Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Simone Spoladore estreia como diretora em “O Chá de Alice”

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Curta-metragem que marca a estreia da atriz na direção foi exibido na quinta-feira, dia 25 de janeiro, na 27ª Mostra de Tiradentes

Patrícia Cassese | Editora Assistente

E assim se passaram dez anos. Na verdade, 11. Foi em 2013 que Simone Spoladore foi a homenageada na 16ª Mostra de Tiradentes. O tempo passou e a paranaense continuou dando o ar da graça no cinema e na televisão aberta – do mesmo modo, no streaming. Mas um dos dois motivos que trazem a atriz revelada nacionalmente com o filme “Lavoura Arcaica” é a estreia na função de diretora. O outro, é a exibição de “O Leme do Destino”, de Julio Bressane, no qual integra o elenco. O filme será apresentado no sábado (27) – último dia da Mostra – às 18h, no Cine-Tenda, dentro da Mostra Deslumbramento.

Simone Spoladore, que está estreando como diretora em "O Chá de Alice" ( Leo Lara/Universo Produção)
Simone Spoladore, que está estreando como diretora em "O Chá de Alice" ( Leo Lara/Universo Produção)

“O Chá de Alice”, curta que marca a estreia de Simone como diretora e roteirista, por sua vez, foi exibido na quinta-feira, dia 26, também no Cine-Tenda, dentro da Mostra Panorama. Nele, ela parte do universo de Lewis Carrol para apresentar um filme delicado, com elementos oníricos. O elenco é capitaneado por Mariah de Moraes, representado Alice.

O começo

Na entrevista à imprensa, Simone contou que já há algum tempo acalentava a ideia de dirigir, mas confessou que enxergava diante de si um muro no qual não via uma passagem. Foi em 2016 que a semente de “O Chá de Alice” começou a brotar, inicialmente, por meio do roteiro, o que por si só já era uma novidade na carreira dela. “Assim, você sai da vida, dos encontros que tem na vida, para escrever. Nesse sentido, não é um processo solitário. Porém, no sentido de pegar a caneta e começar a escrever, é muito diferente. E como diretora também. Primeiramente, por onde começar?”, argumenta.

Mas sim, um belo dia, Simone Spoladore sentou-se na escrivaninha e começou a colocar no papel uma cena, inspirada em “Alice no País das Maravilhas”. “Quis escrever uma cena só, para que fosse mais fácil produzir, já que a fazer com o meu dinheiro. Como fiz com dinheiro próprio, quis gastar o mínimo possível”.

Filmagens

Aliás, “O Chá de Alice” foi filmado no Parque Lage, no Rio, e os objetos que aparecem em cena são todos da própria atriz. “Tanto que a mesa (de chá) é uma porta com sarrafo de madeira. As xícaras, tudo foi levado de casa, assim como as cadeiras. Na verdade, comprei mais duas para levar para o set”. Simone se lembra que ela própria foi carregando as cadeiras pela rua, até o parque. “Eu e o Inti (Briones), diretor de fotografia”, relembra.

Já o figurino foi articulado junto à amiga Ana Avelar, com quem Simone fez a série “Magnífica 70” (HBO). “Ela fez com o material dela de arquivo, né, o acervo dela”. Foram três dias de filmagem. “Depois, a decupagem e tudo mais fomos pensando de maneira mais simples possível, porque a gente também não tinha como ficar segurando os atores”.

Processo

No meio da filmagem, uma chuva inesperada. “Mas a gente assumiu. Tanto que dá para ver, porque tá seco e depois tá molhado. Mas tudo bem, porque como o filme tem uma coisa meio mágica, fica noite muito rápido, incorporamos a a chuva”. Daí, veio a primeira montagem, a cargo de José Luís Torres Leiva, que, narra Simone, fez com um amigo, Inti Briones, cineasta chileno. “Um grande cineasta chileno, pelo qual tenho uma admiração muito grande, mas eu senti que não era aquilo. Como o José Luís mora no Chile, eu resolvi procurar uma montadora aqui, no Brasil”.

O próprio Inti indicou o nome de Joana Collier. “Ela tinha uma coisa que me interessava muito. Nas conversas que tínhamos, a gente falava muito do feminino, dessa construção do feminino em cena. E aí ela começou a montar. Acho que o que havia faltado na montagem era a primeira imagem da Alice, da qual eu particularmente gosto muito”. Não é spoiler dizer que o curta começa com Alice debruçada sobre a mesa. Assim, o espectador vê os cabelos ruivos da atriz Mariah de Moraes, sem qualquer sinal do rosto.
Simone vê, ali, um estado de sonolência, letargia. “Tudo isso simbolizado pelos cabelos, emaranhados, ela na inércia daquele mundo particular”. Partindo dessa imagem inicial, o filme foi sendo construído.

Decisões

Spoladore explica o motivo de os demais personagens pouco aparecem. “Na verdade, não era essa a ideia inicial, isso foi se construído durante a montagem. Assim, eles acabaram aparecendo mais através da voz. Aparecem, mas é bem pouco. O filme fica muito mais centrado nela, e, na verdade, acho que faz sentido, pelo fato de a Alice estar imersa em si própria. Ou seja, sem justamente conseguir se comunicar com o mundo externo”, analisa a agora diretora.

