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Saidiya Hartman e o olhar para a rebeldia das mulheres negras

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Saidiya Hartman encontrou-se diante de um problema. Em documentos, registros e fotografias oficiais, a população negra era sempre definida por uma imagem da pobreza

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Ao consultar arquivos públicos a respeito da população afroamericana nos chamados  cinturões negros da Filadelfia e de Nova York entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX – cidades que receberam um intenso fluxo migratório pós-Abolição no país – a pesquisadora Saidiya Hartman encontrou-se diante de um problema. Em documentos, registros e fotografias oficiais, a população negra era sempre definida por uma imagem da pobreza – as habitações insalubres e superpovoadas, os trabalhos subalternos – ou por arranjos sociais e familiares tidos como intoleráveis pelo poder e pela justiça branca.

Assim, homens e mulheres negros eram predeterminados pelas imagens de sua existência definidas por homens e mulheres brancos. “Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais” faz uso de tais registros da época, de forma a revertê-los, buscando o que há por trás do determinismo destas representações, fazendo uso de um método inovador. Com tradução de Floresta, o livro é um lançamento da Fósforo Editora.

Um olhar para a rebeldia 

Saidiya Hartman se interessa especialmente por um grupo especial de mulheres que habitaram os cinturões negros. Mulheres estas que eram tidas como rebeldes pelo simples fato de existirem como figuras autônomas, questionando os papéis sociais restritos à condição de mulher negra numa sociedade segregada. “A ideia disparatada que anima este livro é a de que jovens negras foram pensadoras radicais que imaginaram incansavelmente outras maneiras de viver e nunca deixaram de considerar como o mundo poderia ser de outra forma.”

Método inovador: a fabulação crítica 

Partindo de mais de quarenta personagens reais, Hartman se aprofunda na intimidade, nos pensamentos mais secretos, sejam de dor ou de gozo, dessas mulheres por meio de um método inovador: a fabulação crítica. Combinando uma pesquisa rigorosa e detalhada com a ficção, a autora produz um texto que caminha entre o ensaio e a literatura, numa prosa marcadamente poética. O resultado é uma obra que consegue dar vida – com novas cores, texturas e sabores – à existências que, até então, foram confinadas às visões brancas registradas em arquivos. “Todas as personagens e os eventos apresentados neste livro são reais; nada foi inventado”, Hartman reforça. 

Ser uma mulher negra: uma íntima revolução 

Em todos os documentos analisados pela autora, estas mulheres aparecem sempre definidas como um problema. Passeiam pelo livro uma gama de personagens, cada uma com suas experiências individuais dentro dos cinturões negros. Cada mulher retratada aqui é, em si mesma, uma pequena e íntima revolução: seja uma revolução social, sexual ou de gênero, por exemplo. Em diversos momentos, elas buscam definir e questionar as categorias sociais, em pontos como a heterossexualidade compulsória e a liberdade sexual, entre outros. “Ser uma mulher negra autorizava todo e qualquer ato brutal. Diante disso tudo, o que se poderia fazer senão recusar categorias?”

Ser mulher e ser negra, na verdade, já era uma forma de resistência por si só, observamos na narrativa de Hartman. A polícia branca tinha a prerrogativa de invadir todo e qualquer lar negro. Todos ali eram suspeitos de alguma atividade ilícita, bastava a voz e a decisão do executor. Uma mulher negra desacompanhada na rua – ou acompanhada não de um homem, mas de outra mulher – era uma suspeita em potencial de prostituição. Assim, poderia ser detida em uma prisão ou reformatório, lugares das mais cruéis violências. Nos arquivos da Biblioteca Pública de Nova York, a pesquisadora encontra o cartão de apreensão de uma adolescente de 14 anos chamada Eleanora Fagan, acusada e detida por prostituição. Esta jovem era ninguém menos que Billie Holiday.

Questionamentos

Outra figura de destaque na cultura e no pensamento negro norte-americano presente no texto é o sociólogo W. E. B. Du Bois. Realizando estudos em distritos e guetos de população negra, foram inúmeros os questionamentos por parte daqueles que eram objetos de estudo de Du Bois. Se são os brancos que precisam mudar, e não os negros, por que não estudá-los?, rebatiam. “Perguntavam-se que negro seria tão franco ou ingênuo a ponto de acreditar que a simples verdade poderia mudar as pessoas brancas”. Hartman conclui: “Com eles, Du Bois aprendeu muito mais sobre o problema do negro do que imaginou que seria possível. Ter nascido de uma raça não o dotou de uma mina de conhecimento.”

