Literatura

Novo romance de Henrique Schneider acompanha jovem que foge para o exílio durante a Ditadura Militar brasileira

Henrique Schneider. Foto Thais Lehmann

Publicado pela Dublinense, livro retrata os dramas de um jovem obrigado a se exilar durante a Ditadura Militar

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura

Batidas brutas na porta interrompem a aparente normalidade de um lar em Porto Alegre na década de 1970. Da cozinha, a mãe grita “Já vai!”, assustada. “Quando abriu, soube ainda sem saber que também abria a porta para que entrasse a desgraça do seu filho”.

Fernando é um jovem que, ao se envolver em movimentos contrários à ditadura militar brasileira, é levado para a prisão sem um mandato. Quando retorna para casa, amedrontado e desnorteado, seus companheiros decidem que a melhor decisão é que ele saia do país. Seu destino será o Uruguai. “A solidão do amanhã” é o novo romance de Henrique Schneider, lançado pela Dublinense.

Fernando é obrigado a deixar o próprio país, decisão que nunca imaginou precisar tomar. “Tenho só vinte e um anos, pensava, e estou sendo obrigado a sair do país do qual nunca quis sair. O seu país – um embrulho no estômago”. O exílio é sempre um caminho sem volta. Se retornamos, já não somos mais os mesmos. Assim como o lugar para o qual voltamos – do qual deixamos, pelo tempo da ausência, de pertencer.

Vivências históricas

O exílio foi o único caminho para militantes, políticos, artistas e intelectuais – apenas para citar aqui alguns – durante a ditadura militar no Brasil. Esse movimento é intensificado com o recrudescimento do regime. “Até 68, eram os figurões que precisavam se mandar. Deputados, professores, artistas. Depois de 68, tememos por qualquer borra-botas”.

Henrique Schneider se interessa pelo caminho, pela viagem. Não pelos momentos que precedem essa decisão extrema – sabemos o suficiente apenas para entender seus motivos. Tampouco pela vida depois, pelo exílio em si.

Medos e possibilidades

É sobretudo no trânsito entre dois países, no medo e nas possibilidades que se escondem sobre o desconhecido amanhã que a história se desenrola. Seguimos colados ao protagonista a bordo de uma Variant, pilotada por Jorge Augusto, pai de um amigo de infância. 

O autor constrói uma interessante dinâmica entre os dois personagens. Um jovem revolucionário e um homem de meia idade com um currículo ilibado. Jorge é funcionário da Secretaria da Fazenda. Na mesma medida em que corre um risco incalculável ao ajudar um inimigo do sistema vigente, talvez sua escolha como motorista dessa viagem definitiva seja a mais óbvia – e a mais segura. Quem poderia desconfiar? “Minha viagem é tranquila e vai se completar amanhã, se Deus quiser, quando eu chegar em casa e contar ao Cláudio que entreguei o amigo dele são e salvo, bem como combinado. Uma viagem com início, meio e fim. E mais não vou querer saber. Mas e a de Fernando? Como seguirá?”.

Capa “A solidão do amanhã. Credito: Editora Dublinense.

Um caleidoscópio de vozes narrativas dão forma ao texto de “A solidão do amanhã”. Além de um narrador, que observa de fora a ação decorrida, Fernando e Jorge compartilham conosco seus pensamentos. Além deles, outros personagens que orbitam a trajetória de Fernando narram alguns dos capítulos – a companheira de amor e de luta, os companheiros com quem irá cruzar na fronteira e dentro do país vizinho.

Relação com a cidade

Há, ainda, a voz da cidade, a voz de Porto Alegre dos anos setenta. Voz esta que repete por diversas vezes que, sob o aparente cotidiano e normalidade dos seus dias e de seus cidadãos, tudo está na “santa paz”. Mas nos revela, então, que existem duas cidades que convivem sob um mesmo espaço. “Mas há outra cidade, que os olhos comuns não vêem (…) uma cidade de porões e violência, de torturas clandestinas (…). Nesta cidade, que também vive em Porto Alegre e agora expulsa Fernando, não há santa paz”.

“A solidão do amanhãretoma temas que parecem inesgotáveis: a ditadura, a violência do regime, o exílio. Ainda mais quando percebemos o quanto este período segue como uma ferida mal cicatrizada – para não dizer aberta – em nossa história.

De leitura ágil, Henrique Schneider constrói um envolvente  “romance de estrada” – ou uma “road novel” – na qual compartilhamos os medos e anseios de um protagonista que carrega dentro de si ideais que deveriam ser inegociáveis para a juventude, como a justiça e a liberdade.

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 06/04/23

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