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Torto Arado: “Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”

Primeiro romance de Itamar Vieira Junior conquistou dois dos mais importantes prêmios de literatura em língua portuguesa

Especial para o Culturadoria | Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura | @tgpgabriel

29/01/2021 às 11:54

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Ilustração da capa de Torto Arado, de Linoca Souza. Crédito: Linoca Souza/Todavia

Você já deve ter ouvido falar de Torto Arado. Este primeiro romance de Itamar Vieira Junior tem estado na lista de livros mais vendidos do Brasil há semanas e é cada vez mais comentado, discutido, compartilhado. No final de 2020 o livro conquistou o Jabuti de Romance Literário e o Oceanos, principal premiação dedicada a escritores e países de língua portuguesa.

Antes mesmo de sua publicação, Torto Arado ganhou o Prémio LeYa de Romance, em 2018, e teve seu lançamento em Portugal pela editora portuguesa LeYa antes de chegar ao Brasil pela Todavia, onde, atualmente, está em sua sétima ou oitava reimpressão.

Um currículo como este impressiona. Mas não mais do que a avalanche de sentimentos, de sensações, que um romance como “Torto Arado” pode provocar no leitor. Foi minha primeira leitura de 2021 e posso dizer que não poderia ter começado meu “ano literário” de maneira melhor.

A trama

Torto Arado tem uma prosa poética, melodiosa. Uma cadência musical mesmo, com forte marca da oralidade. Nos pede para ler em voz alta, escutar aquelas vozes. E escutar é parte do trabalho de Itamar Vieira Junior como geógrafo do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Foi no trabalho no Instituto que o autor teve contato com todo um Brasil desconhecido pela maior parte de sua população. Um país onde a escravidão não foi abolida em 1888. A escravidão substituída pela servidão, a concentração de terra como norma:

“Quando deram liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por nada. Se sujeitando a trabalhar por morada. A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade” (p. 220)

O romance não documenta necessariamente a população com quem Itamar teve contato no trabalho, mas não deixa de ser perpassado por suas vozes, seus relatos e sua força. Muitas e muitos brasileiros são Bibiana e Belonísia, as irmãs protagonistas desta história, seus pais, Zeca Chapéu Grande e Salustiana, e sua avó, Donana. Esta família imersa no interior do sertão baiano. Um acidente marca profundamente a vida das duas irmãs e uma se tornará a voz da outra. Logo em suas primeiras páginas, um grito sofrido, engasgado me sobe a garganta. É uma sensação física.

Brasil profundo

Sua história é puro Brasil – a cultura negra, a religiosidade, as feridas abertas de uma escravidão só abolida no papel – mas também é universal – o amor à terra, a luta por justiça social. Não surpreende a escolha unânime do júri do Prémio LeYa, composto por integrantes de diferentes países lusófonos, na Europa, África e América do Sul: “Sendo um romance que parte de uma realidade concreta, em que situações de opressão quer social quer do homem em relação à mulher, a narrativa encontra um plano alegórico, sem entrar num estilo barroco, que ganha contornos universais. Destaca-se a qualidade literária de uma escrita em que se reconhece plenamente o escritor. Todos estes motivos justificam a atribuição por unanimidade deste prémio”.

Torto Arado é também um romance muito visual e sensorial na descrição de seus personagens, do sumo do buriti escorrendo pelos corpos, daquela terra – com suas casas de barro, as únicas permitidas pelo dono da fazenda pela fragilidade de suas fundações, de sua sustentação, não definitivas, ao contrário de casas de alvenaria –, as festas, as brincadeiras de Jarê e os encantados incorporando em corpos e vozes. A religiosidade é uma marca fortíssima. O Jarê, religião de matriz africana que tem como líder, na narrativa, Zeca Chapéu Grande, é um forte laço de solidariedade entre as comunidades onde ele é praticado, sobretudo na Chapada Diamantina.

Série

Segundo Itamar, Torto Arado foi um livro de uma vida inteira. Reelaborado, reescrito ao longo dos anos. Um primeiro manuscrito, ainda em processo, foi perdido. Só se manteve o título, retirado do poema “Marília de Dirceu”, de Tomás António Gonzaga. O romance também é parte de um projeto maior do autor, na escrita da relação do homem com a terra. Te digo que não posso esperar para adentrar novamente o profundo do Brasil pelo olhar de Itamar Vieira Júnior.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro 😀.

Fotografia do italiano Giovanni Marrozzini que inspirou a ilustração da capa de Torto Arado, de Linoca Souza. A foto faz parte da série Nuovelle semence (2010), realizada em Camarões.

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