Encontramos-nos diante de um trabalho necessário e de vanguarda em “Vidas rebeldes, belos experimentos”. Infelizmente, a sociedade analisada pelo livro ainda soa profunda e dolorosamente atual. No fim da leitura, todas as personagens retratadas, que ganham corpo e, sobretudo, voz pelo texto de Saidiya Hartman, parecem formar um coro, unem-se. Em uníssono, gritam pelo direito de viver. Viver em rebeldia, viver em liberdade. 

Capa do livro O cometa + O fim da supremacia branca. Créditos: Fósforo
Capa do livro O cometa + O fim da supremacia branca. Créditos: Fósforo

O diálogo entre Hartman e Du Bois

Sobre W. E. B. Du Bois e Saidiya Hartman, a Fósforo lançou anteriormente por aqui um pequeno volume bem interessante, com um texto de cada autor, “O cometa + O fim da supremacia branca”. “O cometa”, publicado originalmente em 1920, é uma breve ficção especulativa de Du Bois, que prevê uma catástrofe em Nova York, onde restam vivos apenas um homem e uma mulher. Já em “O fim da supremacia branca”, Hartman retoma o conto de Du Bois, lendo-o à luz de pensadores como Franz Fanon e Aimé Cesáire, discutindo o contexto histórico-social dos EUA no momento de sua escrita, no início do século XX, e desenvolvendo um paralelo entre o passado e os tempos atuais.

A ficção especulativa de Du Bois 

O homem que sobrevive à queda de um cometa – e os gases tóxicos liberados por ele – no texto de W. E. B. Du Bois é negro. Salvo pelo acaso, ele se encontrava no subterrâneo do banco onde trabalhava, realizando um serviço que outros se recusariam a fazer. Ao sair das profundezas da instituição bancária, Jim encontra um cenário de morte e desolação. Não há ninguém vivo dentro do banco e, ele descobrirá na sequência, nem nas ruas, bairros e regiões próximas.

Jim descobre, então, uma única sobrevivente: uma mulher branca. O encontro dos dois é a base para a reflexão de Du Bois a respeito dos fundamentos do racismo e sobre a possibilidade ou não de uma nova sociedade, verdadeiramente baseada na igualdade. “Olharam-se por um momento em silêncio. Ela não tinha notado que ele era um preto. Ele não pensara nela como branca. (…) Ontem, ele pensou com amargura, ela mal o teria o olhado”.

Paralelos com o hoje

Cem anos depois, Saidiya Hartman investiga o contexto social analisado e vivido por Du Bois para a escrita do conto. Vivendo as primeiras décadas pós-Abolição, os EUA eram tudo, menos um ambiente seguro para a população negra. A turba branca era furiosa e os linchamentos aos cidadãos negros uma realidade dolorosa. Du Bois escreve seu texto após a pandemia da Gripe Espanhola, momento em que não só a sociedade americana, mas mundial, vislumbrou a possibilidade de um apocalipse, devido ao número de mortes causadas pela doença.

Mas, para o povo negro ali, uma pandemia já estava em andamento muito antes, com vítimas determinadas pela cor de sua pele. “As pessoas negras tinham sido autorizadas a morrer em grandes quantidades sem que uma crise jamais fosse declarada”.

Impossível não ler a análise de Hartman sobre 1920 e não fazer um paralelo com o Brasil hoje. Onde nos encontramos (ainda) no contexto de uma pandemia, onde um vírus mostrou-se especialmente mortal em populações de maior vulnerabilidade social. Concomitante ao vírus, a violência oficial contra a população negra segue sendo a regra, não a exceção. No fim, a única possibilidade de superação da supremacia branca e a criação de uma nova sociedade parece ser o fim do mundo para, quem sabe, a reconstrução de um novo, como fabulado por W. E. B. Du Bois há mais de um século.

Encontre “Vidas rebeldes, belos experimentos” aqui

Capa do livro Vidas Rebeldes, Belos Experimentos. Créditos: Fósforo
Capa do livro Vidas Rebeldes, Belos Experimentos. Créditos: Fósforo

Encontre “O cometa + O fim da supremacia branca” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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