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Valter Hugo Mãe coloca Brasil em primeiro plano em novo romance

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Valter Hugo Mãe lança em Belo Horizonte, no projeto Sempre um Papo, o livro As doenças do Brasil

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

O escritor português Valter Hugo Mãe está em terras brasileiras para o lançamento de seu mais recente romance, “As doenças do Brasil”, lançado pela Biblioteca Azul. Conhecido pela prosa profundamente poética, pelo olhar inventivo e sensível dos personagens, Valter tem um público cativo e dedicado no país. O escritor desembarca em Belo Horizonte na próxima semana, no dia 18 de julho, para uma conversa com Afonso Borges no Sempre um Papo. 

Valter Hugo Mãe conversou com o Culturadoria acerca de sua literatura, seu trabalho nas artes plásticas, seu livro mais recente e, inevitavelmente, sobre as dores e as doenças do Brasil hoje.

Encontramos em seus romances mais recentes (A desumanização, Homens imprudentemente poéticos e As doenças do Brasil) um ponto em comum: todas as narrativas acontecem em terras estrangeiras – Islândia, Japão e Brasil. Estes romances foram escritos ou foram iniciados em seus respectivos países? Como se deu este processo de pesquisa de culturas e geografias tão distintas?

Julgo que começaram por ser modos de boicotar meus vícios, obrigando a disciplinar o gesto de escrever para que não seja fácil ou óbvio. Usar lugares e modos distintos de ver o mundo obriga a uma atenção redobrada para não reincidir naquilo que sei, naquilo que me é natural. Depois, quis escrever uma tetralogia sobre ilhas, concretas ou imaginárias, como as dos Abaeté. Funciono muito por ciclos e não consigo deixar de querer completar cada coisa ao longo da graça da vida.

Começo os livros de todas as maneiras. A mais frequente passa por anotar pequenas ideias e pequenas frases em cadernos que vou guardando e jogando fora para não me limitarem. Antes ou depois da viagem para algum dos lugares sobre que quero ponderar eu vou coleccionando expressões, títulos possíveis, instantes para a trama. Guardo e, as mais das vezes, esqueço.

Apesar da forte marca poética da sua prosa, no Brasil ainda conhecemos pouco de sua poesia, que não foi lançada por aqui. Em Portugal ela foi reunida no belo “Publicação da mortalidade”. Você escreve versos atualmente? Como olha para a sua produção poética?

Tenho algum desconforto com a poesia agora. Ela fazia muita falta na minha disciplina quando não escrevia romances. Estou convencido de que passei a oferecer tudo aos romances, por isso são poéticos. Ofereço-lhes tudo. Creio que o Brasil conhece o melhor do que escrevo. Mas haverei de liberar os direitos dos poemas para alguma edição aqui em breve. Tenho de pensar nisso com seriedade e empenho.

Outra faceta sua que se destaca cada vez mais é o seu trabalho nas artes plásticas, não é mesmo? Acompanho sua produção pelas redes sociais e sinto que você foi se desenvolvendo muito neste campo, ampliando seus projetos, realizando exposições e assinando também as ilustrações de seus livros, como “O paraíso são os outros” e “Serei sempre o teu abrigo”. Como se deu essa sua entrada nas artes plásticas e como ela se relaciona e dialoga com sua produção textual?

Apenas fui perdendo a vergonha. Faço uns bonecos aflitos há muitos anos. Quando era menino todos diziam que eu cresceria para ser pintor. E eu pensava que os pintores seriam bem felizes. Mas eu passava bem mais tempo, em segredo, escrevendo.

Sou muito amigo de um monte de artistas plásticos e tenho muito pudor em mostrar aquilo que desenho, contudo, faço-o enquanto oficina de escrita. Eu desenho para buscar textos. Desenho porque quero meditar acerca do que ronda meus livros. Assim, tenho a impressão de convidar os leitores a uma intimidade muito especial quando admito algumas imagens. Elas são de verdade fundamentais para minha higiene de escrita, para accionar minha imaginação.

Como você se sente em relação ao Brasil neste últimos 4 anos? Sei que você tem uma relação muito estreita com nosso país, suas visitas são sempre muito celebradas. Imagino que você tenha sentido as turbulências políticas vividas por aqui nestes últimos anos, a relação governamental com o setor cultural… “As doenças do Brasil” diz da “fera branca” que quase exterminou os povos originários do Brasil. Este processo está em pleno vapor, parece ter se acelerado, no momento atual.

Bem, eu penso mesmo que este Governo é uma desgraça abatida sobre o Brasil. E não é preciso buscar mais do que a simples promoção da violência, a incitação ao uso de armas pela comunidade civil, o racismo, a misoginia, a homofobia. Enfim. É tão vasto o leque de agressões e intenção de exclusão que não poderia jamais compactuar com algo assim. A comunidade internacional vive incrédula com a capacidade que este Governo tem tido de descurar e ofender seu próprio povo, mais ainda ameaçando as mais elementares estruturas da democracia. Hoje, o Brasil é um tumulto nos mais simples princípios éticos. É como se fosse necessário voltar a aprender o traço humano que até criança entende: não violentar ninguém, não ofender, não roubar, jamais matar.

Sempre Um Papo com Valter Hugo Mãe 

Segunda-feira, às 19h, no Grande Teatro do Palácio das Artes 

Entrada gratuita 

Sobre “As doenças do Brasil”

Valter Hugo Mãe retorna ao romance após cinco anos e traz uma obra que se passa em solo brasileiro. Com artes de Denilson Baniwa e prefácio de Conceição Evaristo, o livro é uma verdadeira homenagem às pessoas dessa terra. Ou seja, os que aqui já estavam e os que vieram forçados; ambos fogem da fúria que extermina todos aqueles que não consegue escravizar. Ao contrário dos registros históricos sobre a colonização, o livro de Valter Hugo Mãe coloca a pessoa indígena no centro da narrativa, ao contar sob sua ótica percepções sobre a invasão e o genocídio promovido pelo europeu. Para isso, cria uma linguagem, um povo e toda uma visão de mundo com personagens e cenários inesquecíveis, em um romance exuberante e carregado de densidade lírica.

Encontre “As doenças do Brasil” aqui:

Capa livro Valter Hugo Mae As doencas do Brasil Biblioteca Azul
Capa livro Valter Hugo Mae As doenças do Brasil Biblioteca Azul


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel

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