Saldo

Instada falar do saldo dessa primeira experiência por trás das câmeras, Simone diz que ainda está colocando muita coisa na balança. “É o primeiro, né? É um exercício. Uma coisa que observo muito é que a gente começa com uma ideia, mas, no percurso, como os profissionais envolvidos no filme contribuem (no desenrolar do processo) de maneira avassaladora. A Mariah, por exemplo, contribuiu muitíssimo para a criação daquela cena do cabelo, com o qual ela fica coberta. Do mesmo modo, sem o Inti, o diretor de fotografia, eu não teria conseguido fazer o que fiz. Ele é muito, muito experiente, então, me ajudou demais a estruturar os dias de filmagem”.

Mas não só. A esse círculo, Simone cita novamente Joana Collier (montagem), bem com o responsável pelo som, o chileno Pablo Pinochet. “Eles deram uma contribuição imensa. Em termos de ideias mesmo. Na verdade, acho que a equipe foi construindo junto, sabe? Mas o que percebi claramente neste processo é que a ideia (guia) fica no papel. Depois, é uma espiral. A gente vai entrando (no processo) e vai mudando. Entrando e mudando, entrando e mudando”.

Futuro

Simone Spoladore afiança: quer continuar atuando, mas, tal qual, dirigindo. Na verdade, ela cita que já tem dois novos curtas filmados, em processo de finalização. “Mas acho que vai demorar um tempinho ainda (para conclui-los). Porque uma coisa que eu também descobri nesse processo é que existe um tempo das coisas, e que é impressionante. No próprio caso de ‘O Chá de Alice’, por exemplo. Veja, a gente filmou em 2016, até eu conseguir montar a primeira versão, e depois chamar outra pessoa, acho que levou uns dois anos. E aí começou a pandemia. Ali, falei: ‘Bom, então, vamos fazer de maneira online’. Assim, todo o som de ‘O Chá de Alice’ foi feito durante a pandemia”.

Um dos curtas dirigidos por ela se chamará “Strombolíquio”. Nele, o namorado dela, Vanni Bianconi, se incumbiu da câmera. “A gente filmou em Stromboli (lha ao norte da costa da Sicília, Itália), quase como uma performance”. O segundo curta-metragem em processo, ao qual ela se referiu, se chama “Laura e os Cães”, e também contará com a presença da atriz Mariah de Moraes. Aliás, ela conta que as duas são muito amigas, e, quando pensou em alguém para encarnar Alice, de pronto pensou na atriz e apresentadora fluminense.

Desdobrar

Simone Spoladore também revela que tem um longa-metragem no horizonte, para o qual assinaria não só roteiro e direção, como participaria como atriz. “Então, fico me perguntado como seria isso de ser diretora e atriz”. Perguntada se o que aprendeu com os diretores com os quais já trabalhou a ajuda na direção, ela reconhece ter referências acumuladas, mas confessa que ainda não conseguiu elaborar sobre isso. “Ainda estou num processo”, situa.

Uma pergunta a ela colocada foi sobre atrizes e diretores que admira. No primeiro caso, Simone citou Liv Ullmann, Louise Brooks, Helena Ignez e Glória Pires. Já como cineasta, Agnès Varda. “Gosto muito de artes plásticas, de ir a exposições também, bem como de performances”, disse, citando Marina Abramovic. Simone ainda não se aventurou pela pintura, mas confessa que gosta de fotografar.

Atriz

Como atriz, ela tem um projeto cinematográfico sobre o qual não pode ainda revelar detalhes. Para a TV, participará de uma série, “Corpo de Delito”, que, disse, está sendo desenvolvida em Curitiba. Ela também assume que gostaria muito de voltar a fazer novelas.

No set com um ícone

Sobre o filme com Bressane, Simone se entusiasma. “Foi um sonho trabalhar com ele, de verdade. Ele é muito doce, muito delicado. A experiência no set de filmagem era maravilhosa, porque cada instante era uma aula de cinema. Claro, ele gosta de falar, mas era uma aula de cinema que entrava na gente pelos poros, dada por uma pessoa que sabe profundamente de cinema, e a gente ia absorvendo”.

Cena do filme "O Leme do Destino", de Julio Bressane (Frame)
Cena do filme “O Leme do Destino”, de Julio Bressane (Frame)

Simone diz que o set com Julio Bressane é também muito lúdico. “Porque ele faz um cinema muito simples. Vejam, a gente fez um longa em seis dias de filmagem. E ele trabalha muito com referências naquele primeiro cinema, do Meliès. Assim, tem um sapato andando sozinho, uma meia-calça voando no set. E ele mesmo fazia a meia-calça voar. E tem também uma coisa muito familiar, porque ele trabalha com a família toda. Ex-genros, filhas, atuais genros. Um cinema muito carinhoso, muito bom. Passei a chamar de cinema-útero”, diz ela, confessando que acalentava o sonho de trabalhar com Bressane há 15 anos.

Tiradentes

Naturalmente, a atriz, diretora e roteirista foi perguntada sobre a Mostra de Tiradentes. “Tenho um carinho imenso, paixão. “Estou muito feliz de ‘O Chá de Alice’ ter sido exibido aqui, agora”, disse, lembrando estar usando o mesmo vestido de quando foi homenageada pelo festival, em 2013. Ainda não há previsão de quando “O Chá de Alice” será exibido em BH.

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