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Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei, é marcado por uma narrativa de ausências

Novo livro da escritora, publicado pela Companhia das Letras tem prosa poética, que busca romper limites e normas do texto.
Por Jaiane Souza
Pequena coreografia do adeus
Capa do livro "Pequena coreografia do adeus", de Aline Bei. Crédito: Companhia das Letras

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura | @tgpgabriel

Pequena coreografia do adeus, novo livro de Aline Bei, é um romance permeado por ausências, sobretudo a ausência do afeto e da comunicação. Adentramos as agruras de um seio familiar em frangalhos: a relação dolorosa e solitária de uma filha com a mãe e a relação distante com o pai, que deixa a casa, foge. Júlia, a menina, vive numa sensação constante de culpa, pelo matrimônio fracassado de seus pais, e responsabilidade por sua solitária mãe.

A casa é um ambiente permeado pelo receio e pelo medo. Tomada pelo silêncio, o barulho incomoda, é proibido. Esse silêncio só é interrompido pelos gritos que precedem a surra. O espírito da mãe que domina, carrega a casa – ao invés de um espaço de aconchego e segurança, se transforma em cativeiro. Um lar fechado, onde as cortinas são cerradas quando há qualquer vestígio de luz. Até a comida carrega esse espírito, tem um gosto ruim. O corpo da mãe era uma espécie de museu da dor, a garota nos diz: a dor que padece e a dor que aflige.

Além de tudo, Júlia ainda precisa lidar com as transformações do seu corpo, com o próprio sangue – que suja, que irrompe sem que ela perceba – e a intensidade dos sentimentos e das sensações da puberdade. 

Fases da vida

Em seu processo de amadurecimento – este muito precoce -, há na menina uma busca de entendimento nos atos da mãe e na ausência do pai. A repetição do passado no presente, de uma geração noutra. Encontramos aqui pessoas machucadas: cada um a seu modo, pai e mãe também têm suas histórias atravessadas pelo abandono e pela violência. Muitas vezes você só consegue dar ao outro aquilo que você conheceu, aquilo que tem dentro de si.

Acompanhamos Júlia em Pequena coreografia do adeus de garota à mulher. Uma vida em constante descompasso, em desarmonia, que procura a todo custo formas de se encontrar: no balé – sob os olhos das garotas que julgam seus movimentos -, e na escrita – o diário, espaço de intimidade, de registro de dores e frustrações, mas que também se torna o lugar da escrita literária, ficcional. Júlia busca nos personagens que cria, onde vemos muito de si e de sua triste vida familiar, uma maneira de se comunicar – vinda de um lar onde a comunicação não era uma prerrogativa -, e encontrar conclusões mais felizes. O diário tem uma presença muito forte: é bonita a maneira como Júlia se reencontra, se redescobre na prática literária. A arte como uma possibilidade de presente e de futuro.

Estrutura da obra

A coreografia do título está na estrutura textual. Numa prosa extremamente poética, buscando romper os limites e normas do texto, Aline Bei quebra as linhas, distribui as palavras fora de um bloco de parágrafo fechado, criando uma métrica própria. Aqui, as palavras dançam sob nossos olhos, em constante desconstrução. Esta fragmentação do texto, com seus muitos espaços e ausências, também reflete este ser fragmentando de quem ele fala: uma garota, uma mulher que a todo custo tenta colar os cacos que compõem o seu ser e a sua existência. 

Pequena coreografia do adeus está disponível aqui.

Pequena coreografia do adeus
A escritora Aline Bei. Foto: Lorena Dini

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