Literatura

A morte é meu ofício: clássico francês de Robert Merle, ganha edição brasileira pela primeira vez

Robert Merle Foto: Micheline PELLETIER

Obra A morte é meu ofício acerca da 2ª Guerra Mundial foi cercada de polêmicas na época do lançamento original 70 anos atrás

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura

Diretor de Auschwitz, o oficial SS Rudolf Höss arquitetou o assassinato em massa de mais de 5 milhões de judeus no campo de concentração polonês. É inspirado nele que Robert Merle desenvolveu Rudolf Lang, o protagonista de “A morte é meu ofício”. O romancista francês escreve, aqui, um romance brutal, a partir de depoimentos no tribunal de Nuremberg e dos prontuários do psicólogo que atendeu Höss na prisão. Publicado em 1952, o livro chegou ao Brasil apenas 70 anos depois de seu lançamento original, com tradução de Arnaldo Bloch, pela Editora Vestígio.

A voz do carrasco

Narrado em primeira pessoa por Rudolf, “A morte é meu ofício” é corajoso ao dar voz ao carrasco – e não às vítimas – poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, enfrentando críticos e historiadores na época do lançamento. Se há um claro gesto de humanização, afinal, acompanhamos de forma íntima o oficial SS, o que se destaca ao longo da leitura é uma observação profunda acerca da frieza e da extrema racionalidade do protagonista, terreno fértil onde a semente do nazismo desenvolveu raízes. “É difícil explicar. No início, eu experimentava uma sensação dolorosa. Depois, pouco a pouco, fui perdendo a sensibilidade. Eu não podia me permitir sentir emoções. Eu tinha ordens.”

Da infância ao julgamento em Nuremberg, Robert Merle é meticuloso na construção do Lang. O clima da casa quando criança era de medo, marcado pela falta de afeto, o distanciamento da mãe e o fundamentalismo religioso paterno. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, um jovem Rudolf tenta – até conseguir – entrar no front, apesar da pouca idade. Há nele um interesse pelas imagens da guerra, a fantasia com a violência e com a ideia de subjugar um inimigo. Com a derrota alemã, acompanhamos sua participação nos freikorps, grupos paramilitares que surgiram no país na esteira do fim da grande guerra. Eram homens inconformados com a derrota da Alemanha e com o retorno à vida civil, que buscavam vingança, entre outros, contra levantes comunistas no país e em territórios vizinhos. “Tinha a sensação de que as coisas eram bem reais, porque eu podia destruí-las”

Paralelos com o hoje e o Brasil

No retorno à vida civil, observamos um retrato cru de um país que observa sua economia em decadência, com uma massa de desempregados e a escassez de alimentos. “A catástrofe financeira que logo se abateu sobre nosso pobre país só acelerou o avanço prodigioso do Movimento“, nos diz o protagonista. E é exatamente isso que observamos: como a derrocada de um país se mostra um território oportuno para que uma mentalidade extremista rapidamente ocupe o poder e encontre eco na insatisfação dos cidadãos. Na tomada do poder alemão pelo nazismo, é assustador o paralelo com o hoje em muitos países, inclusive, o Brasil. Observe o negrito. “Estávamos agora seguros de jamais nos enganar de novo, de trilhar sempre o caminho certo, de servir inabalavelmente, nos bons e nos maus dias, ao eterno princípio: A Alemanha, a Alemanha acima de tudo”. 

Robert Merle Foto: Micheline PELLETIER
Robert Merle Foto: Micheline PELLETIER

A Alemanha, a Alemanha acima de tudo

Filiado ao partido, Rudolf segue em trajetória ascendente, ocupando cargos e posições de cada vez maior importância. E é nesse processo que o personagem se torna uma peça chave nos campos de concentração. Se, primeiro, ele recebe a proposta de administrar o campo de Dachau, anos depois, fica incumbido de um projeto maior: transformar um antigo aquartelamento de artilheiros poloneses em um novo campo. É Auschwitz. “Sentia-me cada vez mais imponente na tarefa de fazer frente à espantosa situação criada pela chegada quase diária dos trens. Tudo o que podia fazer era manter a ordem entre a massa de detentos de toda a origem que abarrotava o campo”.

Com a experiência na direção dos campos, tempos depois, o protagonista fica encarregado da condução da solução final, o extermínio em massa dos judeus, em Auschwitz. “O Fuhrer julga que se não exterminarmos os judeus agora, eles exterminarão, mais tarde, o povo alemão. Eis, portanto, como o problema é colocado: eles ou nos”. Esse é um dos pontos altos e mais dolorosos da narrativa de Robert Merle. O verdadeiro processo industrial de extermínio conduzido pelos alemães choca por seu funcionamento exemplar. Tudo é produtividade. A busca incessante em encontrar soluções eficientes para os sinistros objetivos do Reich. “Aproximei-me da porta e olhei através da vigia. Os prisioneiros estavam deitados, formando montes sobre o cimento. Seus rostos eram serenos e, salvo o fato de os olhos estarem arregalados, pareciam dormir. Consultei meu relógio. Eram três e dez.”

A banalidade do mal

É de uma brutalidade sem tamanho acompanhá-lo enquanto observa o funcionamento do sistema de extermínio em massa de outros seres humanos. O discurso é técnico, como se um empregado de uma indústria apenas estivesse apresentando um novo e evoluído equipamento, para que ele o replicasse no próprio local de trabalho. “O gás de escapamento – disse Schmolde – embrenha-se na sala pelo orifício situado ao lado da lâmpada central”. Enquanto isso, o odor, um “cheiro insípido e desagradável flutuava no ar”.

Leitura fundamental, “A morte é meu ofício” é tanto um importante registro histórico, quanto matéria para um paralelo com a contemporaneidade e os ares autoritários que a circulam. Numa visão crua e brutal, Robert Merle expõe o maquinário da ideologia nazista de maneira brilhante, identificando a diversas peças que tornaram possível o funcionamento dessa engrenagem devastadora. Muitos anos antes de Hannah Arendt cunhar o termo “banalidade do mal”, é justamente essa ideia que parece impregnar as páginas do romance de Merle e o que o torna tão assombroso.

Capa do livro A morte é meu ofício Credito Editora Vestigio
Capa do livro A morte é meu ofício Credito Editora Vestigio

Encontre “A morte é meu ofício” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Publicado em 14/03/23

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