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Pérolas no Mar: o poético cinema contemporâneo da China

Por Thiago Fonseca *

30/10/2018 às 15:33 | *Colaborador

Publicidade - Portal UAI
Foto: Reprodução Netflix

Jianqing (Boran Jing) é um jovem do interior da China que sonha em se dar bem no mercado de videogames de Pequim. É um rapaz romântico. Xiaoxiao (Dongyu Zhou) também é uma garota de uma cidade pequena. Procura ser alguém na vida no competitivo mercado da capital. Não é tão ambiciosa. É uma moça que vive emoções imediatas. O agora lhe basta.

Quem se animar ver Pérolas no Mar (2018), produção chinesa exclusiva da Netflix, dirigida por Rene Liu, vai conviver com esses dois praticamente durante as duas horas do longa. Ainda bem que são ótimos atores, daqueles que te cativam. Eis o primeiro aspecto curioso dessa produção: o elenco é reduzidíssimo, se passa em poucas locações e, mesmo assim, prende a atenção. Ou seja, o filme é bom. Mas é preciso dar uma chance ao ritmo mais lento da narrativa.

Outro aspecto diferente é o país de origem. É, o não é, maravilhoso o poder ter contato com a produção contemporânea de um país como a China? Ainda mais em um filme que fala sobre o amor. Em resumo: se tratando de temas universais como este, tanto faz se você está na China, nos EUA, na França ou no Brasil. Palmas para o streaming!

 

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Enredo

O filme de Rene Liu se inicia com uma ideia sobre amor um tanto quanto romântica demais. Ela representa isso no pensamento de Jinquing. Para ele, a pessoa ideal para ser companheira/o para o resto da vida seria aquela capaz de buscar as estrelas do céu ou as pérolas no mar para entregar ao amado. Imediatista, Xiaoxiao não compartilha dessa visão. No entanto, vive em busca do par ideal sem se dar conta do próprio entorno.

Na construção dos dois personagens percebe-se a quebra da visão romântica construída pelo próprio cinema ao longo do século XX. O que as comédias românticas e o dramas sempre venderam foi a ideia do “e foram felizes para sempre” juntos. Pérolas no Mar oferece alternativas a esse clichê.

A narrativa do longa se passa em dois tempos bem marcados. Quando adolescentes, os protagonistas se conhecem em um trem. Tornam-se amigos, muito amigos. Constroem uma afinidade tão grande que acabam deixando que isso se transformasse em algo mais. Jianqing talvez buscasse pérolas no mar para Xinxiao. Mas será que ela gostaria?

Anos mais tarde eles se encontram novamente. Ao invés do trem, topam em um avião. Involuntariamente são forçados a reviver a conexão do passado. A primeira lição: sintonia não acaba com o tempo. Se você tem amigos de escola, deve saber do que estou dizendo. Outra coisa, as escolhas que faz ao longo da vida vão moldando quem és. Nem melhor, nem pior.

 

Foto: Reprodução Netflix

 

Fotografia

A trajetória do passado deles é marcada por uma fotografia granulada, em cores mais escuras, mas colorida. O presente é preto e branco, bem mais frio, mas não menos interessante. Quem filma em P&B sabe de todas as nuances que os tons de cinza tem. A vida também é assim. Quanto mais maduro, mais complexo. A diretora usa a paleta de cores para marcar o tempo, a conexão entre os personagens. Não deixa de ser, também, uma metáfora da vida.

A melancolia que marca a história de Jianquing e Xiaoxiao faz pensar sobre um monte de coisa. Sobre o saudosismo de planos não concretizados, sobre o respeito às escolhas, sobre sentimentos e pessoas que se transformam. Ou seja, cada ser humano tem seu próprio limite. Vive as emoções – e as escolhas – da forma como dá conta.

Isso não significa que existam finais e nem que eles sejam tristes ou alegres. Somos seres em mutação. Menos romantizados e mais reais.

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