Vale assistir? “Amores Materialistas” é o novo soco suave de Celine Song
No segundo longa da carreira, Celine Song, diretora de Vidas Passadas transforma a comédia romântica em um ensaio contemporâneo sobre amor, status e conexões mercantis
Amores materialistas. Foto: A24 Sony Pictures/Divulgação
Já não existem mais comédias românticas como antigamente. Amores Materialistas até pode parecer uma, mas, na verdade, a nova obra de Celine Song (Vidas Passadas) faz exatamente o contrário: ela desconstrói o gênero a partir de dentro. Usa as convenções como cenário para um comentário mais amplo sobre amor, aparência, status, afeto e o que realmente nos move na hora de escolher alguém.
Em comum com o primeiro longa, Song mantém a mesma ideia central: o amor como uma conexão invisível entre duas pessoas. Algo que existe apesar das circunstâncias. Algo que, muitas vezes, nem quem sente consegue explicar. Em Vidas Passadas (2023), essa conexão era atravessada pelo tempo e pela distância. Já em Amores Materialistas, é o presente que impõe os obstáculos, com todas as suas exigências materiais, profissionais e estéticas. Ainda assim, em ambos, o elo inexplicável é o que sustenta o drama.
Lucy (Dakota Johnson) é uma casamenteira profissional em Nova York. Trabalha numa agência que busca unir pessoas com base em filtros objetivos: altura, cor, peso e renda. É um método pragmático, quase algorítmico, que transforma o afeto em estatística. A própria protagonista adere a essa lógica: deseja um parceiro rico e diz isso com naturalidade. É nesse contexto que ela se vê envolvida em um triângulo amoroso com John (Chris Evans), seu ex-namorado, sem estabilidade financeira, mas afetivo e espontâneo, e Harry (Pedro Pascal), um empresário rico, misterioso, e emocionalmente distante. Entre um e outro, surgem as perguntas: o que conta mais? O que se sente ou o que se possui?
Crise, espelho e crítica social
Nem só de romance se faz esse roteiro. Um dos momentos mais fortes do filme envolve um encontro promovido por Lucy entre dois clientes. O desfecho dessa situação gera consequências inesperadas, que colocam em xeque os próprios fundamentos da profissão que ela exerce. A partir dali, o filme mergulha em uma dimensão mais ética e social, refletindo sobre a responsabilidade de intermediar relações num mundo onde pessoas muitas vezes são tratadas como mercadoria.
É também nesse momento que o filme se afasta ainda mais da comédia romântica tradicional e assume um tom mais grave. Mas sem perder o equilíbrio narrativo. Sendo assim, o que antes era apenas um embate entre afeto e estabilidade, passa a incluir perguntas sobre limites, consentimento e estruturas que perpetuam violência de forma silenciosa e socialmente aceita.
Outro ponto de virada está na história de Harry. Em determinado momento, uma revelação pessoal do personagem transforma completamente a forma como o vemos. Trata-se de uma decisão extrema, tanto física quanto simbólica, que ele toma para atender às expectativas do mundo que o cerca. A motivação vai além da estética: envolve a busca por aceitação em ambientes competitivos, como o mercado de trabalho. É um detalhe que amplia o escopo da crítica do filme, mostrando como o materialismo afeta não só os relacionamentos, mas a própria identidade.
Estética, elenco e coerência autoral
Visualmente, o filme segue um caminho elegante. A fotografia aposta em tons outonais — alaranjados, ocres, suaves — que constroem um clima de transição. O tempo parece suspenso, o que ajuda a enfatizar as pausas, os silêncios e as hesitações dos personagens. A direção é contida, mas não fria. A melancolia está presente, mas nunca é sufocante.
O elenco central está em perfeita sintonia. Dakota Johnson entrega uma Lucy contraditória, ao mesmo tempo racional e ferida, segura e vulnerável. Chris Evans, no papel de John, assume uma leveza quase infantil, com timing cômico eficiente. Já Pedro Pascal oferece uma contenção precisa, fazendo de Harry um homem difícil de decifrar — quase como um símbolo do próprio mundo materialista que o filme deseja criticar. O trio está em equilíbrio, sem sobras nem disputas.
Ao final, o longa se revela um filme coerente com a visão de mundo que Celine Song vem construindo. Ela acredita no amor como algo que não se encaixa nas fórmulas. Algo que não pode ser justificado por lógica, nem vencido pelo tempo. Com Amores Materialistas, a diretora amplia essa ideia, colocando-a frente a frente com os códigos do nosso tempo. Ao invés de repetir Vidas Passadas, ela escolhe confrontá-lo — e, com isso, aprofunda seu pensamento autoral.
No fim, o que se mede?
Amores Materialistas é um filme sobre escolhas. Sobre como colocamos o amor, o desejo e até nossos corpos à disposição de um sistema de valoração. Mais do que uma comédia romântica, é um espelho contemporâneo que nos obriga a perguntar: o que de fato estamos medindo quando buscamos alguém? Altura, saldo bancário, status profissional? Ou a força inexplicável de um elo que ninguém, nem mesmo quem sente, consegue explicar?
Diretora Celine Song no set de Amores materialistas. Foto: A24 Sony Pictures/Divulgação
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