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Ailton Krenak: as inquietações do novo imortal da AML

Ailton Krenak. Foto: Neto Gonçalves

Novo titular da cadeira 24 da Academia Mineira de Letras, o pensador Ailton Krenak falou com a equipe do Culturadoria sobre o convite da centenária instituição e outros temas que o mobilizam

Por Patrícia Cassese | Editora Assistente

“Será que vai chover?”, pergunta Ailton Krenak, notando a presença de algumas nuvens carregadas no horizonte, ao se aproximar de uma das janelas da sede da Academia Mineira de Letras, no dia 02 de março de 2023, ao fim da entrevista concedida ao Culturadoria. O ambientalista e líder indígena assumiu a cadeira 24, antes ocupada pelo escritor Eduardo Almeida Reis, falecido em março de 2022.

O bate-papo, diga-se, aconteceu em mais uma tarde de calor inclemente na capital mineira, evidência de uma pauta que há tempos habita o rol de preocupações do ambientalista nascido no Vale do Rio Doce, há 69 anos: o impacto das mudanças climáticas, em curso no planeta, no nosso dia a dia.

O assunto, claro, despontou na conversa de forma orgânica, ainda que o mote do encontro fosse, claro, a expectativa do ingresso na centenária instituição, composta por 40 membros e hoje presidida pelo jornalista Rogério Faria Tavares, de quem Krenak conta ter se aproximado mais há cerca de um ano, quando a ele foi proposta a tarefa de organizar, junto à professora Maria Inês de Almeida, um dossiê sobre a poesia indígena em Minas Gerais.  O “Dossiê sobre a Poesia Indígena” foi incluído no número 81 da Revista da Academia Mineira de Letras, lançada em julho do ano passado.

Confira, a seguir, alguns trechos da entrevista de Krenak ao Culturadoria.

Vamos começar pela pergunta mais óbvia, mas inevitável: como recebeu a indicação de seu nome à cadeira 24 da AML?

Ailton Krenak: Foi uma surpresa! Não estava no meu horizonte, mas entendi como parte de uma apreciação ampla de instituições acadêmicas, inclusive universidades. Instituições como a UnB, que me concedeu, ano passado, o título doutor honoris. Anteriormente, a Universidade Federal de Juiz de Fora havia me intitulado lá.

E agora estou engajado em uma pesquisa, junto ao Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (IEAT) da UFMG, vinculado a uma cátedra que pesquisa as sociedades na América Latina. Veja, publiquei três livros nos últimos anos, com pandemia e tudo. Acho que soou como um gesto meio heróico, deu muita visibilidade.

E, no caso da AML, há mais de um ano, o presidente Rogério Faria Tavares me convidou para fazer um dossiê sobre poesia indígena em Minas Gerais, junto à minha querida amiga Maria Inês de Almeida. Foi uma aproximação com o modo de a Academia funcionar.

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Esse dossiê foi, para mim, uma experiência muito rica, pela, digamos, disciplina do texto, da eleição dos textos. E pela conversa com os colegas que são mais “literatura” do que eu.

Na verdade, eu não me acho um sujeito da escrita. Venho de uma outra matriz cultural, com uma outra identidade, e não imaginava que a Academia estivesse atenta à produção de povos tradicionais, da oralidade.

Esses trabalhos que se vinculam mais com a memória – no meu caso, uma observação crítica sobre a ideia de humanidade, que está na trilogia “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2020), “A Vida Não é Útil” (2020) e “Futuro Ancestral” (2022). Esses livros encerram uma conversa séria sobre o equívoco civilizatório em que nós nos metemos, e que vai nos levar a um certo fim de mundo. Se não globalmente, pelo menos parcialmente vai haver regiões do planeta que vão ficar inabitáveis.

Tem gente que fala que essa visão é muito apocalíptica e tal. Mas, por outro lado, tem muita gente que está ganhando muito dinheiro predando o planeta, comendo o planeta. E achando legal.

Você falou nos livros que lançou nos últimos anos, a trilogia. Neste momento, está se debruçando sobre alguma escrita em particular?

Ailton Krenak: Seria mais correto dizer que está iniciada. Decidimos trabalhar com uma publicação mais alentada, para além do formato dos livros que publiquei pela Companhia das Letras, os três que mencionei. Onde eu pudesse me estender mais em algumas análises, como, por exemplo, sobre a nossa história colonial. Como o Brasil se constitui uma nação construída sobre a derrota dos povos nativos, que é o mito americano.

Lá, nos EUA, eles predaram tudo, acabaram com os povos indígenas, tomaram seus territórios. O Brasil tenta seguir a mesma trajetória. Tanto que o último presidente lamentou que o país não tivesse feito o mesmo. Quando um presidente da República diz isso, ele está, de certa maneira, ecoando o que grande parte da população brasileira pensa.

