Filme francês vencedor do prêmio de roteiro no Festival de Cannes em 2019 é dirigido por Céline Sciamma. Está disponível para aluguel e compra no streaming
Retrato de uma Jovem em Chamas. Foto: MK2 Diffusion
No filme Retrato de uma Jovem em Chamas, vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes em 2019, a pintora Marianne (Noémie Merlant) recebe uma missão um tanto quanto diferente. Ela precisa fazer um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) baseado, apenas, nas próprias memórias. A jovem nobre que passa temporada em uma isolada casa de praia não posa. A razão? Protesto. A finalidade do quadro é ser enviado a um pretendente. Tudo isso no século XVIII.
Héloïse estressou vários pintores que se dedicaram à missão. O último recurso utilizado pela mãe, então, foi convidar uma mulher para assumir o posto. Uma raridade naquela época. Assim, em meio a uma possível amizade, a artista poderia trabalhar a partir dos registros guardados na lembrança.
Mineração
Pois a memória também é o que conduz este texto. Mas, neste caso, não tem a ver com protesto e sim com uma espécie de mineração crítica. O que fica do filme é realmente aquilo que marca. Isso significa que este texto está sendo escrito cerca de três meses depois de ter assistido à produção dirigida por Céline Sciamma. E então, qual é a conclusão?
Retrato de uma Jovem em Chamas é um filme em que até os silêncios falam. E muito! Penso ser um daqueles casos em que a presença de uma mulher na direção faz diferença não apenas no modo como conta a história, mas em todos os detalhes. Céline tem um tempo muito particular para narrar cada fase do encontro entre Marianne e Héloïse. Não deixa de ser um jogo de sedução. Muitas pessoas podem até achar lento. Me pareceu ideal.
O contorno
Como em geral acontece com os grandes filmes, todos os detalhes de Retrato de uma jovem em chamas têm algo a complementar na trama. A trilha sonora, por exemplo. Em muitos momentos ressalta-se o barulho de lareira queimando, fogueira, coisa do tipo. Há algo em um processo de incineração.
Outro elemento que chama a atenção: a direção de arte. Héloïse passa uma temporada isolada em uma casa de praia acompanhada apenas da mãe e de uma criada. O vazio do lugar – interno e externo – diz também sobre a solidão das protagonistas? Me pareceu que sim. Tem ainda a fotografia, sempre em diálogo com a direção de arte. No início, os tons da tela puxam para o marrom e o azul. O verde – da esperança? – entra a partir do momento em que há uma mudança importante no rumo da trama. É quando o roteiro surpreende e se faz merecedor do prêmio em Cannes.
No caso do filme de Bergman, duas mulheres (Bibi Andersson e Liv Ullmann) também ficam isoladas em uma casa de praia, tornam-se cúmplices. Assim como Retrato, Quando duas mulheres pecam (1966) também diz sobre solidão.
Comparativo feito pelo site Pinnlandempire
Uma das sequências mais geniais de Retrato de uma jovem em chamas é o primeiro encontro das duas. Héloïse corre em direção ao mar. Faz lembrar um trecho da peça Por Elise, de Grace Passô: “Sou forte, como um cavalo novo, com fogo nas patas, correndo em direção ao mar”.
As mãos e os braços
Como é comum em muitos filmes sobre “amor proibido”, mais do que as palavras, são outras partes do corpo que falam. No caso delas, os olhos, a respiração, as mãos. Mérito de um bom trabalho de interpretação e direção de atores. Sendo assim, vale também ficar de olho no desenvolvimento das carreiras das atrizes Noémie Merlant e Adèle Haenel. Elas conseguiram passar uma angústia silenciosa o que contribui muito para o longa.
Tome seu tempo
Quem quiser mais opiniões sobre o filme vale ouvir o podcast Plano Geral apresentado por Flávia Guerra e Thiago Stilavetti. Eu concordo com a opinião da Flávia: Retrato de uma jovem em chamas é um filme sobre o amor. Acrescento, porém, uma reflexão a isso. Quando será que as histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo serão retratadas no cinema de maneira leve?
Por que sempre – ou na maioria das vezes – que esse tipo de romance é contado, há muita tensão, misturada com tesão. O proibido é gancho para suspense? A diferença é que em filmes dirigidos por homens, por exemplo, esse elemento é explorado sexualmente.
Embora avance inúmeras casinhas nesse quesito – que inclusive tem outros filmes com casais lésbicos no currículo como Water Lilies (2007) – Céline Sciamma ainda não consegue virar totalmente a página. Será pelo fato de ser um filme em outro contexto histórico? Não importa. De todo modo, pela lente dela, a tensão vira mais sensualidade e cumplicidade do que sexualidade.
Queremos casais do mesmo sexo naturalizados nas comédias, comédias românticas, suspense, terror, dramas. Em resumo: quando será que as relações homoafetivas poderão ser tratadas sem diferença, com humor e leveza em todos os gêneros cinematográficos? E mais: com final feliz. Já passou da hora. Amor é amor. E ponto.