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Polifônico e brutal, “Atos humanos”, de Han Kang, revisita violento capítulo da história sul-coreana

Livro é um lançamento da editora Todavia no Brasil e se passa no contexto da Revolta de Gwangju, na Coreia do Sul
atos humanos
Capa do livro "Atos Humanos", de Han Kang. Crédito: Editora Todavia.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura do Culturadoria

“Após perdermos vocês, nossos tempos tornaram-se noite.

Nossas casas e ruas tornaram-se noite.

Dentro da noite que não escurece mais, nem clareia novamente 

nós comemos, andamos, dormimos.”

De 18 a 27 de maio de 1980, uma insurreição popular na Coréia do Sul ficou conhecida como Revolta de Gwangju. Durante esse movimento, civis se revoltaram contra a ditadura de Chun Doo-hwan, pegando em armas e tomando o controle da cidade de Gwangju. A revolta foi brutalmente contida pelo exército sul-coreano, resultando em centenas de mortos, feridos e desaparecidos.

Em Atos humanos (Editora Todavia, tradução de Ji Yun Kim), Han Kang reconstrói esse trágico e vergonhoso capítulo da história do seu país, criando um mosaico de vozes e vivências, do individual ao coletivo, de diferentes personagens afetados pela violência oficial. Numa escrita engenhosa, a autora caminha por momentos de uma tocante sensibilidade poética, nunca caindo em uma escrita melodramática ou autopiedosa, para outros de clara brutalidade, com descrições gráficas de violências perpetradas e sofridas.

Entre as múltiplas vozes encontramos a de um estudante procurando o corpo do amigo em meio à multidão de cadáveres que tomam o chão de um ginásio, do espírito de uma vítima buscando entender a situação na qual se encontra, de sobreviventes – não só do massacre, mas da prisão e torturas posteriores – e de uma mãe enlutada.

Escrita sensorial

Acompanhamos um grupo de jovens que, no ginásio, trabalham com o recebimento, o acondicionamento e o reconhecimento dos corpos de outros jovens estudantes. Esses corpos formavam uma multidão que não gritava, não se movia e nem tocava as mãos, um narrador nos diz. A autora não poupa o leitor nas descrições dos cadáveres, das feridas causadas por punhaladas, golpes de cassetetes e armas de fogo. Enquanto os corpos esperam a chegada de alguém que os reconheça, a decomposição é inevitável. A escrita de Han Kang é sensorial, sentimos no texto este cheiro que impregna as páginas.

“Depois de lavar o rosto e o pescoço com a toalha molhada e pentear o cabelo desalinhado, enrolavam os corpos com plástico para bloquear o cheiro. Enquanto isso, registravas no livro o gênero deles, a suposta idade, a roupa e o tipo de sapato, identificando-os com números”.

Há uma imagem que Han Kang constrói aqui que pra mim é muito forte: os cadáveres empilhados por soldados, formando um “pagode de corpos”. Esta imagem do “pagode de corpos” retorna algumas vezes ao longo do texto. O pagode é uma espécie de torre, com múltiplas beiradas. Em diferentes culturas da Ásia, este tipo de construção é utilizada para templos religiosos, um local sagrado. Numa inversão, aqui, os corpos são tratados como qualquer coisa, menos algo sagrado.

Elo entre os acontecimentos

Os capítulos de Atos humanos se conectam, personagens e lugares perpassam por diferentes momentos do texto. Mas o principal elo é o trauma. O trauma da violência, da perda, da tortura, da censura e do luto. Estas memórias que assombram, permanecem com as vítimas décadas depois. Há também um sentimento de culpa que atravessa os diferentes relatos e narradores que encontramos aqui: a culpa por sobreviver.

Pouco a pouco vamos construindo este quebra-cabeça de um país em estado de exceção. As violências não só físicas mas também simbólicas, no cotidiano de famílias, de estudantes e de trabalhadores. O governo com seus policiais à paisana, a perseguição sindical e a imposição de uma lei marcial. A tinta preta da censura, tingindo não só livros, letras de músicas e textos teatrais, mas tingindo a liberdade de pensamento. A tortura como forma de deixar claro que não se tem direito nem sobre o próprio corpo: “Um pedaço de carne que apodrecia, isso era eu”.

Mais do que o assassinato de indivíduos, o objetivo do governo ditatorial era matar um ideal de juventude: o espírito jovem que busca e exige a luta por liberdade e transformações sociais. Em sua polifonia de vozes, vemos em Atos humanos a força e a importância do testemunho: não permitir que as vítimas sejam esquecidas. Olhar para o passado, por mais cruel e dolorido que seja, para evitar que ele se repita. 

Encontre Atos humanos aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel.

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A autora Han Kang. Foto: Jean Chung / The New York Times

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