Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Oleg”, de Frederik Peeters: quando o cotidiano se transforma em arte

“Oleg é um quadrinho do cotidiano, o vislumbre da intimidade de um homem e daqueles que o cercam.”

Em Oleg, conhecemos o personagem-título, um quadrinista, marido e pai atencioso. O trabalho, um bloqueio criativo em andamento e a vida familiar se relacionam e se misturam nesta narrativa autobiográfica, do autor do premiado Pílulas Azuis, Frederik Peeters.

Frederik é Oleg. Um duplo.  A filha do personagem comenta ter reparado que mudando a ordem das letras seu nome pode virar “Lego”. Ele responde que também dá para formar “L’Ego”, “O Ego” em francês. Este é Oleg: as peças que formam Peeters – peças abundantes e variadas como sua família, sua arte, o mundo em constante mudança e ciclicamente em crise que o cerca – são transpostas para os quadrinhos, construindo este alter-ego do autor. 

Oleg é um cara avesso à tecnologia, ao ritmo frenético do mundo contemporâneo, em constante mudança. Acho que isso diz muito de sua carreira também: o quadrinho é uma arte que requer tempo e paciência para se desenvolver, uma HQ pode levar anos para ser produzida, mesmo num ritmo constante de trabalho diário. No encontro com uma turma estudantil, uma aluna se assusta quando ele comenta ter levado um ano para produzir sua última obra. 

Oleg. Foto: Editora Nemo
Oleg. Foto: Editora Nemo

Mercado

O quadrinho ainda faz uma leitura interessante do mercado editorial: a demanda por um novo trabalho de sucesso, o peso das premiações. Como se reinventar neste ambiente? Para Oleg esta reinvenção repousa naquilo que está diariamente sob seus olhos. Um revés inesperado joga luz sobre a fragilidade da vida e sobre a força e poder das relações.

Frederik Peeters aqui está em sua melhor forma, tanto na escrita quanto nos seus traços. A imaginação e o onírico se misturam, como forma de expressar os diferentes sentimentos que atravessam o personagem ao longo da narrativa, criando quadros de uma tocante beleza.

Oleg é um quadrinho do cotidiano, o vislumbre da intimidade de um homem e daqueles que o cercam. A vida comum, o dia-a-dia como material para a produção artística. E é nesta intimidade que o leitor pode se identificar de forma tão potente. Difícil – eu diria, na verdade, impossível – não se comover com este trabalho. Daqueles quadrinhos que vão te arrancando ora sorrisos, ora lágrimas (quando não os dois juntos), ao longo da leitura. Uma declaração de amor à arte dos quadrinhos e à família, aqueles que estão ali conosco nas crises e nos momentos de celebração.

Oleg é publicado no Brasil pela Editora Nemo. Encontre o livro aqui.

 

Oleg. Foto: Editora Nemo
Oleg. Foto: Editora Nemo

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