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FIQ: Três quadrinhos para você procurar no evento

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O FIQ é a oportunidade perfeita para descobrir novas obras e artistas e conhecer pessoalmente aquele seu quadrinista favorito em bate-papos, palestras e, claro, sessões de autógrafos.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Começou o FIQFestival Internacional dos Quadrinhos de Belo Horizonte, um dos principais eventos dedicados à nona arte no país. O FIQ é a oportunidade perfeita para descobrir novas obras e artistas e conhecer pessoalmente aquele seu quadrinista favorito em bate-papos, palestras e, claro, sessões de autógrafos. Separamos aqui três belos lançamentos da Editora Nemo para você garimpar no evento. Um dos artistas, inclusive, está participando desta edição. É uma oportunidade única de conhecê-lo e ter o seu exemplar autografado.


Suzette: ou o grande amor, de Fabien Toulmé

Suzette, uma senhora de 80 anos, acaba de ficar viúva, após um casamento de mais de meio século com Bernard. Sozinha em casa, a mulher conta com as visitas e a companhia de sua neta, Noémie. É para ela que a personagem revela que não foi tão feliz no casamento e que guarda dentro de si a lembrança de um primeiro amor. “Suzette: ou o grande amor” é o mais recente quadrinho do francês Fabien Toulmé e tem tradução de Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe.

O amor da juventude de Suzette foi Francesco, um italiano de família nobre, para a qual a jovem Suzette trabalhou como babá. Surpresa com este passado desconhecido de sua avó, Noémi passa a fabular o reencontro da mulher com Francesco, mesmo não sabendo se ele ainda é vivo ou não. Ela, então, sugere uma busca, a partir das poucas pistas guardadas na memória da matriarca. Aqui, o quadrinho toma ares de “road novel”, quando, juntas, avó e neta, partem numa viagem pela estrada, em direção à costa italiana, em busca deste misterioso personagem.

Relações

Fabien Toulmé cria no quadrinho uma dinâmica muito interessante entre avô e neta. Enquanto uma acaba de perder o marido, a outra está dando início à vida a dois com seu namorado. Se há conflitos geracionais, é na base do diálogo que as duas mulheres vão pouco a pouco conhecendo os mundos nos quais cada uma nasceu e se desenvolveu. É bonita a cumplicidade entre as mulheres ao falarem sobre o amor, os relacionamentos, a condição feminina e o sexo. Se, para a neta, o sexo não é tabu, para a avó ainda é um assunto delicado, reflexo de sua geração.

De traços simples e encantadores, “Suzette: ou o grande amor” é tomado por tons solares, de azul, amarelo e laranja, que combinam tanto com a relação vívida e afetuosa entre as duas protagonistas, quanto com o paraíso italiano que elas partem em busca. De arrancar risos e lágrimas ternas, o novo quadrinho de Fabien Toulmé apresenta uma lição simples mas que constantemente nos esquecemos: nunca é tarde, nunca.

Suzette. Foto_ Editora Nemo
Suzette. Foto_ Editora Nemo

Encontre “Suzette: ou o grande amor” aqui

Fabien Toulmé está em Belo Horizonte para FIQ e irá participar de um bate-papo e sessões de autógrafo. Confira a agenda do artista:

Bate-papo

Conversa em quadrinhos: Ficção histórica, com mediação de Gabriel Nascimento

06/08 – Sábado – 15h – Auditório Ricardo Laranja

Sessões de autógrafo

05/08 – Sexta-feira – 15h – Praga de autógrafos George Perez

06/08 – Sábado – 17h – Praga de autógrafos George Perez


A adoção, de Zidrou e Monin

Um casal idoso francês, Gabriel e sua esposa, assiste na televisão a uma reportagem sobre o terremoto de 8.4 graus na escala Richter que atingiu a cidade de Arequipa, no Peru. Eles se assombram com a notícia, mas a vida continua, afinal, um acontecimento como este se torna mais abstrato quando milhares de quilômetros os distanciam dele. Quando não se tem, entre as vítimas, alguém de seu círculo. “Mas sabe como é… nos comovemos, nos compadecemos, daí esquecemos”. “A adoção”, quadrinho de Zidrou e Monin, tem tradução de Renata Silveira.

Logo em seu primeiro par de páginas, “A adoção” já apresenta um breve, porém pungente, estudo sobre a empatia. Ou melhor, sobre os limites dela. Sobretudo em uma época em que um turbilhão de acontecimentos – boa parcela deles trágicos – nos alcançam quase que imediatamente após ocorridos ou ainda enquanto acontecem, pela televisão e, mais recentemente, pelas redes sociais.

Tempos depois, entra em cena a pequena Qinaya, uma garotinha de 4 anos. Peruana, a menina é uma sobrevivente de Arequipa e quis o destino – mas não só ele – que ela se tornasse, do dia para a noite, neta de Gabriel. Seu filho retorna com a esposa do Peru com a criança, após a conclusão do processo de adoção em nosso vizinho latino-americano.

