Literatura
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Romance do francês Han Ryner, “A menina que não fui” é publicado pela primeira vez no país. Em edição caprichada, inaugura o catálogo da editora Ercolano
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Um jovem se vê atormentado, desde a infância, pela atração pelo sexo masculino. Numa sociedade que vê a homossexualidade como patologia, o fardo de François de Taulane se torna ainda mais pesado ao se confrontar também com um desencontro em relação ao próprio gênero e à própria identidade. Órfão de pai e mãe, a criança passa um curto período sob os cuidados dos tios, até a mudança para um internato religioso, o Saint Louis de Gonzague. Assim, uma série de experiências, que caminham numa fina corda bamba entre o desejo e o prazer, a dor e o trauma, levam o personagem, agora adulto, a uma decisão limítrofe, já anunciada nas primeiras páginas do romance: “Agora há pouco, encostei a boca que cuspirá chumbo sobre minha têmpora. Apalpei e tateei. Escolhi o local. Conheço o lugar onde, dentro de alguns meses, apoiarei esse cano frio para morrer”.
Precursor da literatura LGBTQIAP+
Publicado originalmente em 1903, “La Fille Manquée”, romance do francês Han Ryner, é precursor da literatura LGBTQIAP+. Este clássico obscuro nunca fora lançado no Brasil. Até então. 120 anos depois, essa falta é corrigida pela editora Ercolano, que o publica sob o título “A menina que não fui”. Com tradução do pesquisador Régis Mikail, o livro conta com prefácio do escritor João Silvério Trevisan, bem como um aprofundado posfácio do tradutor, além de um caderno de imagens.
Em tom confessional, por meio de cartas e páginas de diários, “A menina que não fui” acompanha de maneira muito próxima seu protagonista. Os conflitos internos dos personagem vão ao encontro de uma sociedade também povoada por inúmeros conflitos, onde a hipocrisia marcante da moral e da religiosidade dita os costumes socialmente aceitáveis. No internato, no entanto, o jovem Taulane conhece o desejo, as possibilidades do prazer, a humilhação, a dor e a emancipação.

Descoberta
O personagem se vê, assim, mergulhado num turbilhão de sentimentos e experiências que o acompanham até o início de sua vida adulta. Nos encontros furtivos com outros “iguais” – garotos internos como ele – François passa por um intenso processo de iniciação e descoberta da própria sexualidade. Se na infância no colégio interno apelidos como “Mulherzinha” ou “A menina falhada” (a “La Fille Manquée” do título original) eram usados como forma de menosprezo e xingamento, o personagem opera uma subversão, transformando-as e tornando-se, enfim, a “Rainha Françoise”. “Era porque minha formosura era célere no internato; porque todos pareciam me desejar; porque as paredes de Saint Louis de Gonzague estavam cobertas de declarações para ‘senhorita Françoise’ e para a ‘mulherzinha'”.
Han Ryner constrói um romance corajoso, por vezes visceral, na construção deste personagem que parece nunca se encontrar, abordando e adiantando temas que seguem urgentes na contemporaneidade, sobretudo a respeito da infância queer e da transição de gênero – ainda que não lide com um personagem que se identifique como transsexual. Assim, “A menina que não fui” é um livro sobre o desejo e a identidade. Sobre a busca incessante por estes dois termos na figura de um protagonista dolorosamente complexo. Um ser em constante (des)construção.
Encontre “A menina que não fui” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel
Publicado por Gabriel Pinheiro
Publicado em 16/06/23






