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Em autobiografia, Elliot Page reconstrói seu processo de transição de gênero

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Corajoso e necessário, “Pageboy”, de Elliot Page, revela a transfobia que se esconde por trás do mercado cinematográfico de Hollywood

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Aos 36 anos, Elliot Page tem no currículo uma série de célebres trabalhos, na televisão e no cinema. “Juno”, “A Origem” e “The Umbrella Academy” são apenas algumas das obras que contam com o ator em seu elenco.

Fotografia digital de Elliot Page. Ele é um homem branco, transgênero, de cabelos castanos curtos. Está sério e usa paletó bege com blusa branca
Elliot Page. Foto: Ryan Pfluger

Se, nas telas, Elliot interpretou uma série de personagens marcantes, em sua vida pessoal o ator canadense se viu obrigado a viver também uma série de papéis que, ao longo de anos, não encaixavam no que ele sentia ser sua essência. Imerso em uma sociedade baseada em ideais heteronormativos e nas diversas faces do preconceito que circulam a indústria cinematográfica, muitas vezes mascarados por um suposto espaço de liberdade, Page levou anos para se libertar e assumir ser uma mulher lésbica, em 2014.

Percurso doloroso

De lá até 2020, um longo e doloroso percurso ainda foi empreendido por ele, para, enfim, levar a público sua transexualidade. “Sair do armário em 2014 foi mais uma necessidade que uma decisão, mas, sim, foi uma das coisas mais cruciais que já fiz por mim mesmo. (…) No entanto, lá no fundo um vazio permanecia. Um sussurro. Ainda muito vívido em meus ouvidos”. 

Elliot Page é um dos mais conhecidos atores trans de Hollywood e em seu livro de memórias, “Pageboy”, ele compartilha conosco o seu intenso processo de transição, os traumas, descobertas e alegrias que o levaram a, enfim, reencontrar a si mesmo. Lançado pela Intrínseca, o volume de memórias tem tradução de Arthur Ramos.

Capa de “Pageboy”. Editora Intínseca.

Pageboy

“Pageboy” é um livro duro. Apesar de fluidez da prosa de Elliot, que avança e recua no tempo, indo da infância até a sua transição, o livro é permeado por memórias traumáticas, muitas delas dentro de Hollywood, em situações de assédio, abuso e transfobia que o ator, de uma coragem tremenda, compartilha conosco.

Em um capítulo intitulado “Sanguessugas”, ele narra alguns fortes episódios de abuso sexual que sofrera, perpetrados por profissionais do mercado cinematográfico. Após se assumir lésbica em 2014, em uma festa, Page ouviu de, segundo ele, “um dos atores mais famosos do mundo”: “Você só tem medo de homem. Homens são predadores e você tem medo da gente. (…) Vou te foder para você entender que não é lésbica”. 

Se “Juno” é um marco na carreira de Page – performance que lhe rendeu uma indicação ao Oscar – o processo de divulgação do filme o obrigou a esconder sua sexualidade. “O sucesso de Juno coincidiu com pessoas da indústria me falando que ninguém podia saber que eu era LGBTQIA+. Disseram que não seria bom pra mim, que eu precisava ter opções, e que acreditasse que isso era para o meu bem”.

Mais do roupas

Para pessoas cis e héteros roupas podem ser apenas acessórios, nada mais do que isso. Analisadas apenas em sua utilidade ou valor social. Ao longo das páginas de “Pageboy”, vemos como elas têm um papel crucial na trajetória do ator. Roupas como construção de uma identidade. Da infância até os papéis no cinema e na televisão, os vestidos e demais vestimentas tidas como femininas foram, por diversas vezes, objetos de violência. Uma violência que se esconde sobre uma cultura binária. Em ponto completamente oposto, o uso de uma sunga, ainda na infância, foi um momento de descoberta de uma nova liberdade naquele período – uma liberdade que seria, décadas depois, experimentada novamente, ao vestir, enquanto homem trans, uma roupa de banho.

Page mergulha em sua intimidade de maneira muito franca. São muitos os seus momentos à beira do abismo, acompanhado pela depressão e por transtornos alimentares – uma maneira de lutar contra um corpo que se desenvolvia contra a sua vontade. “Estava pesando 38 quilos, os braços tão finos que dava para passar pelos pulsos o protetor térmico do café e deslizá-lo até o ombro. Eu estava desaparecendo”.

Corajoso e necessário

Quanto mais sucesso alcançava na indústria, mais sua autoconfiança parecia ser minada. Quanto mais era visto, mais era obrigado a se esconder: a esconder quem realmente era. “Ser informado de que era inadequado, errado, o pequeno invertido que precisava ser escondido, e ficar mais famoso à medida que me repudiava, era uma corda bamba na qual eu andava desde que me entendia por gente. (…) Eu tinha nojo de mim tanto quanto eles”.

Corajoso e necessário, “Pageboy” é um livro sobre encontrar a si mesmo. Enxergar no espelho, finalmente, aquela pessoa que desejamos e sentimos verdadeiramente ser. É um livro sobre os diversos papéis que seu autor se viu obrigado a interpretar ao longo da vida: dentro e, principalmente, fora das câmeras. É sobre as inúmeras violências que pouco a pouco tentam moldar uma existência trans. Mas é também um livro sobre a resistência, sobre o amor, o desejo e o afeto. É sobre Elliot Page e é, também, sobre tantos outros, outras e outres. “Me deixe apenas existir no mundo, mais feliz do que nunca”.

Encontre “Pageboy” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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