Conquista

Se o idoso recebe a netinha com certa resistência, pouco a pouco a menina desarma cada escudo que protege este seu inusitado novo vovô. É bonito como os autores constroem a relação entre avô e neta, processo que demanda tempo e a conquista da confiança mútua. Se Qinaya faz com Gabriel olhe para o presente e para toda a possibilidade de futuro que seus apenas 4 anos de idade prometem, ela também dá uma chance para que ele olhe para o passado. Em resumo: viver com a neta aquilo que foi perdido na história de seus próprios filhos. “Essa casa já tinha esquecido como é a melodia do riso de uma criança”.

“A adoção” é também um retrato de uma frança multicultural, habitada e construída não apenas por franceses, mas por imigrantes. Cidadãos estes que não são apenas uma força de trabalho, mas uma força cultural e de transformação política e social. Zidrou e Monin guardam, ainda, uma reviravolta de arrancar lágrimas dos leitores, mostrando o quão humanos e, portanto, falhos, podem ser seus personagens. 

No fim, “A adoção” parece nos dizer que, não importando as barreiras de idiomas, de culturas e de gerações, há uma linguagem que as transpassa e é universal: o amor.

A adoção. Foto_ Editora Nemo
A adoção. Foto_ Editora Nemo

Encontre “A adoção” aqui


Um oceano de amor, de Wilfrid Lupano e Grégroy Panaccione

Todas as manhãs, um senhor sai para pescar na costa da Bretanha, na França. É um ritual, repetido diariamente: acordar, tomar café e banho, pegar o almoço preparado pela esposa e se despedir dela. Um até logo. Mas, um dia, ele não retorna para casa. “Um oceano de amor”, dos franceses Wilfrid Lupano e Grégroy Panaccione, é um quadrinho sem um único balão de fala.

Em alto mar, o velho pescador joga sua rede na água. Ao puxá-lo de volta, o instrumento retorna à bordo com tudo, menos peixes. A resposta para o porquê da ausência dos esperados animais na rede do pescador está próxima e será avassaladora: um gigante navio pesqueiro – assustador, em escala industrial – se aproxima, engolindo tudo e todos, incluindo o senhor e seu diminuto barquinho. Enquanto isso, sua companheira aguarda seu retorno na costa, o que não acontece.

Amor e Aventura

Sob a aparente leveza de seus traços, “Um oceano de amor” parece, num primeiro momento, uma história de amor entre o senhor e sua esposa e uma história de aventura, acompanhando a tentativa de retorno do personagem ao lar. Mas o quadrinho revela muito mais em suas profundezas. Há, na figura da mulher, um forte gesto de emancipação feminina. No início, ela aparenta ser uma tradicional mulher bretã, responsável pelas tarefas domésticas, aguardando o retorno diário do esposo, que sai em busca da subsistência da casa. Mas, quando o oceano não devolve seu companheiro de volta, ela parte em sua própria e inusitada jornada em busca do amado. Quando digo inusitada, é porque, por exemplo, sua história irá cruzar com figuras como o líder cubano Fidel Castro e os estilistas Karl Lagerfeld e Donatella Versace

Outro ponto da obra é seu forte caráter ambientalista. Por exemplo, no barquinho de pesca que é engolido por um grande navio pesqueiro. Metáfora para o processo de extinção de maneiras tradicionais de pesca, em pequena escala, em comunidades à beira-mar, frente à pesca predatória e em larga escala. São as tradições de séculos sendo ultrapassadas por uma voraz sociedade do consumo. Ou, ainda, a denúncia acerca da poluição marinha: das embalagens plásticas, que enforcam o pescoço de uma gaivota, ao combustível despejado por embarcações no meio do oceano. 

Força narrativa

Se não há balões de diálogos, “Um oceano de amor” traz toda sua força narrativa nos quadros, na construção e na fluidez de suas cenas, como forma de transmitir as intenções dos personagens ao leitor. E faz isso com maestria, numa construção que remete ao cinema mudo. É divertido como seus personagens reagem e gesticulam com muita expressividade – há momentos, inclusive, em que a obra ressoa à comédia física de Charles Chaplin ou de Buster Keaton, por exemplo. Mesmo sendo uma aventura sem diálogos, a obra é, ainda assim, permeada por sons: seja o choque entre as ondas, o som aterrorizante do navio que surge mais próximo do que deveria ou a nuvem de gaivotas que toma o corpo de seu protagonista.

Singelo e inesperado, “Um oceano de amor” é uma grandiosa aventura marinha, herdeira de clássicos da literatura e do cinema. Em um mar de obras lançadas, esta é uma pérola rara, singular.

Um oceano de amor. Foto_ Editora Nemo
Um oceano de amor. Foto_ Editora Nemo

Encontre “Um oceano de amor” aqui


Sobre o FIQ

A 11ª edição do FIQ: Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte ocupa o Minascentro até domingo, dia 7 de agosto. A entrada e toda a programação são gratuitas. Confira mais no site: http://portalbelohorizonte.com.br/fiq

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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