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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Por que Petra Costa é uma diretora para se prestar atenção?

A diretora de Democracia em Vertigem tem um trabalho marcado por filmes que apresentam pontos de vista muito pessoais sobre questões relevantes para a sociedade contemporânea

Por Carol Braga

30/07/2019 às 08:41

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Petra Costa. Foto: Diego Bresani/divulgação

A estreia do documentário Democracia em Vertigem na Netflix chamou a atenção para o nome de uma jovem diretora: Petra Costa. A cineasta de 36 anos tem três longas-metragens no currículo e dois curtas. Todos eles têm algo em comum. Em resumo: é um cinema que Petra procura analisar o mundo, mas sempre a partir de um ponto de vista. No caso, o dela. O que ela vê, o que ela sente e principalmente como processa essas emoções por meio dos filmes.

Por ser um cinema em primeira pessoa, é natural que os espectadores se dividam em dois grupos. Aqueles que embarcam nas mesmas causas que ela e, assim, tem uma experiência baseada na empatia. A outra turma segue em sentido oposto. Por não compartilhar da mesma visão de mundo, ter “causas” diferentes, acaba se distanciando e não experimentando o que ela, de certa forma, também propõe. Ou seja: o exercício de alteridade.

Por tratar de política, em especial sobre o processo que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma, Democracia em Vertigem amplifica essa divisão. A temática e o contexto que estamos vivendo faz também com que a diretora se implique ainda mais na narrativa do filme. Mas, vale ressaltar novamente, dizer de si mesma é uma característica do cinema de Petra Costa. Se ela assume isso, tá tudo certo, não?

Início da carreira

A diretora iniciou a carreira no teatro. Nascida em Belo Horizonte, se mudou com a família para São Paulo quando tinha um ano de idade. Fez teatro na USP e depois se graduou em Antropologia, na Columbia University, em Nova York. Seja na academia ou nas artes, Petra sempre procurou investigar aspectos relacionados ao humano. No mestrado, por exemplo, estudou o conceito de trauma.

O primeiro curta-metragem que alcançou projeção internacional foi Olhos de ressaca (2009). Os protagonistas do documentário são os avós de Petra, Gabriel e Vera que contam a própria história e, consequentemente, a da família. A produção ganhou muitos prêmios, entre eles, melhor curta nos festivais do Rio e de Gramado.

 

Petra Costa em Elena. Foto: Busca Vida Filmes/Divulgação

 

Elena

Foi com Elena, porém, que a projeção internacional da diretora se ampliou. É um filme que, de maneira artística e poética, fala sobre o luto. Mais do que isso, aborda um tema bastante difícil: o suicídio. No caso, Petra conta (e assim elabora) sobre o suicídio da própria irmã.

Foi o documentário mais visto no Brasil em 2013. No período em que circulou por festivais, esteve nas telas da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Semana dos Realizadores (Rio de Janeiro), no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e no Festival de Brasília do Cinema Nacional, onde foi muito premiado. Conquistou, por exemplo, os troféus de direção, montagem, direção de arte e melhor filme pelo júri popular. Mais uma vez, é um cinema pessoal.

O documentário se desdobrou também um livro no qual intelectuais, críticos de cinema e colegas do audiovisual ampliam a reflexão sobre a obra. “Elena, o filme, é a trajetória de uma mulher em busca de ser não mais duas, mas uma. Trata de um tema crucial para todas as mulheres, a individuação. O arrancar-se do corpo de uma outra – mãe … (irmã) – para poder existir”, escreveu Eliane Brum sobre o filme.

Olmo e a gaivota

Já no segundo longa da carreira de Petra, ela se distancia um pouco da personagem principal. Não narra a história em primeira pessoa porque dirige em parceria com Lea Glob. Mesmo assim, é a reflexão das cineastas sobre o tema que vale a pena. Em Olmo e a Gaivota o feminino e o direito da mulher de decidir qualquer coisa sobre o próprio corpo são questões centrais. Como sempre, Petra Costa faz provocações, sobretudo sobre as fronteiras entre ficção e realidade.

O fio condutor é a história da atriz italiana Olivia Corsini, integrante do grupo teatral francês, Théâtre du Soleil. Ela estava prestes a protagonizar A Gaivota, de Tchekov, quando descobriu estar grávida. Com um detalhe: é uma gravidez de risco e o marido de Olivia, faz parte do elenco. Ele continua na peça e ela é “obrigada” a sair.

O documentário acompanha, portanto, os nove meses da gestação da atriz. Neste período, propõe várias reflexões sobre liberdade, medos, escolhas. “Se Elena explorou o desafio que é criar raízes no mundo, – torna-se um ser, adulta, mulher –, em Olmo e a gaivota minha vontade é entender esse segundo momento, em que é necessário desapegar dessa identidade conquistada, criando condições para que um outro nasça, seja um bebê ou uma nova versão de si, enraizado como um Olmo (uma árvore) ou alçando vôo como uma gaivota”, afirma Petra no material de divulgação do filme.

 

Cena de Olmo e a gaivota. Foto: Pandora Filmes/Divulgação

 

Democracia em vertigem

No breve texto sobre Elena, publicado no livro sobre o longa, o documentarista João Moreira Salles diz ter perdido a conta de quantas vezes foi questionado sobre para que serve um documentário. Sendo assim, ele acredita não existir uma boa resposta para isso.

Aliás, para João, a prova dos nove de um documentário não reside na razão de sua feitura, mas “na força com que o próprio filme afirma sua existência”. Isso, a meu ver, se encaixa perfeitamente a Democracia em vertigem. Os filmes dispensáveis, segundo ele, “são aqueles que não conseguem convencer o espectador de que são necessários”. “Os outros, poucos, não deixam dúvida de que, por causa deles, alguma coisa mudou. Pode ser a nossa percepção das coisas, a nossa empatia com o mundo, o próprio cinema. O espectador sabe. Algo se adensou”, conclui João Moreira Salles.

Independentemente da ideologia política, a experiência diante de Democracia em vertigem é densa. No meu caso, o sentimento foi, de um lado, tristeza. Mas do outro, curiosamente, um alívio de, por enquanto, ver que a arte, o documentário, ainda pode cumprir parte do seu papel. Como bem disse João, o de despertar novas percepções para as coisas, gerar empatia, nem que seja por um outro ponto de vista. Mesmo diante de um lamentável contexto.

 

 

 

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