Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Verônica Ferriani canta a maternidade (e outras questões ligadas às mulheres) em disco

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“Cochicho no Silêncio Vira Barulho, Irmã”, disco duplo de Verônica Ferriani, já pode ser acessado nas plataformas digitais

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Foi durante a gravidez da segunda filha, Liz, que a cantora Verônica Ferriani começou a consolidar a ideia de lançar um álbum duplo que versasse sobre um universo bem particular: a maternidade e todas as suas implicações (inclusive as de ordem prática) na vida de uma mulher. Até ali, ressalve-se, ela já era mãe de Cleo, hoje com quatro anos. Assim, ao inscrever o projeto em um edital (o ProAC SP, onde ele acabou sendo selecionado), começou a, paralelamente, revisar canções mais antigas da própria lavra. “Assim, percebi como já vinha há tempos buscando lugares de fala femininos – na verdade, desde que comecei a compor. Ao mesmo tempo, entendi que raramente estava acompanhada de outras mulheres para dar voz às narrativas que escrevia”.

Verônica Ferriani: disco duplo aborda temas ligados ao universo feminino - entre eles, a maternidade (Thaís Taverna/Divulgação)
Verônica Ferriani: disco duplo aborda temas ligados ao universo feminino - entre eles, a maternidade (Thaís Taverna/Divulgação)

E, assim, naquele momento, veio a percepção de uma sistemática contraditória. De pronto, Verônica quis revisar o título do samba que havia composto. Assim, partiu para trocar o vocativo masculino de “irmão” para o feminino “irmã”. Desse modo, a música virou “Cochicho no Silêncio Vira Barulho, Irmã”. E, assim, lembra ela, formatava-se ainda mais a ideia de falar, de forma bem clara, em um mesmo trabalho, sobre várias questões associadas a narrativas femininas. O resultado já está nas plataformas de música.

“Cochicho no Silêncio Vira Barulho, Irmã” é o quarto disco solo da artista, que, até então, já havia lançado: “Verônica Ferriani” (2009), “Porque a boca fala aquilo do que o coração está cheio” (2013) e “Aquário” (2018). E, vale dizer, é o primeiro disco duplo de carreira. O álbum é dividido em duas partes: “Cochicho no Silêncio” e “Vira Barulho, Irmã”.

Estereótipos e lacunas

Do mesmo modo como já se enveredava sobre os lugares de fala femininos, Verônica Ferriani também já tinha a percepção da existência dos estereótipos que pairam sobre a mulher e a figura da mãe no cancioneiro brasileiro. Tal qual, das lacunas quanto a este recorte. “A maioria das canções sobre mães invariavelmente são homenagens que evocam papéis de cuidado. Ou seja, pouquíssimo se fala sobre o dia a dia atarefado, a sobrecarga feminina com a casa e filhos e o casamento com filhos. Tal qual, a falta de liberdade e dificuldade em voltar a trabalhar, entre outras questões recorrentes”.

A capa do disco de Verônica Ferriani, assinada por Manuela Eichner
A capa do disco de Verônica Ferriani, assinada por Manuela Eichner

Ao Culturadoria, a cantora exemplifica que, neste exatíssimo momento, certamente há milhões de mulheres mundo afora enfrentando tais questões. “E não há representação disso na música. Isso me moveu a compor sobre diversos aspectos do tema e, quando vi, estava com muitas canções em mãos, gerando, assim, a possibilidade de um disco duplo”.

Um outro gatilho

Para além dos aspectos já citados, também contribuiu para que a artista seguisse em frente no projeto o adoecimento da própria mãe – cujo quadro, na verdade, lamenta Verônica, segue progredindo e sem diagnóstico. “Isso me fez pensar muito em como ela construiu a própria história e de que forma também teve a liberdade cerceada por ser mulher. A possibilidade de ela ter uma doença autoimune foi também um gatilho para que eu quisesse escrever sobre esses temas. E, assim, trocar com outras pessoas sobre o impacto da divisão de tarefas por gênero (no cotidiano)”.

