Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Três lançamentos em quadrinhos para abrir os olhos no primeiro trimestre

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2022 mal começou e já temos uma série de lançamentos em quadrinhos, nacionais e internacionais, no mercado brasileiro.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

A nona arte é um espaço especial para que artistas façam uso da criatividade para tratar dos mais variados assuntos, dos aparentemente banais aos mais espinhosos. 

Dentre as minhas leituras em quadrinhos neste primeiro trimestre, destaco três obras abaixo. São trabalhos de artistas do Brasil, Suécia, França e Suíça com abordagens e temáticas distintas, cada um com uma identidade muito própria, que vale a pena conhecer.

O homem rabiscado

“Até o nada acredita estar vivo quando lhe dão um nome”

“O homem rabiscado”, parceria entre Serge Lehman e Frederik Peeters, traz uma intrincada história familiar. Embarcamos em uma vertiginosa viagem na procura por segredos que sustentam um passado e um presente obscuros, onde sobram perguntas e são parcas as respostas. Com tradução de Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe, o quadrinho é um lançamento da Editora Nemo.

Recursos do suspense e da fantasia

Uma avó, Maud, uma mãe, Betty, e uma neta, Clara. É ao redor desta linhagem feminina que a ação se desenrola: “Essa não é uma história de homens”, diz uma personagem. Após um AVC sofrido pela matriarca, uma autora de livros infantis e exímia contadora de histórias – qualidade herdada por sua neta -, Betty e Clara descobrem que Maud tem estado ao longo dos anos sob o domínio de um chantagista, Max Corbeau. Mãe e filha partem, então, à procura de respostas. O que as leva até uma cidadezinha no interior da França e seus segredos soterrados sob uma montanha e um antigo convento em ruínas.

O roteiro de “O homem rabiscado” é marcado por recursos do suspense, e pouco a pouco incorpora também elementos da fantasia – de lendas e mitos judeus e pagãos, por exemplo. Serge Lehman e Frederik Peeters desenvolvem uma história repleta de pontas, que nos indicam direções que acreditamos decifrar para, em seguida, nos direcionar para outro caminho. Daqueles trabalhos de virar as páginas na ansiedade pelo que virá a seguir, pelas respostas que poderão ser encontradas. Em seu arremate, a narrativa é concluída sem que pontas fiquem soltas, numa história bem amarrada e surpreendente.

Arte assombrosa

Em tons de preto, branco e cinza, a arte de Peeters é assombrosa. Repleta de cenas noturnas ou em ambientes escuros, o artista faz um bonito trabalho de luz e sombra, sobretudo numa Paris que é retratada sob um verdadeiro dilúvio bíblico. Aliás, o fato da capital francesa se encontrar sob chuvas torrenciais é o espaço ideal para que Peeters mostre todo seu virtuosismo artístico em quadros incríveis. Fazendo uso da textura da água, do choque das gotas nas superfícies e, especialmente, dos espelhos d’água – em poças no chão, por exemplo. Destaco também uma sequência em que acompanhamos a ação pelo olhar do personagem Max Corbeau – uma figura interessantíssima, espécie de homem-corvo, ilustrado na capa do livro – que é de tirar o fôlego, nos traços e movimentos.

“O homem rabiscado” é uma grande narrativa sobre os laços de sangue e a ancestralidade, marcada por segredos, pesadelos e estranhas coincidências. É também um quadrinho sobre o poder das histórias em nós, sobre o contar e o ouvir: uma arte e um fascínio que atravessam gerações. A possibilidade da fabulação que anula, mesmo que momentaneamente, o tempo regular da vida. Este, talvez, o principal motivo que nos leva aos livros, aos romances e aos quadrinhos, não é mesmo?

Encontre “O homem rabiscado” aqui

Capa do livro O homem rabiscado (Editora Nemo)
Capa do livro O homem rabiscado (Editora Nemo)

Meu amigo morto

“Droga, aconteceu de novo… quando eu vejo uma coisa legal eu penso: vou contar pro Kalle. Parece que a ficha ainda não caiu…é como se nada mais fosse divertido. metade da graça era contar as coisas para ele”

Simon recebe uma ligação informando que seu melhor amigo, Kalle, morreu. Sentindo que não conseguiria manter o equilíbrio, sua única reação foi deitar no chão. O luto e o trauma da perda são alguns dos temas de “Meu amigo morto”, quadrinho do sueco Simon Gärdenfors, lançado pela Todavia Livros com tradução de Guilherme da Silva Braga.

Sensível reconstrução do processo de luto

Após um breve prólogo, onde narra o dia da fatídica ligação, 04 de janeiro de 1996, Simon Gärdenfors volta quatro anos no tempo, para registrar o início da amizade. Acompanhamos as desventuras dos dois adolescentes, onde ele rememora diversos episódios, narrados com muito bom humor, na companhia de Kalle. Enquanto o narrador sofria por ser virgem, por exemplo, seu melhor amigo colecionava histórias de êxito em investidas amorosas e sexuais.