E agora nós estamos vendo a situação dos ianomâmi, que configura um quadro de genocído. Quer dizer, eles conseguiram causar um dano irreparável. Os rios do território ianomâmi estão todos contaminados com mercúrio. Se aquelas crianças forem devolvidas para o território, não têm água para beber. A pergunta é: onde eles vão viver?

Aliás, este é um drama que você vem acompanhando há tempos…

Muito tempo. Desde a década de 1980.

Claro que o dano é irreparável, mas o que poderia ser feito neste momento para que a situação não se agrave ainda mais?

Ailton Krenak: Para os Yanomami, sem generalizar para os outros povos, o horizonte é muito grave. Você tem milhares de pessoas contaminadas por mercúrio.

O cineasta Jorge Bodansky lançou no Forumdoc, aqui, em BH, o filme “Amazônia, a Nova Minamata?”. No título, ele se refere àquele episódio no Japão (ocorrido no final da década de 1950, quando a contaminação de mercúrio provocada por uma empresa de acetaldeído e PVC anos antes começou a se fazer notar em pessoas que consumiram peixes da Baía de Minamata). Ali, crianças começaram a nascer com uma série de deformidades, como a ausência de braço ou de um órgão, porque o mercúrio causa isso. Ele causa um dano genético.

Então, eles conseguiram impregnar os Yanomami de um dano genético. Os Yanomami. Agora vamos pensar no estado, política, governo. Assim, teria que mudar a matriz comportamental do povo brasileiro independentemente de você ser de um ou de outro partido, de entender que isso aqui é uma nação e que nós não podemos nos matar uns aos outros. A gente não pode transformar o lema “amai-vos uns aos outros” para o “matai-vos uns aos outros”.

E isso você não faz de uma hora para outra. O Brasil, como país, tem que mudar os seus valores, com relação a minorias étnicas, raciais.

Um trabalho de formiguinha…

E não vai acontecer de uma hora para outra. Eu faço isso a vida toda e vejo as mudanças acontecendo, assim, a passos lentos. Muito lentos. Devagar, quase parando.

Mas a presença maior dos povos originários em espaços como a política traz uma sinalização positiva?

Ailton Krenak: Sim, claro, mas não podemos celebrar isso, que aconteceu ontem, como uma mudança essencial numa mentalidade colonialista, racista, que está impregnada no aparato do estado brasileiro.

A constituição da república brasileira é colonialista. Ela foi herdada de Portugal. Numa ocasião, em conversa com um jornal em Portugal, me perguntaram: “Como a gente pode ajudar o Brasil neste momento de crise, de paradigma?”. Isso, antes do final das eleições.

Respondi: “Vocês podiam pegar o estado colonial que largaram aqui e levar de volta”. É uma metáfora, porque não tem jeito. Contágio é contágio. Se a gente não mudar isso, mesmo que demore, vai continuar a predação.

O fato de ter indígenas no Congresso, de ter indígenas ocupando cargos no Executivo, muda circunstancialmente uma realidade, mas não estruturalmente. Você está vendo algum indígena no STF, nas cortes supremas do país? Lugar simbólico é lugar simbólico. Os negros também sempre ocuparam lugares simbólicos no Brasil. Mas eles continuam sendo massacrados.

Agora tem o ministro dos Direitos Humanos, que é essa pessoa maravilhosa, o Silvio Almeida, muito bem preparado. Mas olha o desafio que ele tem pela frente. Como ele vai lidar com uma cultura racista, na qual se tiver que dar um comando que contrarie essa lógica racista, ele vai ser questionado?

Falamos da questão dos Yanomamis, mas como está o seu povo, o território Krenak?

Ailton Krenak: O Rio Doce vai continuar, por mais 30 anos, empesteado pela lama da mineração. Toda vez que chover, o material que está depositado vai subir. E se coletarmos amostras e levarmos para laboratório, vão dizer que tem toda a tabela periódica lá dentro.

A gente não pode usar a água do rio! Eu moro dentro da terra indígena Krenak a 500 metros da margem do rio e nós não podemos usar. Somos abastecidos por caminhão-pipa, que anda 120 quilômetros para levar água para a gente. Na verdade, somos abastecidos com quase tudo, porque a terra está contaminada, se produzir alimentos, estão contaminados, aquela água não pode ser usada para nada.

Então, qual a medida, digamos, corretiva que o sistema jurídico brasileiro prevê? Obrigar a mineradora a assistir aquelas famílias com cesta básica, com caminhão-pipa, nos pondo em uma condição de miseráveis dentro do nosso território.

imagem dos povos
Ailton Krenak. Foto: Miguel Aun / Divulgação

Assim, nós somos reféns da mineração. A gente pode sumir de lá, ir embora, sei lá, vir morar em BH.. Mas… e o nosso direito ao nosso território?

