Literatura
“O uso da foto”: vestígios do amor de Annie Ernaux e Marc Marie
O livro mergulha em uma multiplicidade de temas centrais ao projeto literário da escritora francesa ganhadora do Nobel
Annie Ernaux | Foto: Sophie Davidson
Literatura
O livro mergulha em uma multiplicidade de temas centrais ao projeto literário da escritora francesa ganhadora do Nobel
Annie Ernaux | Foto: Sophie Davidson
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
O uso da foto, mais recente livro de Annie Ernaux publicado no Brasil – lançado originalmente na França em 2005 –, se debruça sobre instantes únicos e fugidios, emulando uma característica tão própria da fotografia. Aqui, texto e imagem interagem, se relacionam, impactam e transformam um ao outro, como um casal em um relacionamento amoroso e erótico.
Annie Ernaux não está sozinha: trata-se de um trabalho de coescrita, de cocriação, de co-olhar com o fotógrafo Marc Marie. Ou seja, é um casal que escreve e fotografa esse O uso da foto, espécie de diário de um relacionamento. E que não deixa de, nesse processo, radiografar tanto a presença quanto a ausência, tanto o íntimo quanto o coletivo.
“Não me parece haver nada melhor que isso para fazermos juntos — um ato, ao mesmo tempo unido e separado, de escrita. Às vezes, isso também me aterroriza. Abrir o próprio espaço de escrita é mais violento que abrir seu sexo.”
O projeto parte de um dispositivo bem definido. Annie Ernaux e Marc Marie, que iniciam um relacionamento em 2003, passam a fotografar, ao longo daquele ano, os vestígios de seus encontros íntimos. Vestidos, camisas, sapatos, cuecas, lençóis, por exemplo. Tecidos jogados no chão, abandonados após o calor dos corpos que buscam a nudez, o prazer, o gozo. Assim, a partir dessas fotografias, Ernaux e Marie se debruçam, textualmente, sobre os encontros, resgatando memórias, sensações e sentimentos. Reconstituem não apenas o contexto íntimo e particular dessas experiências, mas também algo de coletivo – um tempo histórico que extrapola as paredes de um escritório ou as janelas de um quarto de hotel, como a Guerra do Iraque.
“Tento descrever a foto com um olhar duplo, um do passado, outro atual. O que vejo agora não é o que via naquela manhã, quando desci a escada antes do café da manhã, parada no corredor de entrada com a minha lembrança úmida da noite.”
Ao longo de 2003, Annie Ernaux enfrentou um câncer. Em um exercício de franqueza assombroso, a autora, ao lado do então parceiro, reflete sobre a doença, sobre a transformação do próprio corpo e sobre as possibilidades desse corpo ainda procurar e alcançar o prazer, o ápice. Nesse sentido, se a presença do câncer traz consigo certa pulsão de morte, Annie e Marc expõem, em seus registros fotográficos cotidianos, um relacionamento que se desenvolve, se realiza, evolui com – e apesar – a doença. Um impulso de vida.
Fotografia e escrita, tempo e memória, dor e prazer, corpo e doença, íntimo e coletivo, vida e morte: em suma, Annie Ernaux mergulha em uma multiplicidade de temas centrais ao seu projeto literário. Dessa forma, em um exercício singular de escrita, de olhar e de reflexão, O uso da foto encontra, na ausência dos corpos a – registrada em peças de roupa que, apesar dessa ausência, parecem conservar furtivamente suas formas –, as marcas indeléveis de uma relação e de um tempo histórico.
“Agora, me parece que eu sempre quis conservar a imagem da paisagem devastada de depois de fazer amor. Me pergunto por que a ideia de fotografá-la não me ocorreu antes.”

Encontre “O uso da foto” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 14/01/26