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“A trama da vida”: Uma viagem íntima pelo fantástico mundo dos fungos

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Livro de Merlin Sheldrake traça o percurso de uma vida emaranhada aos fungos

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“A trama da vida: como os fungos constroem o mundo” é um livro apaixonado. O biólogo e micologista – área da ciência responsável por estudar os fungos – Merlin Sheldrake, traça o percurso de uma vida emaranhada a estes seres. Vai desde o primeiro contato com os fungos ao pós-doutorado dedicado às redes fúngicas subterrâneas nas florestas do Panamá. Com tradução de Gilberto Stam, o livro chega em uma coedição entre a Editora Fósforo e a Ubu Editora.

Não há vida sem os fungos. Eles são responsáveis por boa parte da decomposição da matéria orgânica do planeta. Sendo assim, estão por todos os lugares, sobrevivendo nos mais variados ambientes. São encontrados nas rochas cobertas de líquens e até mesmo às nuvens. Também no trato digestivo humano aos territórios arrasados por desastres atômicos. Poucos ambientes são extremos demais para estes seres. Dizem que a primeira “coisa viva” a emergir da devastação atômica em Hiroshima foi um cogumelo matsutake. 

Sobreviventes por excelência, então, eles tiveram a incrível capacidade de superar e prosperar em diferentes períodos catastróficos da Terra. Na possibilidade de um cataclismo futuro, nós, espécie humana, talvez não sobrevivamos. Eles sim. Quem sabe, retornaremos digeridos por eles, como cogumelos?  Mas, se quisermos evitar uma catástrofe ambiental num porvir, temos que prestar mais atenção nestes seres que nos circundam, onde quer que estejamos.

Descobrimentos

Descubro com Merlin, por exemplo, a existência da “internet das árvores”. É uma associação entre fungos e raízes de plantas forma uma rede gigante de troca de nutrientes, estímulos e toxinas. Nela, diferentes fungos micorrízicos comunicam-se e, assim, diferentes plantas também criam um canal direto de comunicação no subsolo. Semelhante ao grande fluxo de informações e conteúdos compartilhados na rede mundial de computadores: são quilômetros e mais quilômetros de vida entrelaçada sob os nossos pés. Foi essa associação entre as vegetais e fungos que permitiu que os ancestrais das plantas migrassem para a terra firme. 

Há muito mais em “A trama da vida”. O que quero destacar é a maneira como Merlin Sheldrake constrói um texto tão fascinante sobre seres que desafiam classificações. Com linguagem clara e acessível, Merlin faz um trabalho minucioso de pesquisa, repleto de curiosidades e fatos científicos, acompanhados de sua própria jornada pessoal. No texto, ainda, o saber científico compartilha espaço com linguagens como a música e a poesia, tornando a experiência de leitura ainda mais instigante. 

A trama da vida. Foto Fosforo Editora e Ubu Editora

Estilo

O pensamento e a escrita de Merlin Sheldrake assume a forma de um micélio. Ou seja, redes fúngicas engendradas por hifas – as células que formam os fungos – que se assemelham a raízes. Como diferentes pontas hifais, o conhecimento segue por múltiplos caminhos, como a origem da vida, períodos pré-históricos, as pesquisas científicas do presente e um futuro porvir. Enquanto isso, algumas pontas do micélio seguem para as lembranças de infância ou para os primeiros experimentos fúngicos de seu autor e outras se desenvolvem para referências musicais e literárias. 

Como um fungo, “A trama da vida” cumpre o papel de espalhar seus esporos, neste caso, de saber e curiosidade. É um desafio não se fascinar com estes seres após o contato com a obra de Merlin Sheldrake. Deixo que eles germinem em minha mente.

O fechamento de um ciclo

“Os fungos podem gerar cogumelos, mas primeiro devem desfazer alguma outra coisa. Agora que este livro está feito, posso entregá-lo aos fungos para que o desfaçam”. 

Merlin Sheldrake umedeceu um exemplar de “A trama da vida” e o semeou com o micélio de um Pleurotus. Você deve conhecê-lo como shimeji ou cogumelo-ostra.

Se em um primeiro momento o micologista ficou lisonjeado que os fungos tenham devorado tão rapidamente o exemplar, depois refletiu não saber se poderia tomar o gesto como um voto de confiança. Já que o Pleurotus tem um gosto diverso e surpreendente: de óleo cru à bitucas de cigarro. Ou, ainda, o veneno glifosato.

Após o crescimento dos cogumelos, Sheldrake os comeu. Ele comenta que os cogumelos estavam deliciosos: “Não consegui sentir o gosto de nenhuma nota estranha, o que sugere que o fungo havia metabolizado totalmente o texto”. Assim, o biólogo conclui um ciclo de forma poética e saborosa. Você pode conferir o vídeo desta experiência abaixo:

Encontre “A trama da vida” aqui:

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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