Verônica compartilha que, infelizmente, a mãe tem apresentado também um quadro degenerativo mental. No entanto, mesmo assim, ainda se cobra sobre o que são considerados deveres ou funções femininas. “Essa memória viva e o peso das obrigações me impressiona. De fato, precisamos falar sobre esta divisão histórica de tarefas que limita o crescimento individual, coletivo e profissional”, pontua.

Repertório do disco

Das 20 canções do álbum, 17 são inéditas, todas essas assinadas pela própria artista. “A canção de trabalho (“Acorda, Mamãe”) ganhou um significado subjetivo muito particular no disco”, avisa Verônica Ferriani. Sendo assim, o trecho “Acorda, mamãe, vem ver a pancada do pilão bater”, da música, fala do baque da maternidade, bem como do enfrentamento dos tabus, entre outros significados. A faixa traz a participação de Flávia Maia e Mairah Rocha,

Já “La Mer” é uma canção de Anais Sylla que, segundo Verônica, resume bem o disco: “Mãe deveria ser o mar, la mer. A voz da mãe, la mer”. E tem, ainda, uma fala improvisada de Flaira Ferro chamada “Peitos Caídos”, que fala do orgulho da mãe que alimenta o filho pela amamentação, “enquanto menciona as mudanças ocorridas em nosso corpo a partir da maternidade”.

BH na mira?

Em tempo: perguntada sobre a possibilidade de se apresentar com este repertório na capital mineira. “Adoraria voltar a BH com o show deste disco, pois o público mineiro é sempre muito caloroso. Espero que a gente possa passar aí em breve!”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista

Invisibilidade maternal

Verônica Ferriani revela que só depois de ter vivido a maternidade foi de fato entender o quanto maternar é um processo trabalhoso e solitário. “Nesse sentido, o quanto essa alta demanda mental e física nos tira do eixo – e em vários aspectos. Isso, além do esforço não ter um reconhecimento da sociedade, que segue nos cobrando, ao mesmo tempo, a abnegação, a retaguarda principal, mas também o autocuidado, o sucesso na carreira… Tal qual, a contribuição financeira efetiva, a atuação em questões coletivas. Na verdade, nós mesmas fomos educadas a nos cobrarmos isso”.

Acima, outra foto de Verônica Ferriani assinada por Thaís Taverna (Divulgação).

Sendo assim, como ela própria reflete, a conta simplesmente não fecha. “O que, por sua vez, gera uma frustração contra a qual falas como as do meu disco vêm questionar”.

Romantização

Ferriani analisa que, por existir um amor enorme envolvido nesta realização (mãe e filho), a romantização da maternidade ainda aprisiona a mulher em um modelo que dificulta não somente a atuação com liberdade, mas o próprio questionamento deste (modelo). “Ou seja, a enorme expectativa sobre a relação da mulher com os filhos segue nos colocando na retaguarda de toda uma estrutura de trabalho da sociedade. Isso é grande! Mexe com todas as estruturas do capitalismo e da sociedade”.

Todavia, ela, sequenciando o próprio raciocínio, entende que o medo de este amor maternal ser questionado mediante uma análise mais minuciosa sobre o sistema – bem como sobre a divisão de papéis entre gêneros – ainda amedronta a maioria das mulheres. “Assim, mantendo tabus que impõem barreiras à nossa felicidade e a um equilíbrio maior entre gêneros”. Trocando em miúdos: “É preciso que a gente se conscientize e se reorganize nas tarefas. Em um mundo cada vez mais individualista – no meu caso, devo acrescentar também que me tornei mãe já ‘mais velha’ -, acho natural que estas questões estejam vindo à tona com mais frequência”.

Processo criativo

Perguntada se as músicas foram surgindo em cadeia na sua cabeça – assim, meio como uma avalanche -, Verônica situa: “Na verdade, o meu processo de composição é intermitente”. Assim, prossegue, ela pode passar meses sem compor nada. “E como sou ligada a temáticas desde o meu primeiro álbum autoral, quando começo a compor, geralmente muitas ideias surgem ao mesmo tempo”. Desta vez, o desafio foi seguir compondo, mas, por motivos externos (a demanda das filhas), e não internos, de forma regularmente interrompida.