A ausência de Kalle é repentina, fulminante. Em questão de poucos dias, ele morre em decorrência de uma meningite. Simon reconstrói com muita sensibilidade e franqueza o seu processo de luto e a descoberta da depressão. Seu humor se torna imprevisível e ele passa a ser afetado por pesadelos recorrentes com o amigo. Ao longo das próximas páginas – que cobrem uma década a partir da perda – o quadrinista formula e procura saídas dentro do labirinto de seu próprio luto, com reflexos na sua vida familiar, amorosa e profissional. “Eu não via nenhuma ligação entre a morte de Kalle e os meus pensamentos suicidas dois anos mais tarde. Seria uma explicação simplista dizer que todos os meus problemas eram consequência daquilo”.

Interessante contraste entre arte e roteiro

É interessante o contraste entre o roteiro e a arte de Simon Gärdenfors. Seus traços arredondados lembram desenhos infantis, preenchidos por uma explosão de cores que enchem os olhos. O impacto dos temas abordados não perde a força – parece, na verdade, ressoar ainda mais no leitor – com a aparente leveza do trabalho gráfico do artista. Há momentos, em letterings e nas aberturas de alguns episódios narrados, em que os traços de Simon trazem marcas da linguagem publicitária, numa estética bem noventista. 

Sensível e emocionante, “Meu amigo morto” é um belo exemplo de trabalhos artísticos autobiográficos que, a partir das experiências particulares, jogam luz em sentimentos que são universais. Mais do que uma reflexão sobre a morte e sobre o fim, o trabalho de Simon Gärdenfors é uma tocante narrativa sobre o recomeço. Recomeçar apesar de.

Encontre “Meu amigo morto” aqui

Capa do livro Meu amigo morto (Todavia Livros)
Capa do livro Meu amigo morto (Todavia Livros)

A infância no Brasil

“A infância do Brasil”, quadrinho de José Aguiar, tem uma proposta interessante: contar a história do Brasil, do período logo após o descobrimento, até o século 21, tendo como foco um olhar sobre a infância. Finalista do Prêmio Jabuti, em 2018, o trabalho acaba de ser relançado em edição ampliada pela Editora Nemo.

A infância como protagonista

O personagem principal aqui é a infância, que toma corpo em diferentes crianças a cada capítulo. Cada um deles dá conta de um século, do XVI ao XXI. No primeiro encontramos, em paralelo, o parto de uma criança e o parto do próprio Brasil enquanto nação. Aterrados, observamos no último que, mais de quinhentos anos depois, vivemos em um país que parece não ter amadurecido e tomado as responsabilidades de um adulto no que diz respeito às suas crianças.

“A infância do Brasil” é um livro sobre as diversas violências – físicas e simbólicas – impostas à infância brasileira, as contradições e abusos perpetuados desde a fundação do país. Das doenças trazidas aos povos originários pelos europeus à catequização das crianças indígenas por padres católicos; da escravidão desde a mais tenra infância ao trabalho infantil que persiste nos sinais de trânsito séculos depois. O discurso de um dono de fábrica durante o governo Vargas poderia constar em capítulos anteriores ou no último, que cobre o século atual: “Não entendem que oferecendo emprego eu dou oportunidade de tirar as crianças da marginalidade?”

A edição inclui uma série de artigos escritos pela historiadora Cláudia Regina Baukat Silveira Moreira que contextualizam as temáticas e o período histórico de cada capítulo do quadrinho. Eles serviram de base para o próprio José Aguiar no desenvolvimento do trabalho.

As semelhanças entre passado e presente

Na conclusão de cada século, Aguiar inclui uma breve cena – de apenas uma página – em que a ação ocorre em tempos atuais. Mais do que mostrar os contrastes entre o hoje e o ontem, o procedimento escancara suas semelhanças. Há, por exemplo, o paralelo entre a mãe escravizada e sua filha – que deveria estar liberta em decorrência da Lei do Ventre Livre, mas permanece aprisionada sob a conivência do Estado – e uma mãe detenta que dá à luz algemada e cria seu filho sob o cárcere nos dias atuais.

Este gesto ganha força no último capítulo de “A infância do Brasil”, arrematando o quadrinho de maneira inventiva, ao conectar de forma mais incisiva o século XXI aos diferentes períodos históricos retratados anteriormente. José Aguiar, assim, não nos deixa esquecer do caráter cíclico da história. Que insiste e insistirá em se repetir – a não ser que façamos alguma coisa. 

Encontre “A infância do Brasil” aqui

Capa do livro A infância do Brasil (Editora Nemo)
Capa do livro A infância do Brasil (Editora Nemo)

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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