Literatura

Ricardo Aleixo lança “Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite – vidapoesia” em BH

Foto: Rafael Motta / Divulgação.

O novo livro do poeta Ricardo Aleixo é um lançamento da editora Todavia Livros

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Um professor começa suas aulas com poesia. João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira são alguns dos poetas lidos para uma turma onde um único aluno parece ouvir com atenção os versos. Ele não dá aulas de arte, português ou literatura, mas sim de matemática. Um dia, o mestre anuncia que vai dar um tempo na poesia modernista para apresentar a poesia concreta e sua “estrutura matemática”.

“Só sei que quando ele terminou a leitura eu me sentia sem ar e sem chão“. Do contato com poemas concretos numa aula de matemática, deriva “toda a minha vida de poeta e de artista”. Ricardo Aleixo lança “Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite – vidapoesia”, seu livro de memórias, pela Todavia Livros

Foto: Rafael Motta / Divulgação.
Foto: Rafael Motta / Divulgação.

Memórias

Essa é apenas uma das muitas histórias compartilhadas pelo autor neste projeto memorialístico, da infância até o hoje, enquanto escreve parte das páginas que temos em mãos no Rio de Janeiro. Um jovem Ricardo Aleixo, aos 18 anos recém completados, cai uivando de dor após uma bolada no rosto durante uma partida de futebol na vizinhança. A bola acerta em cheio o olho direito.

“Eu queria, precisava acreditar que era só a dor, que eu abriria o olho quando acordasse (…). Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite. Ele me dizia alguma coisa que eu não entendia bem o que era”. Desse acidente, vem a cegueira de um olho. O campo de visão reduzido – ainda mais reduzido hoje com a progressão do glaucoma no outro olho – exige do poeta a adaptação. “Esse ver pela metade, hoje, é tudo do que disponho para enxergar o que quer que seja. Existe tanta coisa para ver, tanta coisa em movimento, que às vezes me vem a sensação de que não é de todo ruim ter esse campo visual reduzido”.

Visão

É interessante perceber como essa relação com a visão parece permear todo o processo artístico do escritor. Os poemas de Ricardo Aleixo ultrapassam as barreiras das páginas lidas silenciosamente. São textos que pedem para ser ditos em voz alta, ganham corpo no corpo do poeta, nas performances que realiza a partir de seu repertório. Aleixo é um artista da palavra, da imagem, do corpo e do som. “Pois ele usa seu corpo, seu ar,  sua voz, como componentes básicos da Poesia (como na realidade sempre são, mas temos medo de usar). Ele usa o palco, o ‘público’, como elementos dessa energia”, Aleixo cita um comentário do poeta Claudinei Viana sobre sua obra.

“Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite” é um itinerário íntimo pela trajetória do poeta mineiro. Cada breve capítulo – “que projetei como espaços multissensoriais, desbordantes, grandes e cheios de pontas soltas” – guarda, como relicários, aquilo e aqueles que estiveram ao seu lado ao longo de todo esse tempo. Íris e Américo. Mãe e pai. As duas figuras fundadoras: a primeira professora e aquele que exigia dos filhos um bom desempenho na leitura e na caligrafia. A irmã, Fátima, com quem leu a maior parte da bibliografia usada por ela na graduação em Letras. Das influências, de Milton Nascimento à Lygia Pape, e dos mestres que um dia se tornaram amigos, como Augusto de Campos. “Da importância de Augusto em minha vidapoesia já falei inúmeras vezes, e sempre terei o que acrescentar”.

Simbolismos

Existem, ainda, dois espaços primordiais para a escrita e a vidapoesia do escritor. Espaços esses que são tanto físicos quanto simbólicos. Há a rua. A rua que corre fora e corre dentro do corpo do poeta. “Dentro do meu corpo passa, lenta, uma rua entrecortada por outras ruas que se movem todo o tempo em busca de outras possíveis ruas que porventura nasçam dentro do meu corpo como se fossem rios e não ruas”.

A rua não está mais só em Belo Horizonte. É o Rio de Janeiro, Salvador, Zurique, Barcelona, numa obra que ganhou o mundo. A rua como um espaço não demarcado, sem limites para o desenvolvimento desta vidapoesia. E o bairro de Campo Alegre, na zona norte da capital mineira. Local de formação como poeta e, sobretudo, como ser. Um ser que não é único, é um ser-muitos. Ou, como ele mesmo cunha, essa “pessoa-muitas” que vem se tornando. “A cidade sou eu. Qualquer cidade. E eu sou muitos. Pessoa-muitas”.

Mudanças

Neste livro de memórias, Ricardo Aleixo nos diz inverter prioridades. Se deixou de priorizar a prosa em favor da poesia ao longo de boa parte da carreira, é a primeira que ganha destaque aqui. Mas, como não poderia deixar de ser, a poesia busca seu espaço na construção do texto, no olhar que Aleixo direciona para aquilo que construiu ao longo de décadas de vida dedicada à arte. Afinal, mais que uma vida, é uma vidapoesia, não é mesmo? É de uma beleza sem par a construção de neologismos na escrita do poeta. A língua parece não dar conta de tudo aquilo que ele tem para nos dizer, de todas as imagens que quer construir. “Vagamundo poeta”, “poetnologia”, “pessoa-muitas”. Mais que escrever, Ricardo é um artesão das palavras. 

Encontro com Ricardo Aleixo no Mercado Novo, em Belo Horizonte 

Quem estiver na capital mineira neste sábado (17/12), terá a oportunidade de encontrar o escritor e adquirir um exemplar autografado deste novo livro no Mercado Novo. O poeta organiza o Bazar de Fim de Ano do LIRA (Laboratório Interartes Ricardo Aleixo) na Papelaria Mercado Novo entre 11h e 15h.

Além de “Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite”, estarão disponíveis seus trabalhos mais recentes como “Extraquadro” (finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia) e o volume da coleção “BH. A cidade de cada um” dedicado ao bairro Campo Alegre, além de cartazes e outras surpresas.

Endereço: Av. Olegário Maciel, 742 – Loja 2176 | Corredor J

Encontre “Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Publicado em 16/12/22

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