Literatura
“Quero ser um escritor da imaginação”, destaca o autor português Rui Couceiro, que lança romance no Brasil
Rui Couceiro. Foto: Neusa Aires
Literatura
Rui Couceiro. Foto: Neusa Aires
Recém lançado pela editora Biblioteca Azul, “Baiôa sem data para morrer”, de Rui Couceiro, lida com temas universais como a morte, a velhice, o tempo e as tradições
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Um jovem professor retorna ao vilarejo dos avós, numa pequena comunidade portuguesa. Localizada no Alentejo, zona rural de Portugal, Gorda-e-feia é uma monótona aldeia com velhos moradores à espera do dia do juízo final. A rotina é regada a vinho, fofocas, maldições, tradições e uma sensação constante de abandono.
Nela, o personagem encontra Joaquim Baiôa, um idoso que se dedica a restaurar casas abandonadas de Gorda-e-feia com a esperança de atrair novas pessoas e fazer renascer a vida do local. Só que Baiôa esconde um segredo: ele sabe a data da morte de todos os moradores da aldeia, menos a dele.
“Baiôa sem data para morrer” é o primeiro romance do escritor português Rui Couceiro. Recém lançado no Brasil pela editora Biblioteca Azul, o livro encontrou um grande público em sua terra natal e caminha para uma jornada semelhante no Brasil. Após participar da Bienal do Livro Rio, Couceiro esteve em Belo Horizonte para uma edição especial do Sempre um Papo, onde conversou com o escritor e curador Afonso Borges sobre a escrita e o lançamento do livro.
Rui Couceiro também conversou com o Culturadoria sobre as muitas questões que circulam a narrativa de “Baiôa sem data para morrer” e sobre sua relação com o Brasil. Confira abaixo a entrevista.
Tem sido muito bom porque eu gosto muito do Brasil. Desde pequeno tenho esse encantamento em relação ao Brasil, não só pelas questões, digamos, de clima e paisagem, gosto muito deste ambiente tropical do país, mas também pela maneira de ser do povo brasileiro, muito mais descontraído e informal que os portugueses e os europeus em geral. Já estive muitas vezes no Brasil, conheci muitos estados, mas nunca me imaginei vindo como autor. É uma emoção diferente. Já estive por aqui, inclusive, como editor, participando de vários eventos literários. Mas nunca senti a mesma emoção que agora, nestas sessões e encontros que são mais valiosos justamente porque tem relação com aquilo que gosto e quero efetivamente: ser escritor.
Eu queria abordar alguns temas universais da literatura. A morte é um tema universal da literatura, isso não é dúvida para ninguém. A amizade também é, assim como o amor. Todos eles estão ali dentro de algum modo. Mas eu queria que o livro tivesse um pé no século XXI. O narrador, por exemplo, é viciado no celular e nas redes sociais.
Então, como colocar dentro do romance o universal e o local, sem que isso fizesse dele um livro demasiado local, demasiado regional, demasiado português? Eu não queria que isso acontecesse. Eu queria que o livro pudesse ser lido em qualquer geografia, em qualquer latitude. O processo não foi propriamente consciente.
Quem lê o livro repara que ele está cheio de referências à cultura portuguesa. Caso o leitor não conheça, pode ficar até um pouco perdido. Ele fala, por exemplo, de apresentadores da TV portuguesa e referências da atualidade do país. Mas sei que isso não impede o leitor de se identificar. Porquê? Porque, na verdade, os problemas básicos são os mesmos para todo mundo, mesmo vivendo experiências em lados opostos do mar, não é mesmo? Nós estamos aflitos acerca da saúde de nossos pais, angustiados pelo futuro de nossos filhos, sofremos com um desgosto amoroso. Os problemas são sempre os mesmos.
Acredito que na literatura nós devemos partir destes temas universais e depois colocamos nossas inquietações, angústias e obsessões. Acho que estes três ingredientes são fundamentais na construção de um livro. Portanto, o que está aqui em “Baiôa sem data para morrer” são as minhas inquietações, angústias e obsessões. Como, por exemplo, o tema da morte.