Não só. Muitas vezes tendo outras atividades em andamento simultâneo, como jantar, tomar banho, colocar o bebê para dormir, bem como dirigir. “Só duas das músicas do disco eu realmente consegui parar para compor. Foi no meu primeiro dia ‘sem filhas na vida’ (brinca), que foi quando a mais nova fez um ano. No geral, o processo de composição foi concomitante entre viver e escrever sobre o que eu estava vivendo, o que trocava com as amigas sobre o assunto, o que lia nos grupos de mães no WhatsApp, enfim”.

Faixas

A música “Amor que Fica”, por exemplo, é uma canção de ninar que nasceu para a filha mais nova de Verônica, e que ganhou letra dedicada à mãe da cantora. “Que foi a pessoa que me deu toda a base, através do amor dela, para que eu possa exercer a minha maternidade”. E, ainda, à família em geral, que, afiança a artista, tem sido a maior rede de apoio dela. “Sem deixar também de ser o meu assunto mais frequente no divã”, confessa. A canção tem a participação especial de Monica Salmaso.

Mais uma foto da cantora e compositora Ferriani, por Thaís Taverna (Divulgação)
Mais uma foto da cantora e compositora Ferriani, por Thaís Taverna (Divulgação)

Já “Cochicho no Silêncio Vira Barulho, Irmã” abre o disco. “Bem como a conversa toda sobre o feminino resignado que se levanta à sororidade e ao questionamento do sistema. Áurea Martins, minha antiga parceira de noites cariocas, divide comigo este samba”, contextualiza. “Sem Regras”, por seu turno, questiona a meritocracia com um arranjo que mixa um quarteto de cordas e percussão corporal, com participação da cantora baiana Assucena.

Mais participações

Outra faixa que apareceu na conversa com o Culturadoria foi “Te Querendo”, que narra (brevemente) uma história sobre um casal em dois momentos distintos: antes e depois dos filhos. “Era só boiar, mas a gente caiu foi na real”, diz a letra.

Além das participações já citadas, tem as de Alessandra Leão, em “Não me Contento”; Giana Viscardi, em “Permitir-se”; e Lurdes da Luz, em “Passada de Pano”.

Retorno

Perguntada sobre a repercussão que o trabalho vem atingindo junto ao público que a acompanha – bem como aos novos ouvintes -, Verônica entende que o disco tem, sim, causado impacto por, como já assinalado, abrir espaço a uma narrativa pouco usual no cancioneiro brasileiros. “Ou seja, trata de temas altamente cotidianos e impactantes, mas que, entendo, pouco aparecem sendo tratados, ao menos de forma tão realista e destemida. Algumas matérias muito legais me deram um retorno sobre o disco, bem como a escuta de artistas consagrados. Estou feliz!”, comemora ela, com justa razão.

Time feminino

No disco, Verônica assumiu o violão e a percussão. No acompanhamento, ela convidou várias instrumentistas. Por ordem alfabética: Alana Ananias (bateria e overdub), Aline Falcão (teclados e guitarra), Dani Virgulino (zabumba e triângulo) e Duo Siqueira Lima (violões). E, ainda, Elodie Bouny (violão), Estefane Santos (trompete e flügelhorn), Jennifer Cardoso (viola) e Joana Queiroz (clarone).

Também deram o ar da graça: Letícia Andrade (segundo violino), Lívia Mattos (sanfona), Maiara Moraes (flauta transversal), Mayara Alencar (cello), Nanda Guedes (sanfona), Nilze Carvalho (bandolim) e Samara Líbano (viola de sete cordas), bem como Suelem Sampaio (harpa sinfônica). Não menos importantes, Thais Nicodemo (teclados), Vanessa Ferreira (baixos acústico e elétrico), Victória dos Santos (percussão) e Vivian Kuczinsky (guitarra), bem como Wanessa Dourado (primeiro violino).

Serviço

Plataformas digitais: Link

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