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Por que Valor Sentimental é um filme sublime?

O novo filme de Joachim Trier transforma memória, espaço e relações familiares em uma experiência cinematográfica precisa e duradoura

Valor Sentimental | Foto: Kasper Tuxen/Divulgação

Responder por que Valor Sentimental é um filme sublime exige observar menos os acontecimentos e mais a forma como eles se organizam. Joachim Trier constrói um drama familiar em que nada funciona de maneira isolada. Cada escolha narrativa, espacial e emocional responde à mesma pergunta: como o passado continua operando quando as pessoas tentam seguir adiante?

A seguir, alguns pontos que ajudam a entender a força do filme.

1. Um filme que se impõe antes mesmo da análise

Valor Sentimental (Sentimental Value / Affeksjonsverdi, 2025) venceu o Grand Prix do Festival de Cannes, recebeu oito indicações ao Globo de Ouro e venceu na categoria melhor ator coadjuvante, foi o indicado da Noruega ao Oscar e se firmou como um dos títulos mais comentados do cinema internacional recente, ao lado de produções como O Agente Secreto.

Ou seja, esse reconhecimento não vem apenas do impacto emocional, mas da consistência formal do filme.

2. Uma história construída a partir das relações

O filme acompanha as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que precisam lidar com o retorno do pai ausente, Gustav (Stellan Skarsgård), um cineasta em decadência tentando retomar a carreira.

O conflito se agrava quando Gustav convida Nora para protagonizar seu novo filme. Assim, após a recusa, ele escala uma jovem atriz americana, Rachel Kemp (Elle Fanning), para interpretar uma versão ficcional da própria filha. A partir daí, o cinema deixa de ser apenas profissão e passa a interferir diretamente nas relações familiares.

3. A casa como ponto de partida

Valor Sentimental começa, então, com uma redação escolar sobre a casa da família. Esse gesto inicial organiza todo o filme. A casa funciona como testemunha silenciosa da história: ela se enche e se esvazia ao longo dos anos, guarda memórias, silêncios e tensões não resolvidas. Ao transformar o espaço em elemento narrativo, Trier desloca o foco da ação para a permanência.

4. O abandono como experiência prolongada

O filme não trata o abandono parental como um evento pontual. O retorno do pai não corrige o passado. O que Valor Sentimental mostra é como o abandono se acumula, moldando escolhas, afetos e formas de se relacionar. O conflito não está apenas no reencontro, mas naquilo que nunca foi elaborado.

5. A arte como tentativa de aproximação — e controle

Assim, Gustav tenta reconstruir laços por meio do cinema. Ao transformar a própria filha em personagem, ele confunde criação com reparação. Dessa maneira, quando essa tentativa falha e ele substitui Nora por outra atriz, o gesto revela o limite da arte como mediação emocional. Ou seja, o filme expõe como a criação pode tanto elaborar quanto repetir uma ferida.

6. Atuações que sustentam o silêncio

As atuações organizam o drama sem recorrer ao excesso. Renate Reinsve, por exemplo, constrói Nora a partir da contenção e da distância emocional. Já Stellan Skarsgård compõe um pai capaz de afeto e irresponsabilidade no mesmo gesto. E, por fim, Inga Ibsdotter Lilleaas, como Agnes, ocupa o lugar de quem tenta manter a ideia de família viva, mesmo quando ela já está fragilizada.

O conflito entre as irmãs nasce das diferentes estratégias de sobrevivência diante do mesmo passado.

7. Quando forma e conteúdo caminham juntos

Nada em Valor Sentimental parece deslocado.

A direção de arte, os enquadramentos e o ritmo das cenas trabalham como extensão da narrativa. Objetos, paredes e vazios acumulam tempo. O espaço carrega o que as personagens não conseguem dizer.

Essa organização cria a sensação de que tudo está no lugar certo — não por perfeição estética, mas por coerência interna.

8. O que faz de Valor Sentimental um filme sublime

Valor Sentimental não busca soluções fáceis nem resoluções espetaculares. Ou seja, a força está na precisão com que articula memória, espaço, relações e silêncio. É um filme sobre o que permanece, sobre aquilo que continua habitando os lugares e as pessoas, mesmo quando a vida avança.

Ao final, fica a impressão rara de um cinema que entende que emoção não nasce do excesso, mas da organização cuidadosa do que realmente importa.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 17/01/26

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