Essa questão do desaparecimento desses pequenos vilarejos é uma coisa muito atual em Portugal. Somos um país inclinado para o litoral. Toda a gente vem para o litoral e essas terrinhas pequeninas ficam abandonadas. A questão é que não só as terras que são abandonadas. Ficam lá os velhinhos também. As famílias vão trabalhar na cidade grande e deixam lá os pais, os avós e os tios isolados, sozinhos e esquecidos. E não são apenas as pessoas que os esquecem. O Estado também esquece. Ontem, um motorista do táxi aqui em Belo Horizonte me disse essa frase: “Ah, esses lugares onde o Estado nunca chega”. Eu respondi dizendo que parecia que ele tinha lido meu romance, pois há uma expressão semelhante ali: “O Estado nunca chegou aqui”.
Tem certamente algumas coisas, mas não muitas. Acho que há mais de mim no Joaquim Baiôa do que no narrador, apesar da nossa diferença de idade – minha idade é mais próxima daquela do narrador. Claro, há sempre muito do autor, tudo aquilo que ele foi acumulando ao longo da vida, nos personagens de um livro, sobretudo nos narradores. Mas eu sou – ou gostaria de ser – um autor da imaginação. A maioria das coisas que estão neste livro são completamente inventadas. Eu não fiz pesquisa, não fiz nenhum tipo de trabalho de campo. Prefiro imaginar do que ver ou testemunhar. Eu não quero escrever o que existe, quero escrever o que poderia existir. É este exercício que me interessa. Eu nunca seria um escritor da memória, quero ser um escritor da imaginação.
O ficcionista procura, através da mentira, contar a verdade. É isso o que nós fazemos. A maioria do que está nesse livro é mentira. Esse homem não existe, esses personagens não existem. Mas isso é verdade? É também. Eu queria que tudo isso soasse como verdade. Há um pacto da verdade entre o leitor e o autor, não é? Queria que esse pacto acontecesse mesmo que tudo fosse mentira.Gosto quando me perguntam num bate-papo ou numa sessão de autógrafos se tal parte da história é verdade. Eu sempre digo que não. Muito pouco do que está ali aconteceu de fato, coloquei um ou outro episódio real de propósito para que meus amigos identificassem, por exemplo. Alguns pormenores apenas, são brincadeiras, grãos de areia. A ficção também tem esse caráter lúdico. Pra mim isto é um jogo. Se não for divertido, eu não quero escrever. É claro que há momentos que são muito difíceis no processo de escrita, partes que não nos entusiasmam tanto. Mas a maior parte da escrita é prazerosa e divertida.
Conscientemente eu não pensei no “Pedro Páramo”, para escrever “Baiôa sem data para morrer”, embora eu adore o livro do Juan Rulfo. Já o li mais de uma vez, inclusive. Mas, quando escrevi meu livro, já tinha lido “Pedro Páramo” há muitos anos e ele não estava em minha mente. Mas é aquilo: nossas influências são um conjunto de nossas leituras e, dentro desse conjunto, há algumas que se destacam, pois foram aquelas que nos influenciaram mais. No meu caso, há também autores como Italo Calvino, José Saramago, Carlos Fuentes. Esses autores deram forma às coisas que mais gosto de ler e é inevitável que algumas delas surjam também na minha escrita. Toda escrita é uma reescrita, toda criação é uma recriação. Nós não podemos aspirar a originalidade absoluta, isso é uma utopia. Nós somos fruto do que outros escreveram, tanto como autores, quanto como leitores. Mesmo enquanto civilização, somos fruto de um trabalho conjunto.

Na ficção nós também temos um espaço para a reflexão, para o pensamento. Eu acho que a ficção é um espaço de liberdade também por isso. Dentro dela cabem algumas técnicas narrativas do jornalismo, por exemplo, como a crônica e a reportagem, ou da poesia, pois há uma dimensão lírica na escrita. E há também o espaço para a reflexão e o pensamento que são típicos do ensaio, mas também podem estar dentro de um romance. Um bom romance, por vezes, junta todas essas possibilidades dentro de uma só. Tudo pode ser colocado na ficção pois ela é um espaço de liberdade total.
Em meu novo romance, em processo de escrita, há uma mistura entre fatos históricos e coisas completamente inventadas. Estou curioso para saber o que as pessoas vão achar disso. Por um lado, pode ser uma pequena sacanagem com o leitor, mas por outro é justamente assim que criamos um mundo mais complexo e mais rico, algo que é bom para quem for ler. Liberdade total, é isso o que a ficção é.
Encontre “Baiôa sem data para morrer” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 12/09/23