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Quadrinho ‘Pele de homem’ e a reflexão contemporânea sobre machismo

Em ‘Pele de homem’, os franceses Zanzim e Hupert falam dos dias de hoje mas com ares da Itália renascentista

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Em Pele de homem, os franceses Zanzim e Hubert tratam com muita leveza e bom humor temas como o machismo, a sexualidade, o gênero, as imposições sociais sobre o corpo e o comportamento feminino, a moral e a religião. Dessa maneira, os artistas trazem temas em voga na sociedade contemporânea, mas deslocam o debate para a Itália na época da Renascença. Com tradução de Renata Silveira, o quadrinho é um lançamento da editora Nemo.

Quadrinho Pele de Homem. Foto: Hubert Zanzim / Editora Nemo
Quadrinho Pele de Homem. Foto: Hubert Zanzim / Editora Nemo

Na Itália Renascentista, a jovem Bianca está prestes a se casar com Giovanni. Mais que um casamento, a união é um acordo comercial entre duas famílias de posses. Não há escolha para a jovem a não ser se casar com um homem que nem conhece. Pouco antes da data do casório, ela descobre um segredo das mulheres de sua família: uma pele de homem. Como uma fantasia, ao vestir essa pele, Bianca pode viver como um homem. Sendo assim passa a gozar dos privilégios e dos prazeres mundanos restritos aos sexo masculino em uma sociedade tradicional. Com a pele, ela se transforma em Lorenzo.

Pele de homem transita por temas fortes e ainda urgentes, a cidade italiana retratada no quadrinho é assustadoramente atual. Bianca é uma protagonista inconformada com as exigências impostas às mulheres. Cabe ao feminino o recato, a obediência e o silêncio. O sexo como uma obrigação, com um único objetivo: gerar filhos. E que estes sejam, de preferência, do sexo masculino, privilegiados. Os conflitos da personagem ganham nova dimensão quando ela passa a vestir a pele de Lorenzo. O objetivo, então, é se aproximar e conhecer o futuro marido antes da cerimônia.

Minúcias e cores

Os desenhos de Zanzim são um show à parte. Ou seja, chama atenção o cuidado na criação dos quadros e os detalhes. É daqueles trabalhos em que perdemos a noção do tempo ao observar uma página. As minúcias aparecem tanto nos desenhos de uma briga generalizada como em uma celebração carnavalesca. Há um interesse especial de Zanzim pela arquitetura do período, construindo ambientes que remetem muito ao trabalho do holandês Escher: construções labirínticas, repletas de escadas, portas e passantes.

E ainda há as cores. Pele de homem tem tons vibrantes e coloridos, que refletem a própria voz do quadrinho. Em momentos específicos, por exemplo, há a predominância de diferentes tons.

Se a pele de homem que Bianca veste tem muito de mágico, de fantástico, possibilitando que esta se transforme em um segundo personagem e viva uma nova realidade, encontramos no quadrinho outras diversas peles, que são vestidas por seus personagens, de acordo com um contexto ou uma situação. Essas peles estão não só no quadrinho, mas no mundo real, onde interpretamos diferentes papéis sociais, que ditam nossos comportamentos, ao longo da história humana. Um quadrinho ambientado na Itália renascentista diz muito sobre hoje e sobre como nos escondemos sob diferentes peles. E, ainda, como aqueles que se recusam a interpretar os papéis que lhe são esperados ainda incomodam.

Encontre “Pele de homem” aqui!

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

Quadrinho Pele de Homem. Foto: Hubert Zanzim / Editora Nemo

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