Literatura
Aline Bei investiga solidão compartilhada em novo romance
Lançamento da Campanhia das Letras, "Uma delicada coleção de ausências" mergulha nas dinâmicas íntimas de um núcleo familiar feminino
Aline Bei (Foto Isadora Arruda)
Literatura
Lançamento da Campanhia das Letras, "Uma delicada coleção de ausências" mergulha nas dinâmicas íntimas de um núcleo familiar feminino
Aline Bei (Foto Isadora Arruda)
Ao final de “Uma delicada coleção de ausências”, Aline Bei dedica o novo livro “aos que existem sozinhos”. Povoado por personagens que frequentemente estão na companhia umas das outras, o romance é marcado por um sentimento de solidão. Uma solidão compartilhada por diferentes gerações de mulheres de uma mesma família. Assim, numa delicada construção textual, as vidas construídas e narradas por Aline passam por ciclos, que parecem insistir em se repetir. Ou, melhor, em se reescrever. Uma vida nunca é igual à outra. O romance é um lançamento da Companhia das Letras.
“Uma delicada coleção de ausências” começa com a chegada do circo. O chão de terra batida, a lona iluminada noite adentro, o cheiro da pipoca acomodada em pequenos saquinhos. Lugar de impermanência, do inesperado, do trânsito – entre pessoas, entre localidades – a imagem do circo é, em suma, uma chave importante para a entrada no universo particular construído por Aline Bei neste novo trabalho. Fuga e retorno. Abandono e reencontro.
Margarida e Laura, uma neta e uma avó, vêem a rotina diária se transformar com a chegada – um regresso inesperado – de uma terceira mulher: a bisavó, Filipa. Dessa forma, três gerações de mulheres passam a conviver juntas numa diminuta residência. Assim, se vêem obrigadas a enfrentar tanto o tempo presente, quanto as cicatrizes de um passado que deixou marcas indeléveis. Como vemos, há um pulo geracional na cena construída por Bei. Falta a mãe de Laura, a caçula neste núcleo familiar inteiramente feminino. Glória fugiu, abandonando a filha aos cuidados da avó, sem deixar vestígios. Uma ausência presente. Tanto nas lembranças das duas mulheres mais velhas, quanto na impossibilidade da construção de uma memória compartilhada pela criança.
Entre mães, filhas, netas e bisnetas – papéis que se confundem, nenhuma delas representa apenas um – Aline Bei segue investigando temas caros ao seu universo literário. Como a maternidade e a sua recusa, a solidão, a perda, a busca e a construção da própria identidade. A partir de tais aproximações temáticas – mas, ressalto, com resultados distintos – “Uma delicada coleção de ausências” pode ser lido como a conclusão de uma trilogia, iniciada por “O peso do pássaro morto” e seguida por “Pequena coreografia do adeus”.
Mas o novo romance da autora paulista é tanto a conclusão de um ciclo quanto um novo capítulo dentro de seu projeto literário. Aqui, há a escolha por um narrador em terceira pessoa – diferente dos anteriores, com vozes na primeira – e por uma estrutura mais próxima da prosa. Ainda que a poesia nunca abandone a escrita, tanto na construção das delicadas imagens e associações, quanto na própria escrita. Assim, texto de Aline Bei segue dançando frente aos nossos olhos, em capítulos que não se encerram, concluídos por vírgulas solitárias, abertas ao porvir das próximas páginas, e não por pontos finais definitivos.
Aliás, ao lado da prosa e da poesia, um terceiro caminho se abre no texto: o teatro. Nesse sentido, diferentes cenas se desenrolam, descritas com detalhes – acerca do espaço onde acontecem, dos gestos e das características das personagens – pelo narrador onipresente que, mesmo em terceira pessoa, mergulha e parece se misturar com os pensamentos mais íntimos daquelas mulheres. Por vezes, o texto apresenta breves apontamentos que funcionam como rubricas de um texto teatral, num gesto que convida o leitor a construir mentalmente a cena, aproximando cada vez mais o romance de uma dramaturgia.

Habitado pelo silêncio, “Uma delicada coleção de ausências”, em síntese, olha para a incomunicabilidade, para o envelhecimento, para os laços que nos ligam irremediavelmente e para a tentativa de rompimento de ciclos de dor e violência. À flor da pele, a escrita de Aline Bei se dá tanto no papel, quanto nos corpos de personagens profundamente humanas em toda a sua fragilidade e resiliência.
Encontre “Uma delicada coleção de ausências” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 12/06/25