Ailton Krenak: Será que o objetivo era fazer o que fizeram com Bento Rodrigues (subdistrito de Santa Rita Durão, no município mineiro de Mariana, atingido pelo rompimento da Barragem do Fundão, em 2015)? Extinguir a vila? Vão extinguir a nossa aldeia? Isso é um crime. Um crime que se enquadra na perspectiva do racismo ambiental.

Tem o direito ambiental. E no conceito amplo do direito ambiental, é possível você caracterizar a prática das mineradoras como racismo ambiental. Eles escolheram quem eles querem matar: comunidades pobres, como o pessoal de Bento Rodrigues, aqueles que vivem nas bacias desses rios, como o Rio Doce, e grupos sociais minoritários que gostariam de ver desaparecer do mundo. A gente tem que ter lentes para entender o que está acontecendo ao nosso redor e não ficar naturalizando a prática do ecocídio.

Primeiro você detona com o Paraopeba, depois arrebenta com o Arrudas, depois acaba com o Rio das Velhas, envenena Rio Doce… E as pessoas vão viver onde? Os executivos da mineradora não vivem na beira dos rios ou bebem a água dos rios.

Que iniciativas mundo afora andam merecendo sua atenção, sejam tocadas individualmente ou coletivamente?

Olha, se a gente observar os últimos 20 anos, a entrada no século 21, a gente vai ter que admitir que houve uma exacerbação da crise que se constitui agora como uma crise de paradigma.

A crise não é mais localizada. Na década de 1990, eu ia falar com você: ‘Ah, tem o trabalho do Greenpeace, do Médicos sem Fronteiras, tem a ideia de restauração florestal, de agricultura ecológica feita por grupos comunitários, tem alguma coisa acenando com ideia possível de conciliação dos humanos com a terra”. Mas a gente entrou no século 21 enquadrado dentro de uma coisa chamada crise climática. Mudança climática.

Os eventos climáticos extremos, eles incluem terremotos, como o recente, que ocorreu na Turquia, mas também mortandade de espécies marinhas e animais silvestres, florestas, alterações de paisagens, de biomas inteiros. E a produção de pandemias. Parece que estamos encaixados numa série de pandemias agora, só vai mudar o vírus. Continuamos ameaçados. De uma hora para outra, milhares de pessoas podem morrer.

Fica parecendo que sou um profeta do apocalipse, mas eu estou vendo isso acontecer. Enxerga quem quiser.

Não por outro motivo, tantas produções audiovisuais com essa temática distópica…

A gente entrou na distopia. Da mesma maneira que antes a gente via histórias românticas, hoje, vemos histórias apavorantes. Dentro dessa realidade global, é quase impossível que eu cite alguma coisa que se mova no outro sentido da devoração do planeta.

Minha esperança repousa nessa meninada que a gente não imagina que estão prestando atenção nas coisas. E parece que eles estão se constituindo o meu público. Se meu público leitor são meninos ou meninos como meu neto… Acho que não há maior contentamento do que saber que meu neto me lê. E me lê como novidade, não como uma coisa passada. Eu acho maravilhoso.

Costumo evocar Carlos Drummond de Andrade como o meu escudo invisível. Ele nomeia essa experiência que estamos vivendo como “maquinação do mundo”. José Miguel Wisnik tem um livro maravilhoso (“Maquinação do Mundo: Drummond e a mineração”), no qual mostra, para quem não tem intimidade com a obra de Drummond, uma leitura da obra e da vida dele. Mostra que Drummond já tinha avisado que nós temos uma vocação para máquina.

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Ele já havia visto que íamos fazer essa besteira, a gente ia ferrar a terra e querer ir para Lua, para Marte. Agora fica esse (Jeff) Bezos querendo vender passagens. E nós nos constituímos em uma sociedade tão dissoluta que deixa um sujeito desses fazer o que quiser com a gente. Socialmente, globalmente, a gente tinha que condená-lo, mas tem gente que o imita.

Essa imitação é produzida com consumo de ideias, consumo de conteúdos, de imagem, consumo de toda essa porcariada que o amplo sistema corporativo produz: inclusive uma cultura corporativa. Quando você está imerso na cultura corporativa, perde a capacidade crítica e começa a consumir o lixo dela como se fosse luxo.

A verdade é que estamos todos adoecendo. No trabalho, em casa. (cantarola) Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé…

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Publicado por Patrícia Cassese | Editora Assistente

Publicado em 03/03/23

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