — um relato preciso, elegante e nada sentimental das barreiras sutis e pouco sutis espalhadas no caminho da autora”.
Encontre “Apanhadora de pássaros” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por Gabriel Pinheiro
Publicado em 16/08/23