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“A consulta”, de Katharina Volckmer, reflete sobre a culpa alemã (e robôs sexuais)

Katharina Volckmer, autora de A consulta - Foto: LIZ SEABROOK

Traduzido pela poeta Angélica Freitas, “A consulta” é um lançamento da Fósforo Editora e o primeiro romance da alemã Katharina Volckmer

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

A narradora de “A consulta”, primeiro romance da alemã Katharina Volckmer, se encontra em Londres, dentro de um consultório, em companhia de um tal Dr. Seligman. Ali, o homem realiza um procedimento médico misterioso. Enquanto isso, a mulher discorre sobre uma miríade de assuntos com seu interlocutor, do Holocausto e a culpa alemã aos papeis escravizantes dos robôs sexuais. Traduzido pela poeta Angélica Freitas, “A consulta” é um lançamento da Fósforo Editora.

De pernas para o ar enquanto o doutor a examina, de início, nada sabemos sobre os motivos que levaram a mulher até ali e para qual finalidade. “Minhas pernas estão começando a cansar, fazia muito tempo que elas não ficavam assim abertas para alguem, Dr. Seligman, mas acho que esta nossa nova amizade é especial em muitos sentidos, e nunca pensei que poderia conversar assim com uma pessoa que eu conhecesse”. No longo monólogo que, então, a paciente realiza – nunca ouvimos a voz narrativa do médico – pouco a pouco tentamos preencher as lacunas ao redor dessa misteriosa consulta, na medida em que ela nos relata episódios de seu passado, da infância até tempos recentes.

Mulher em desencontro

Estamos de frente a uma mulher em desencontro. Em desencontro com o país de origem – ela partiu da Alemanha para a Inglaterra -, com a família onde nasceu e com o próprio corpo. “Jamais consigo ver os corpos como eles realmente são. E aí incluo o meu, porque sempre me senti muito mal com ele, porque estava muito em desacordo com o mundo”. A personagem discorre, então, acerca de questões de gênero e sexualidade, calcadas em nas próprias experiências sexuais e de afeto, na busca por encontrar o seu lugar no mundo – um ambiente, ela nos diz, projetado em torno do corpo masculino.

Parte deste seu desacordo com o mundo também se dá em relação à história alemã no século XX. A mulher questiona incisivamente a maneira como o país natal seguiu em frente após a Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos judeus e o Holocausto. Cabe destacar aqui que o Dr. Seligman é um homem judeu, dando uma camada a mais de profundidade na leitura do discurso da narradora. “Jamais consegui entender completamente o que fizemos, Dr. Seligman, o que significa aniquilar uma civilização inteira. (…) Sempre tive a impressão de que havíamos nos aniquilado também”.

Narrativa que nos fisga pelo desconforto

Katharina Volckmer é uma autora que busca o desconforto no contato com o leitor. Sua narradora verborrágica – entre o confessional e o fluxo de consciência – não parece ter papas na língua para dizer aquilo que pensa e aquilo que sente. Isso inclui desejos reprimidos por Hitler ou uma fixação fálica, por exemplo. Se na superfície o toque em assuntos espinhosos pode causar incômodo, bastam poucas páginas para perceber que as águas turvas da mente da protagonista são marcadas por complexas contradições. Assim, juntos ao Dr. Seligman, nós, leitores, acabamos assumindo, também, os papéis de terapeutas nesta consulta. Mas não nos esqueçamos, o sigilo médico é um direito da paciente.

A consulta. Crédito: Editora Fósforo
A consulta. Crédito: Editora Fósforo

Encontre “A consulta” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 07/10/22

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Katharina Volckmer, autora de A consulta - Foto: LIZ SEABROOK
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