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Gastronomia

Minas e Portugal se encontram à mesa em Festim no Fartura Tiradentes

Felipe Rameh e Angélica Salvador constroem menu harmonizado em que ingredientes familiares ganham novas combinações e texturas

Pato na lata com cará, jabuticaba e pancs, segundo prato de Felipe Rameh. Foto: Carol Braga/Culturadoria

Os Festins do Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes partem de uma proposta simples: colocar dois chefs para construir juntos um jantar. No sábado, 22 de agosto, o encontro reuniu Felipe Rameh e Angélica Salvador em um menu harmonizado que aproximou Minas Gerais e Portugal. Em 2026, a curadoria do festival é assinada por Rusty Marcelini.

Rameh comanda o Tragaluz, em Tiradentes, e trabalha com referências da cozinha mineira. Angélica Salvador é brasileira radicada em Portugal e está à frente do In Diferente, no Porto, restaurante que recebeu uma estrela Michelin em 2026. A trajetória da chef, portanto, já estabelece uma conexão entre os dois países.

Essa proximidade cria uma questão interessante para o próprio Festim. Como provocar surpresa quando Minas e Portugal compartilham tantas referências à mesa?

A resposta encontrada pelos chefs durante o Festival de Gastronomia de Tiradentes esteve menos na busca por ingredientes desconhecidos e mais na maneira de trabalhar produtos familiares. Cremes, purês, caldos e molhos atravessaram o menu. As texturas mudavam de um prato para outro e deram unidade a uma sequência construída por mãos diferentes.

A harmonização, conduzida por Gustavo Giacchero, acompanhou esse trânsito. Vinhos de Minas Gerais e de Portugal se alternaram ao longo do jantar.

Milho, porco e o primeiro estranhamento

Felipe Rameh abriu o menu com porco, milho e pancs. O milho apareceu em um creme liso, quase como uma polenta, acompanhado pela carne e por uma linguiça que me remeteu à alheira portuguesa. A associação ajuda a perceber algo que atravessou o jantar: referências mineiras e portuguesas apareciam sem a necessidade de estabelecer uma fronteira entre elas.

A entrada foi harmonizada com o Alma Gerais Pet Nat, vinho produzido em Bom Sucesso, no Sul de Minas Gerais. Não filtrado e bastante diferente dos vinhos que costumo beber, foi o rótulo que me causou certo estranhamento durante o jantar. 

Portugal aparece de forma mais direta

Angélica Salvador assumiu o primeiro prato com cherne (peixe), mexilhão, batata-baroa e molho de caldeirada à portuguesa. Foi a referência mais explícita a Portugal até aquele momento.

O peixe e o mexilhão chegaram acompanhados por pequenas porções de baroa, delicadamente espalhadas pelo prato, e por um molho que ocupava parte importante do prato. A baroa devolvia à experiência um sabor bastante familiar à mesa mineira. Sem dizer que a montagem fazia parecer uma pintura. 

Na taça, Portugal chegou com o Torre de Lapela Alvarinho.

O prato talvez sintetize melhor a questão colocada pelo jantar. A caldeirada apontava diretamente para Portugal. A baroa acionava outra memória para quem está em Minas. Em vez de separar essas referências, Angélica colocou as duas no mesmo prato.

Cherne, mexilhão, batata-baroa e molho de caldeirada à portuguesa, prato de Angélica Salvador no Festim. Foto: Carol Braga/Culturadoria
Cherne, mexilhão, batata-baroa e molho de caldeirada à portuguesa, prato de Angélica Salvador no Festim. Foto: Carol Braga/Culturadoria

Ingredientes conhecidos, outras texturas

Felipe Rameh voltou no segundo prato com pato na lata, cará, jabuticaba e pancs, harmonizado com o mineiro Bárbara Eliodora Cuvée Syrah.

O cará apareceu transformado em creme. A jabuticaba entrou na composição com o pato e o molho. Foi sim o elemento surpresa. Em um primeiro momento parecia uva, e foi uma surpresa quando constatamos ser a jabuticaba. Mais uma vez, a experiência dependia menos de apresentar ingredientes desconhecidos do que de mudar a maneira como chegavam à boca.

A essa altura, uma característica do menu estava estabelecida. Milho, baroa e cará apareceram em diferentes preparações cremosas. Caldos e molhos acompanharam as proteínas. Produtos reconhecíveis ganhavam outras consistências e combinações.

Queijos e doces da fazenda foram servidos em pares, em uma sequência de sabores mais suaves aos mais intensos. Foto: Carol Braga/Culturadoria
Queijos e doces da fazenda foram servidos em pares, em uma sequência de sabores mais suaves aos mais intensos. Foto: Carol Braga/Culturadoria

Dos doces mineiros ao pastel de nata

Na pré-sobremesa, Felipe Rameh apresentou queijos e doces da fazenda em uma degustação orientada. O prato deveria ser percorrido de baixo para cima, com cada queijo associado a um doce específico.

A sequência começava com combinações mais suaves e aumentava gradativamente de intensidade. Na parte superior do prato estavam referências diretamente ligadas à mesa mineira, como a goiabada e o doce de leite, acompanhadas justamente pelos queijos de sabores mais marcantes.

Um deles remetia visualmente a um queijo azul. Outro também se afastava dos queijos mineiros mais reconhecíveis à primeira vista. A combinação criava um movimento interessante: produtos imediatamente associados à tradição doceira de Minas encontravam queijos menos óbvios, ampliando o contraste à medida que a degustação avançava.

Mais do que uma seleção de queijos e doces, portanto, a pré-sobremesa tinha uma lógica própria. Era preciso seguir uma ordem para perceber a mudança de intensidade proposta por Rameh.

Angélica Salvador encerrou o jantar partindo de uma referência portuguesa imediatamente reconhecível: o pastel de nata.

A sobremesa reuniu pastel de nata, creme de limão e café e gelato de canela. Novamente, o caminho não foi simplesmente servir um preparo tradicional. A referência permaneceu identificável, mas foi reorganizada por sabores, temperaturas e texturas.

Portugal voltou também à taça, com o Horácio Simões Moscatel de Setúbal.

Reconhecimentos

Ao final das cinco etapas, pratos e vinhos haviam feito sucessivos movimentos entre Minas e Portugal. O encontro entre Felipe Rameh e Angélica Salvador funcionou justamente porque não tentou transformar essas duas cozinhas em universos separados.

Talvez esse fosse o maior desafio do Festim no Festival de Gastronomia de Tiradentes. Quando referências portuguesas já fazem parte da formação da cozinha que reconhecemos em Minas, aproximar os dois territórios não basta para produzir novidade.

Rameh e Angélica encontraram a surpresa principalmente na forma. Mudaram texturas, reorganizaram ingredientes familiares e construíram combinações que permitiam reconhecer sabores sem necessariamente encontrá-los como estamos acostumados.

Serviço

29º Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes
Data: 21 a 30 de agosto de 2026

Espaços gratuitos

Praça Santíssimo
Praça da Rodoviária
Largo das Forras

Festins

Datas: 21, 22, 28 e 29 de agosto de 2026
Ingressos: abertura das vendas em breve.

Sunset Fartura na Vinícola Trindade

Datas: 22 e 29 de agosto de 2026
Ingressos: Wine Locals

Casa Localiza

Rua Direita, 159 – Tiradentes/MG
Funcionamento:
Sexta-feira: 17h às 22h
Sábado: 12h às 22h
Domingo: 10h às 15h

Mais informações no Fartura Brasil e no Instagram @farturabrasil

Carol Braga viajou a convite do Festival.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 23/08/26

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